Profetas de causas espúrias

Profetas de causas espúriasAo longo da narrativa bíblica, encontramos profetas e “profetas”. Os primeiros são aqueles que, atendendo à voz de Deus, falaram aquilo que o Senhor lhes ordenou que falassem. Mantiveram a humildade e a dependência do Altíssimo. Já no segundo caso, ou seja, os “profetas”, foram homens arrogantes, presunçosos, desviados da vontade de Deus; falaram aquilo que lhes convinha, motivados pelas circunstâncias do momento. O que lhes interessava era o seu bem estar social e financeiro, não dando à mínima para a vontade soberana de Deus A esses e suas atitudes é que qualifico como “profetas de causas espúrias”. Tanto num caso, como no outro, os exemplos se enfileiram nas páginas das Escrituras Sagradas, permitindo-nos a análise de ambos os casos.

Diante de tal constatação poderíamos elaborar uma pergunta pertinente ao presente assunto: será que existem tais profetas nos dias atuais? Infelizmente, a resposta é: sim! Entranhada no meio evangélico existe uma gama de “pregadores” atuais que se intitulam “profetas de Deus”, porém, não passam de lobos vorazes, que conseguem se aproveitar da boa vontade do povo de Deus e defraudar-lhe recursos financeiros, sob o pretexto de estarem pregando a Palavra de Deus. Para considerar o presente assunto, usarei como exemplo desta categoria, o malfazejo “profeta” Balaão. No presente texto procurarei traçar um paralelo desse personagem com os ditos “pregadores” da atualidade.

Ganância: busca frenética pelos bens materiais

O povo de Israel prosseguia em sua jornada pelas terras cananeias. Nessa marcha impoluta, alojando-se de termos e termos chegaram ao campo de Moabe, acampando-se nas campinas da região. Balaque, rei dos moabitas, muito temeu. Diante de tal situação, o rei moabita resolveu dar cabo daquele povo. Para tanto, enviou mensageiros à Balaão, que habitava em terras mesopotâmicas. A finalidade daquela escusa embaixada era convidar o “profeta” para amaldiçoar o povo de Deus (Números 22.2-6).

Infelizmente, para muita gente no Brasil, a pregação do Evangelho deixou de ser uma ordem de nosso Senhor Jesus Cristo, com a finalidade de salvar os perdidos e edificar a Igreja, para ser transformada em um comércio onde se negocia preços de mensagens a valores altíssimos. As redes sociais se transformaram em uma vitrine onde “pregadores” se exibem, anunciando a si mesmos como “profetas” da atualidade sob o tema de “agenda aberta”. É uma vergonhosa feira virtual de mercantilização da Palavra de Deus.

Certa feita estava eu em casa, em atitude de oração e meditação, preparando o sermão para o culto de doutrina na igreja que pastoreava na época, quando o telefone tocou. Era um pastor que eu conhecia e que agora residia em outro Estado da Federação. Após os cumprimentos iniciais, ele me fez uma oferta que constava de trazer um pregador para a igreja que eu cuidava. Fez várias observações sobre o perfil daquele homem, que, segundo ele, era um ex-macumbeiro e que “trazia no corpo as marcas do diabo”. Depois de apresentar o sinistro currículo daquele “pregador”, ele arrematou dizendo: “No final do culto a gente recolhe a oferta e divide ao meio, metade para ele e metade para a igreja”.

Depois de ouvir tamanhos absurdos, educadamente disse que não estava interessado. Sem se dar por satisfeito, ele me ligou no dia seguinte, inclusive dizendo que vários pastores amigos meus já haviam agendado o tal “pregador” e que só havia dois espaços na agenda. Novamente, de forma cortês disse não àquele irmão. Eles andaram por várias congregações da capital do Piauí fazendo aquele “trabalho”. Posteriormente, descobriu-se que o tal “pregador” era uma farsa e que aquele sofrido dinheiro das ofertas dos irmãos fora usado para práticas escusas. Tal qual nos dias do povo de Deus no deserto, os emissários de Balaque estão a nos oferecer os “Balaãos” da vida.

O alto preço dos encantamentos

Balaque enviou alguns de seus anciãos até Balaão. Aqueles homens levaram consigo grande soma de valores com a leviana finalidade de comprar uma “mensagem” de maldição. A atitude dos anciãos moabitas demonstra claramente que eles já sabiam quem era Balaão e o modo de proceder daquele profeta fraudulento e ganancioso. A Bíblia define como um valor prévio de elevada monta aquele que os emissários do rei de Moabe conduziram consigo para oferecer ao energúmeno profeta. Era o alto preço dos encantamentos (Números 22.7).

Vivemos dias de “profetas” vendidos, amantes do dinheiro. São “pregadores” de mensagens compradas por altas quantias, hotéis de luxo, venda de material, e por aí vai. É o preço dos encantamentos, pois, mensagens bíblicas verdadeiras não trazem, e sim perniciosas demonstrações cabalísticas de uma autoridade espiritual que não têm. São possuidores de sua própria doutrina com base em uma hermenêutica distorcida. Um verdadeiro sincretismo pode ser observado em suas grotescas apresentações. O apóstolo Paulo vaticinou tempos difíceis quando escreveu ao jovem obreiro Timóteo: “Sabe, porém, que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos” (2 Timóteo 3.1). Esses homens deveriam aprender com o apóstolo dos gentios que não mercadejava a Palavra de Deus, mas, pregava com sinceridade (2 Coríntios 2.17). A mensagem paulina é bastante atual, pois tais homens encontram-se inseridos no meio do povo de Deus com uma falsa aparência de piedade, mas, em suas atitudes, negam a mesma. São corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé (2 Timóteo 3.5 e 8).

Quando falo em valores neste tópico, não estou condenando a prática salutar de entregar uma oferta a um pastor ou outro obreiro que venha pregar na igreja que cuidamos. Isso é normal e benéfico, quando feito de forma espontânea pelo pastor e membros da igreja. O que questiono e critico com veemência são os absurdos que estão acontecendo pelo Brasil, quando uma gama de “pregadores” está a explorar o povo de Deus em sua simplicidade e bondade, extorquindo dinheiro sob um falso pretexto de serem “homens de Deus”, quando na realidade não passam de enganadores a serviço de um “reino” que em nada tem a ver com o Reino de Deus.

A fama e a honra: o prêmio da injustiça

Balaão foi questionado, repreendido e impedido pelo Senhor, quando se lhe apresentou à noite. Hesitante e ainda como desejo insano do lucro no uso das coisas de Deus, ele despachou os portadores daquela proposta indecente. Momentaneamente Balaão apresentou o lampejo de alguém que poderia estar fazendo algo de proveito (Números 22.9-13). Porém, o vil desejo pelas riquezas lhe ofuscava a visão espiritual a ponto de não enxergar o propósito de Deus naquele caso em particular. A resposta negativa de Balaão fez com que o rei Balaque investisse mais pesado sobre o “profeta”, oferecendo-lhe mais vantagens (Números 22.17).

A atitude de Balaão pareceu, à primeira vista, uma atitude nobre, porém, apenas pareceu. Quantos que nos dias atuais receberam a oração de imposição de mãos dos obreiros, conselhos, orientações sobre o ministério pastoral e começaram até bem, mas, foram logrados pela sedução do ganho fácil, através do mau uso do que Deus lhe concedera como dom. Negociam a pregação do Evangelho como produtos numa feira qualquer. São verdadeiros “Balaãos” a vender sua astúcia para enganar o povo de Deus com seus encantamentos perniciosos travestidos de “mensagens poderosas”. Existem também os “Balaques”modernos, que se encontram disfarçados de pastores que comandam igrejas e que por lhes faltar o temor, provocam tais situações, quando por não terem a mensagem bíblica genuína, se submetem à prática de convites “generosos” de oferecimento de vantagens financeiras, oferecendo verdadeiras fortunas a esses famigerados “pregadores”. Maléficas atitudes como estas têm provocado um ciclo vicioso do qual fazem parte os tais “pregadores”. É uma prática miserável de “toma lá, dá cá”, sob o subterfúgio de que precisam “alegrar o povo” com festivais de “oba-oba” que beiram a vulgaridade, ferindo frontalmente o culto racional e espiritual ensinado pelo apóstolo Paulo (1 Coríntios 14.26-40).

A repentina perdição

Balaão morreu na guerra travada pelos israelitas contra os midianitas (Números 31.8). Tanto os “Balaãos” como os “Balaques” modernos serão julgados por Deus e receberão a sua devida sentença. Depois de vários séculos que o espúrio “profeta” se corrompeu por dinheiro, fama e outras vantagens, para amaldiçoar o povo de Deus, a Palavra do Senhor nos mostra, através de seus preciosos ensinos, qual será a sentença e a condenação de Balaão e dos que o seguiram em sua doutrina e práticas.

Através do apóstolo Pedro, o Senhor mostra que sempre houve entre o povo falsos profetas, bem como existem falsos doutores nos dias atuais. De acordo com a epístola, estes homens maus introduzirão encobertamente de heresias de perdição e negarão o Senhor que os resgatou. Assim, eles estarão trazendo para si mesmos a repentina perdição (1 Pedro 2.1, 2, 15). Paulo elenca as terríveis características desses homens do mal: amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, profanos, obstinados, orgulhosos, amigos dos deleites (2 Timóteo 3.2-4).

Estes falsos mestres, com suas palavras de encantamento, têm muitos admiradores que seguem os seus ensinos e as práticas de suas dissoluções. Assim, contribuem para que seja blasfemado o caminho da verdade. Estes, deixando o caminho direito, erram seguindo o caminho de Balaão que amou o maldito prêmio da injustiça. Falando ao anjo da igreja de Pérgamo, o Senhor Jesus Cristo condenou as práticas daqueles que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinou Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel para que se prostituíssem (Apocalipse 2.14). O caminho de Balaão é extremamente perigoso e deve ser evitado por todo aquele que deseja servir ao Senhor fielmente.

Por, Raimundo Leal Neto.

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