Os terríveis resultados do carnaval

Os terríveis resultados do carnavalLíderes de segmentos liberais da igreja evangélica brasileira, na atualidade, têm dito que devemos valorizar a cultura nacional, inclusive o carnaval – conquanto essa festa tenha origem na Europa. Em fevereiro, algumas “igrejas” até formaram seus próprios blocos carnavalescos, a fim de cantar e dançar para “louvar a Deus” e evangelizar os foliões. Entretanto, a simples compreensão do significado dessa festa pagã e mundana a inviabiliza como um evento recomendado ao crente fiel a Deus.

O carnaval remonta as licenciosas orgias romanas, como os bacanais, saturnais e lupercais – cultos aos deuses Baco, Saturno e Pã –, festas que se caracterizavam pelas bebedices, glutonarias e promiscuidade. Tribunais e escolas fechavam as portas, e escravos eram alforriados. Dançava-se pelas ruas em grande e igualitária algazarra. A abertura das festas era um cortejo formado por pessoas nuas dançando frenéticas e obscenamente, bem como por carros imitando navios, conhecidos como carrun navalis, nome que evoluiu para carnavale – termo italiano que denota “suspender ou pôr de lado a carne”, numa alusão à terça-feira gorda, a partir da qual o catolicismo romano passava a suprimir o uso da carne.

Alguns estudiosos associam a origem do termo “carnaval” à expressão latina carne, vale (“carne, adeus”). E outros, dizem, ainda, que o nome da principal festa popular brasileira tem origem no vocábulo latino carnelevamen (“prazeres da carne”), visto que ela sempre ocorre antes, por assim dizer, das tristezas e continências da quaresma. Os festejos carnavalescos foram trazidos ao Brasil pelos portugueses no século 17. Quando chegou aqui, o carnaval foi chamado de “entrudo”, do latim introito (“entrada”), porque os três dias carnavalescos são a porta de entrada para a quaresma. “Era pouco mais do que o ato inocente de uns jogarem água nos outros. Bem que muitos estavam precisando de água, pois a higiene pessoal e caseira era deficitária no Brasil de nossos dois Pedros príncipes, que também participavam da folia” (SILVA, p. 94).

Das sacadas das residências, os foliões atiravam “bacias de água nos passantes, bem como ‘laranjinhas’ de cera com líquidos coloridos e/ou fedidos e punhados de cinza, de farinha e por aí afora” (DONATO, p. 268). Uma característica comum ao carnaval de diferentes épocas e países “é o de virar as regras do avesso. Durante as festas pagãs da Roma Antiga, que deram origem ao carnaval cristão, escravos e seus senhores invertiam os papéis: por um dia eram os servos que mandavam… […] A véspera da quaresma liberava os foliões para tirar um sarro dos próprios costumes religiosos e da Igreja, autoridade indiscutível naquela época. Não havia tantos papéis trocados nos primeiros carnavais do Brasil, mas uma reviravolta de comportamentos também tomava conta. Durante as festas conhecidas como entrudos, as pessoas atiravam bolas de cera nos outros a faziam guerrinhas d’água pela rua” (NARLOCH, p. 123).

Na década de 1920, surgiram as primeiras escolas de samba, formadas por pessoas ligadas aos cultos de origem africana. Eram, na maioria, descendentes de escravos, vindos da Bahia ou da área rural do Rio de Janeiro. Seus instrumentos eram atabaques e outros de precursão, os quais permanecem até os dias de hoje. “Existe um terreiro de macumba na origem de toda escola de samba” (PETTA, fev./1996). Nos primeiros desfiles, os batuqueiros reverenciavam cada dona de “casa de santo”. Hoje, apesar de tudo ser regido por normas rigorosas, planejado minunciosamente e produzido dentro de um cronograma rígido, o objetivo é o mesmo: cantar e dançar para agradar as entidades espirituais.

O carnaval tem produzido muitos males ao povo brasileiro. A cegueira imposta às pessoas pelo Diabo (2 Crônicas 4.4) as leva a pensar apenas na folia, ao mesmo tempo que inúmeras tragédias acontecem. Este articulista ficou surpreso ao descobrir – fazendo um levantamento, há algum tempo – que os principais incêndios, enchentes, chacinas e outros males acontecem no mês do carnaval, enquanto os foliões desfilam sorridentes nos sambódromos. Aliás, é importante dizer que o termo “folião” tem origem na língua francesa: folie, “loucura”. Trata-se, pois, do indivíduo entregue à folia, à loucura. E não é isso que vemos durante o carnaval? Infelizmente a cada ano, o saldo desolador da quarta-feira de cinzas se repete. Mães, cujos filhos não voltaram da folia. Crianças que não têm alimento, em razão de seus pais gastarem o dinheiro com fantasia de carnaval e outras futilidades. Todos choram amargamente, literalmente em meio às cinzas. A beleza coreográfica do carnaval, motivo de orgulho para os organizadores, não encobre a triste realidade. As cores reluzentes, o giro das baianas e o suave deslizar da porta-bandeira não escondem as calamidades, todas permitidas por Deus (Romanos 1.18).

Como mencionamos, o carnaval tem origem nas festas orgíacas aos deuses. Nessa celebração profana, o que vale, de fato, é a carne. E isso não é um mero trocadilho com carnevale, pois o objetivo das festas carnavalescas é mesmo priorizar a carne, o principal inimigo do cristão (Gálatas 5.16, 17 ) – “carne”, aqui, diz respeito à predisposição para a prática de atos pecaminosos. As obras da carne afastam o ser humano de Deus, que, ao criá-lo, disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança” (Gênesis 1.26). Essas imagem e semelhança se referem, sobretudo, à parte espiritual, uma vez que “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24).

Depois do pecado de Adão e Eva, no princípio, o espírito humano teve as suas faculdades bloqueadas pela ação deletéria decorrente dessa queda espiritual – a Queda – , deixando o homem a mercê das obras da carne (Gálatas 5.19-21). E, nos festejos carnavalescos, obras como a prostituição, a impureza e a lascívia se sobressaem, levando o ser humano ao fundo do poço da imoralidade. Outras obras, como as feitiçarias e as bebedices, induzem os pecadores a cometerem atos deploráveis e violentos, ocasionando acidentes de transito e muitas mortes.

Diante do exposto, o cristão não deve sequer pensar em fazer parte do carnaval (Filipenses 4.8). A sua má fama é o suficiente para convecê-lo de que o envolvimento com esta festa, mesmo sob o pretexto de evangelizar os foliões, significa se assentar à roda dos escarnecedores (Salmos 1.1). O fato de Paulo usar todos os meios para salvar alguns (1 Coríntios 9.22) não indica que ele participava de festas mundanas e pagãs (1 Coríntios 10.23). Ele se referiu às estratégias licitas de evangelização. Portanto, “não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as” (Efésios 5.11).

Referências

DONATO, Hernâni. História dos Usos e Costumes do Brasil. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2005.
NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História. São Paulo: Leya, 2009.
PETTA, Rosângela. Desfiles e batucada: a máquina do samba. Revista Superinteressante. São Paulo: Editora Abril, fev./1996.
SILVA, Deonísio da. A Vida Íntima das Palavras. São Paulo: Arx, 2002.

Por, Ciro Sanches Zibordi.

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