Paulo foi uma espécie de nazireu?

Como entender Atos 21.24? Apesar de raspar cabeça, Paulo cumpria um voto. Era nazireu?

Paulo foi uma espécie de nazireuDentro do universo dos costumes judaicos, encontramos aquele intitulado de voto de nazireado. De acordo com o rabino Menhahem Mendel Disendruck, dava-se o qualitativo de Nazir nazireu à pessoa que se consagrava durante certo tempo ou por toda a vida a Deus. Diesendruck observa que o Nazir deveria abster-se de beber vinho ou comer qualquer produto da videira, de cortar o cabelo e de aproximar-se de mortos, inclusive se estes fossem seus parentes. Abstinha-se ainda dos prazeres permitidos pela lei, gastando seu tempo em oração e fazendo boas obras.

Essa prática estava regulamentada em Números 6.1-21. Os seis primeiros versículos dessa Escritura, dizem: “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando um homem ou mulher se tiver separado, fazendo voto de nazireu, para se separar para o Senhor, de vinho e de bebida forte se apartará; vinagre de vinho ou vinagre de bebida forte não beberá; nem beberá alguma beberagem de uvas; nem uvas frescas nem secas comerá. Todos os dias do seu nazireado, não comerá de coisa alguma que se faz da vinha, desde os caroços até às cascas. Todos os dias do voto do seu nazireado sobre a sua cabeça não passará navalha; até que se cumpramos dias, que se separou para o Senhor, santo será, deixando crescer as guedelhas do cabelo da sua cabeça. Todos os dias que se separar para o Senhor, não se chegará a corpo de um morto”.

Precisamos entender que Paulo viveu numa época ímpar da história da Igreja; na verdade, ele ajudou a escrevê-la. O apóstolo foi responsável pela grande transição entre o judaísmo e o cristianismo. Ele não pode ser pego como exemplo de cristão que tentou judaizar a igreja levando os cristãos a terem uma vida estritamente de acordo com os costumes judaicos. Pelo contrário, Paulo esforçou-se no sentido de mostrar aos cristãos que a Lei fora um tipo que apontava para Cristo. Ele procurou desjudaizar a Igreja.

A observância do voto de nazireado por parte do apóstolo dos gentios em Atos 21.24 tivera suas razões contextuais dentro da igreja primitiva. As ocorrências dessas práticas por parte do apóstolo são perfeitamente justificáveis. A propósito, o expositor bíblico Stanley M. Horton comenta que isso mostraria aos crentes e a todos em Jerusalém que Paulo não ensinava os crentes judeus a irem contra os costumes de seus pais. Seria também uma resposta a todas as falsas coisas ditas a respeito de Paulo, e demonstraria que o próprio apóstolo andava corretamente e era observador da Lei. Como Paulo disse aos coríntios, para com os judeus ele fez-se judeu e para com os que estavam debaixo da lei, fez-se como se estivesse debaixo da lei (1 Coríntios 9.20). Horton ainda observa oportunamente que Paulo sabia que estas cerimônias judaicas não tinham valor algum no que diz respeito à salvação, mas reconhecia que elas tinham valor simbólico ou didático para os crentes judeus. Eles realizavam essas coisas não para ganharem a salvação, nem para se colocar em relação certa com Deus, mas para expressar uma dedicação a Deus que já estava estabelecida em seus corações através de Cristo e da aceitação de Sua obra na cruz.

Ao comentar a decisão de Paulo em se submeter ao voto do nazireado em Atos 21.23-36, o Comentário Bíblico Moody observa que não há nenhuma inconsistência fundamental entre o desejo de Paulo, na qualidade de judeu, de observar a lei e sua insistência inflexível em que os crentes gentios não fossem colocados debaixo da lei, uma vez que estavam sob a graça. Como nova criatura em Cristo Jesus, nem a circuncisão ou incircuncisão tinham qualquer importância para Paulo (Gálatas 6.15). Como enfatiza a referida obra, Paulo considerava tais práticas religiosas com indiferença, pois o mundo fora crucificado para ele e ele para o mundo (Gálatas 6.14). Ele mesmo já havia dito que se um homem fora convertido como judeu, deveria permanecer judeu (1 Coríntios 7.18), pois a circuncisão em si mesma nada significava. Os cristãos judeus deveriam guardar a lei como judeus, não como cristãos. Mas, quando esforços foram feitos para se impor a lei aos cristãos gentios como base para a salvação, Paulo objetou e insistiu na liberdade completa da lei. A posição de Paulo em deixar que a prudência determinasse os princípios em certos setores é uma questão tão delicada que muitos não o têm compreendido.

Devemos, pois, atentar para os princípios por trás da prática do apóstolo dos gentios e não da prática em si.

Por, José Gonçalves.

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