Radicais sequestram meninas cristãs para força-las a aceitar islamismo

Movimento na Europa tenta minimizar perseguição a cristãos criticando estatísticas de mártires, mas até novo número sugerido por eles é alarmante

Radicais sequestram meninas cristãs para força-las a aceitar islamismoO grupo extremista islâmico Boko Haram sequestrou em abril mais de 300 meninas na Nigéria, a quase totalidade de famílias cristãs, e divulgou no início de maio um vídeo de meia-hora de duração em que seu líder, Abubakar Shekau, armado com um fuzil AK-47, afirma que as meninas só serão devolvidas às suas famílias se o governo da Nigéria libertar membros da seita terrorista que estão presos no país. No vídeo, Shekau também ironiza, dizendo: “Vocês fazem todo esse barulho só porque sequestramos essas meninas? Alá as abençoou com a aceitação do Islã”. O vídeo também mostra 130 das mais de 300 sequestradas, todas elas vestidas de hijabs, típicos trajes islâmicos para mulheres, e duas meninas são forçadas a darem testemunho de que seus sequestradores fizeram bem a elas. No vídeo, uma voz masculina pergunta porque elas se tornaram muçulmanas, e uma das meninas responde: “Porque não estávamos no caminho certo para que Alá fique feliz”.

Porém, o que mais chocou, além desse vídeo, é que a maioria do noticiário a respeito do assunto mundo afora nada disse sobre o fato de que esse sequestro tem natureza religiosa. Como afirmou o jornalista Reinaldo Azevedo, na sua coluna diária no site da revista Veja, e um dos poucos a lembrarem esse fato, “a Nigéria tem sido um dos principais palcos de massacres de cristãos, perpetrados por milícias islâmicas. É possível que Shekau e seus amigos delinquentes tenham planejado o sequestro em massa para libertar alguns amigos da prisão. Mas, por que esse ato em vez dos costumeiros ataques terroristas? Porque o Boko Haram está em guerra na Nigéria, antes de mais nada, com o Cristianismo, que não está armado e não mata ninguém. Estimam-se em 100 mil cristãos mortos a cada ano no mundo simplesmente porque fizeram uma escolha religiosa. Em 75% das vezes, seus algozes são milícias islâmicas militarmente organizadas. E isso é apenas um fato. Praticamente a metade da Nigéria, com mais de 170 milhões de habitantes, é muçulmana. Há milhares de autoridades dessa religião no país. Até agora, não houve uma voz que levantasse com a devida força contra práticas do Boko Haram”.

Para piorar, apesar dos crescentes casos de perseguição aos cristãos no mundo, desde o final do ano passado, surgiu uma movimentação na Europa  no sentido de tentar minimizar a perseguição global aos cristãos criticando as estatísticas oficiais sobre o número de mártires do cristianismo no mundo. A organização norte-americana Center for Study of Global Christianity, dos Estados Unidos; a equipe do World Christian Encyclopedia (“Enciclopédia Cristã Mundial”), também dos EUA; a equipe do britânico e centenário Atlas of Global Christinity (“Atlas do Cristianismo Global”); e o Centro de Estudo de Novas Religiões, na Itália, fundado e dirigido pelo renomado sociólogo italiano Massiano Introwigne, têm confirmado repetidamente nos últimos anos que pelo menos 100 mil cristãos são martirizados anualmente em todo o mundo. Segundo essas instituições, cerca de 70 milhões de cristãos foram martirizados desde Jesus Cristo até o ano de 2010, sendo 45 milhões apenas no século 20 (Os regimes comunistas, que mataram ao todo mais de 100 milhões de pessoas só no século passado, foram os principais causadores desse fenômeno macabro no século 20). Nenhuma outra religião do mundo, em toda a história, foi mais perseguida. Ainda segundo os estudos dessas entidades, na primeira década do século 21, a média anual de assassinatos de cristãos em todo o mundo por sua fé chegou a impressionantes 160 mil, caiu para 150 mil e está atualmente, desde 2011, em torno de 105 mil a 100 mil cristãos martirizados por ano. Os principais causadores seriam grupos radicais islâmicos, regimes comunistas e outros grupos radicais religiosos, como alguns radicais hindus.

Ataque e levantamento

Aqueles que se opõem a essas estatísticas atacam apenas os dados referentes à primeira década e meia do século 21, e seu foco é justamente o número de mártires cristãos advindos da longa guerra civil na República Democrática do Congo e que são computados nessas pesquisas. O principal nome da crítica a esses números é a jornalista britânica Ruth Alexander, que apresentou sua objeção pela primeira vez no programa de rádio More or Less (“Mais ou Menos”), da BBC de Londres, que se dedica a analisar criticamente as estatísticas utilizadas no jornalismo e nos debates públicos mundiais. O programa foi ao ar no dia 8 de novembro do ano passado e, quatro dias depois, seus argumentos foram reproduzidos em artigo no próprio site da BBC. Não demorou muito, famosos opositores do Cristianismo, como o ateísta militante Richad Dawkins, reproduziram o artigo de Alexander em seus sites pessoais e o debate começou. O Dr. Todd Johnson, da Universidade de Boston e pesquisador associado do Center for Study of Global Christianity, foi um dos que publicaram artigos em resposta às críticas de Alexander. Mas, no que consistem exatamente essas críticas aos números do Congo?

Segundo Alexander, todos esses levantamentos erram porque contabilizam 900 mil vítimas dos mais de 4 milhões de mortos na guerra civil do Congo ocorrida entre 2000 e 2010 como mártires cristãos. Ora, espalhando-se esses 900 mil mortos nesses 10 anos, temos 90 mil mártires cristãos por ano, o que significa 90% do número total de mártires cristãos em cada ano da primeira década do século 21. “Então”, arremata Alexander em seu artigo de novembro do ano passado no site da BBC, “quando você ouvir que 100.000 cristãos estão morrendo por causa da fé, é preciso ter em mente que a grande maioria – 90.000 – é de pessoas que foram mortos na República Democrática do Congo. Isso significa que podemos dizer desde já que os rumores de internet de muçulmanos estarem por trás do assassinato de 100 mil mártires cristãos [por ano] são um disparate. A República Democrática do Congo é um país cristão. Na guerra civil, os cristãos estavam a matar cristãos”.

Derrubando às críticas

O argumento de Alexander, porém, comete várias falhas. Primeiro, nenhuma das pesquisas afirmava que os muçulmanos são os responsáveis pelo assassinato de 100 mil cristãos por ano no mundo. Todas elas apontam para os radicais muçulmanos como responsáveis pelo assassinato da maioria deles. Regimes comunistas e hindus radicais, por exemplo, também estão entre os algozes. Na verdade, ao colocar as coisas assim, Alexander revela o seu real intento: enfatizar a existência de uma “islamofobia” no Ocidente em detrimento da denúncia da existência de uma onda ainda muito maior no mundo – a “cristianofobia”. Não por acaso, seu país, a Inglaterra, é um dos mais islamizados da Europa; logo, é politicamente inconveniente falar na mídia inglesa da existência de uma forte perseguição islâmica a cristãos, mesmo ela sendo promovida apenas pelos islâmicos radicais, e não por todos  os islâmicos.

Em segundo lugar, Alexander omite estranhamente o fato de que houve um período da primeira década do século 21 em que o número de cristãos martirizados não era de 100 mil, mas de 160 mil por ano – 100 mil por ano são hoje –, de maneira que mesmo se fossem retirados da conta 90 mil vítimas por ano de toda a primeira década do século 21, teríamos ainda em alguns anos cerca de 70 mil martírios, e não 10 mil como ela sugere. Ela esquece também, por exemplo, do caso do Sudão, que também entrava nessas estatísticas, e onde, só de 2003 a 2009, o governo islâmico assassinou 400 mil pessoas por não aceitarem a norma governamental de que toda a população adota a Charia (lei islâmica). Na época, 70% da população contra 20% de cristãos e 10% de seguidores de outras crenças, como animismo, só que os cristãos representavam 95% das vítimas, isto é, 380 mil. Nenhuma das vítimas era muçulmana. Ao todo, foram mortas 600 mil pessoas no Sudão, algumas em verdadeiros campos de concentração.

Em terceiro lugar, é verdade que o Congo é um país majoritariamente cristão, mas não é verdade que não haja mártires cristãos lá. Duas coisas devem ser ditas sobre esse ponto: uma sobre o critério da estatística para identificar esses mártires cristãos no Congo e outra sobre a existência de vítimas cristãs de grupos radicais islâmicos naquele país.

Sobre o primeiro ponto, é preciso atentar para a resposta do professor e pesquisador Todd Johnson, do Center for the Study of Global Christinity, sobre a crítica da jornalista britânica ao caso do Congo: “Nós usamos uma definição ampla de martírio, e não uma estreita. Para o Center for the Study of Global Christinity, mártires cristãos são definidos como ‘os crentes em Cristo que perderam suas vidas prematuramente em situações de testemunho e como resultado da hostilidade humana’. Essa definição tem cinco elementos essenciais: os ‘crentes em Cristo’ vêm de toda a comunidade cristã (católicos, ortodoxos, protestantes, anglicanos e independentes); a definição de ‘mártir’ é restrita aos cristãos que foram realmente condenados à morte; o termo ‘prematuramente’ é tipicamente de súbito, abrupto, inesperado e indesejado; a expressão ‘como resultado da hostilidade humana’ exclui as mortes por acidentes, terremotos e doenças; e a expressão ‘em situações de testemunho’ não significa apenas testemunho público ou proclamação sobre a crença em Jesus, mas também refere-se a cristãos que foram mortos devido a todo o seu estilo de vida, ao modo de vida cristão que viviam. É aqui que alguns podem ter uma exceção à nossa metodologia. Ou seja, aquelas pessoas que, agindo sob convicção cristã, desafiam as ordens injustas de polícia ou de soldados, ou tentam conter a violência da multidão por suas convicções cristãs, e são mortos como resultado dessas ações e podem não estar fazendo uma proclamação verbal explícita de sua fé na hora da morte, mas são contados como mártires na medida em que suas ações em tais situações são um testemunho de sua fé”.

O jornalista norte-americano John L. Allen Jr., do National Catholic Reporter (NCP), comentarista convidado do canal norte-americano CNN em várias oportunidades e autor do livro The Global War on Christians: Dispatches from the Front Lines of Anti-Christian Persecution (“A guerra global contra os cristãos: despachos das linhas de frente de perseguição anticristã”), em um artigo publicado na NCP em novembro em resposta às críticas de Alexander, cita um exemplo do que Johnson está falando: “Considere-se uma devota  catequista no Congo que foi morta por um grupo paramilitar por resistir à inscrição forçada de crianças-soldados. Alguém pode dizer que isso é trágico, mas não um martírio, porque esses bandidos não se importam com a fé dela. Eles só queriam manter as mãos dela longe de seus novos recrutas. No entanto, mais profundamente, os motivos da catequista tinham tudo a ver com a sua fé. Ela colocou-se no caminho do perigo porque ela acreditava que estava seguindo o chamado de Deus para servir aos mais vulneráveis. Assim, em um sentido muito real, ela morreu por causa do Evangelho da mesma forma quanto um antigo mártir assassinado por se recusar a sacrificar aos deuses pagãos. Em uma frase de efeito, é um erro, ao se fazer o levantamento da guerra global contra os cristãos, concentrar-se exclusivamente nos motivos daqueles que puxam o gatilho. Em algum momento, nós também temos que considerar o que estava nos corações das pessoas que levaram o tiro”. Allen está certo, até porque, se não fossem essas convicções que levaram esses cristãos a esses atos, seus algozes não seriam levados a matarem aqueles.

O segundo ponto é que, mesmo os muçulmanos representando hoje apenas 10% da população daquele país, sabe-se que os grupos radicais islâmicos fazem parte daquele cenário conturbado, promovendo massacres. Só para citar um caso mais recente: em 16 de dezembro do ano passado, 21 cristãos foram assassinados pelo grupo radical islâmico Forças Aliadas Democráticas do Exército Nacional de Libertação nos vilarejos de Musuku e Mwenda, no que foi classificado pela própria imprensa internacional de “ataque de extrema brutalidade”, uma vez que crianças foram estupradas e decapitadas pelos radicais. Ou seja, ainda que as entidades tenham exagerado ao julgar que 900 mil dos 4,5 milhões de mortos na guerra  do Congo de 2000 a 2010 eram mártires cristãos, é fato que houve muitos mártires cristãos naquele país nesse período; e ainda hoje, quando as coisas ainda não estão plenamente pacificadas, ainda há.

Não há como fugir

Seja como for, ainda que considerássemos totalmente procedente a crítica da jornalista Ruth Alexander, o ponto central, defendido por essas instituições cujas estatísticas são alvos de sua crítica, permaneceria: a onda de perseguição a cristãos que no mundo é uma realidade que nunca deixou de existir, sempre foi gravíssima e o número de mártires cristãos é maior do que o de qualquer outras religião no mundo.

Mesmo se usássemos o critério equivocado de eliminar das estatísticas de mártires quaisquer mártires cristãos vitimados em guerras civis; mesmo que até chegássemos às raias do absurdo de eliminar da contagem os mártires cristãos do Sudão, que obrigatoriamente teriam que entrar nas estatísticas porque foram mortos por questões religiosas, ainda assim teríamos uma média anual de, no mínimo, 10 mil cristãos martirizados no mundo por causa da sua fé em pleno século 21. Thomas Schirrmacher, da Aliança Evangélica Mundial (AEM), por exemplo, é quem apresenta a estatística mais baixa de todas. Ele equivocadamente ignora os mártires cristãos de guerras civis nos países africanos – razão pela qual os seus dados são os mais usados por críticos como a própria Alexander –,e, mesmo assim, na conta de Schirrmacher ainda há cerca de 8 mil mártires cristãos todos os anos, o que dá 20 mártires cristãos por dia. Já o levantamento da organização Gospel For Asia (Evangelho Pela Ásia), que igualmente ignora mártires de guerras civis africanas, mas é mais precisa que Schirrmacher nos registros da perseguição aos cristãos no mundo, chega a mais de 14 mil mártires cristãos por ano – quase o dobro dos números de Schirrmacher.

Ou seja, mesmo se adotarmos  a posição mais radical contra os números dos conceituados Certer for Study of Global Christianity, do World Christian Encyclopedia, do Atlas of Global Christianity e do Centro de Estudos de Novas Religiões, os números finais de mártires cristãos no mundo ainda continuariam alarmantes e ainda seriam o maior número de mártires dentre todas as religiões do planeta – e como lembra Todd Johnson, os pesquisadores islâmicos incluem em suas listas de mártires do islamismo islâmicos assassinados por outros islâmicos. Como resumiu muito bem o jornalista norte-americano John L. Allen Jr., em artigo publicado sete meses atrás no National Catholic Reporter sobre essa discussão, “pode haver uma discussão sobre a contagem de corpos, mas não há como discutir que há uma guerra global real contra o cristianismo”.

Por, Mensageiro da Paz.

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