Os perigos de dizer o que a Bíblia não diz

Os perigos de dizer o que a Bíblia não dizAo longo dos anos, a expressão “a Bíblia diz” tornou-se corriqueira para muitas pessoas ao ponto de não haver mais a predisposição por parte dos ouvintes da Palavra de Deus de conferir se realmente as coisas são como se diz ou se há simplesmente uma mania de transformar o que é dito popular em passagem bíblica.

É bem provável que a não conferência à Palavra de Deus – ou seja, a falta de análise do que está sendo ouvido – seja o principal motivo para que esses erros persistam em nosso meio.

Ora, não estamos nos reportando a qualquer livro, falamos do Livro de Deus. Por isso, deve haver por parte do pregador uma maior observação dos textos aos quais fará referencia durante o seu sermão. A fim de que não acabe falando o que a Bíblia não registra, e o que é pior, citando-a como fonte.

A Bíblia como inerrante Palavra de Deus

Originalmente, a Bíblia não se encontrava como a temos hoje em nossas mãos, cheia de notas de rodapé, comentários e recursos didáticos que nos permitem entender melhor a que se referem os escritos. Até mesmo as capitulações e as separações feitas por versículos, bem como as paráfrases ou títulos dos textos, surgiram posteriormente, com o objetivo de nos fornecer uma melhor compreensão do texto. Todos esses recursos são editoriais. Você já imaginou como seria difícil encontrar um texto bíblico em sua versão original sem a indicação de capítulos ou versículos? Seríamos levados a ler várias partes do livro para então encontrarmos o texto mencionado. Por não contarem com esses recursos editoriais, os apóstolos e mesmo Jesus se utilizavam muitas vezes apenas da expressão “Está escrito”.

Outro ponto interessante é o fato de os judeus, durante a história, e os ortodoxos ainda hoje, serem muito apegados às Escrituras. São comuns entre esse povo as discussões em torno da Bíblia, trazendo à luz passagens do Antigo Testamento que não lhes são nem um pouco estranhas, haja visto o compromisso dos judeus em memorizar passagens da Torá. Segundo o escritor Charles Fergunson, “grande parte da educação dos judeus resumia-se em decorar textos”. 1 Ainda segundo ele, “os judeus não precisam estudar outros livros didáticos. As Escrituras continham todos os conhecimentos relativos à vida. As histórias de seu povo eram seu único prazer, e extrair conhecimento de quaisquer outras fontes era desencorajado e visto com desconfiança”. 2

Dentro desse aspecto, reconheço que somos muito omissos, e talvez seja esse o motivo de muitos seguirem após ensinamentos errados. Quando falo da nossa omissão, ressalto que essa abrande todos os âmbitos, desde o ensino bíblico familiar, de pai para filho, ao ensino em nossas igrejas. Uma vez que não estamos mais nos tempos dos apóstolos e dispomos de recursos editoriais, é interessante que, ao fazer uma citação bíblica, se ressalte em que livro, capítulo e versículo o texto se encontra, para que o ouvinte/receptor, se achar conveniente, confira na Bíblia.

A Bíblia é o Livro de Deus, nela estão contidos os preceitos do Senhor para que o homem viva uma vida justa e reta diante Dele. E por ser assim, é um livro sagrado, pois contêm mensagens importantes para a humanidade. Essa não falha e não mente (Isaías 55.11; João 17.17), é a inerrante Palavra de Deus. Mudar o que nela está escrito é ir contra a vontade Daquele que é o seu autor. Disse Jesus: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5.18).

São 66 livros, agrupados em Antigo e Novo Testamento, e apesar de tanto conteúdo pronto para ser estudado, ainda existem inúmeros pregadores que não buscam o conhecimento deste Livro. Movidos por sentimento de negligencia e comodismo, muitos têm esquecido que a Bíblia é, e continuará sendo, o Livro de Deus; e como tal, ele é um oceano de riquezas que, se pesquisado diariamente, tem muito a nos oferecer. É evidente que ler outros livros ampliarão a nossa visão, mostrando novos horizontes, auxiliando em muitas interpretações, porém o nosso livro base é a Bíblia.

Não há como substituir a Bíblia. Ela é para o pregador como o machado é para o lenhador, uma ferramenta indispensável. Lamentavelmente, muitos só procuram a Bíblia quando vão para a igreja, outros a têm apenas como um livro qualquer ou comum. No entanto, nas mãos de um homem ou de uma mulher de Deus ela é como disse o autor da Epístola aos Hebreus: “Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que uma espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e as intenções do coração” (Hebreus 4.12).

A Bíblia diz?

É notável como muitas pessoas se deixam levar pelo que ouvem. É assim em muitas de nossas igrejas. Conheci um irmão que todas as vezes que ele pregava, fazia uso da frase “a Bíblia diz”, e em muitas ocasiões acabava dizendo coisas que não estavam na Bíblia. Impulsionados pelo momento, muitos irmãos glorificavam a Deus, às vezes até sem realmente perceber que o que fora dito não são palavras da Bíblia.

Cresci ouvindo minha mãe dizer uma frase que me chamava muito à atenção: “Faz por ti que Eu te ajudarei”. Lembro-me que, por algumas vezes, ela se direcionava para mim dizendo que essa frase estava na Bíblia. Quando comecei a ler as Escrituras, me preocupei em averiguar se existiam estas palavras e descobri que elas realmente não estão lá. Foi ai que percebi que ela provavelmente ouviu isso de alguém que com certeza ouviu de outra pessoa. Resumindo, simplesmente não analisaram o que ouviram.

Não podemos ser movidos pelo fato de apenas ouvir sem analisar. Lamentavelmente, convivemos com o fato de que muitos pregadores do nosso tempo são influenciados por outros, sem falar nos que copiam as mensagens e pregam se utilizando até dos mesmos exemplos. São nessas ocasiões que muitos modismos e exageros são disseminados entre o povo de Deus, pois o pregador não se preocupou em verificar biblicamente se o que estava ouvindo estava de acordo com o Livro Sagrado.

Como será que Deus reage ao ver alguém dizendo o que não está na Bíblia como se estivesse, e ainda mais quando se trata de uma heresia? Como servo de Deus e conhecedor da Palavra, vejo que todos esses que pregam heresias como enganadores, que falsificam a Palavra com propósitos mais variados possíveis.

Em tempos veterotestamentários, os profetas que falavam o que Deus não havia mandado falar tinham suas sentenças decretadas. Você se lembra do exemplo de Hananias? O falso profeta que proclamava uma bela mensagem aos ouvidos do povo de Judá, quando esses já haviam ouvido da boca de Jeremias o juízo de Deus? (Jeremias 28.1-7). O insolente profeta foi ceifado no mesmo ano, pois falou o que Deus não havia falado.

Queridos, não é diferente com a Bíblia Sagrada. Como livro de Deus, ela transmite à humanidade os preceitos e as ordenanças do Mestre para que andemos de acordo com a vontade do Senhor. Se falarmos o que nela não está escrito, estamos mentindo para os homens e transgredindo a lei de Deus.

As más interpretações

Não bastassem os textos inventados, vemos constantemente versículos sendo interpretados erroneamente. A má interpretação da Bíblia pode gerar sérias consequências. Quando pregamos a Palavra de Deus, nos dirigimos as pessoas das mais variadas classes sociais. Em um mesmo auditório, existem pessoas que estudam a Bíblia e há outras totalmente leigas quanto ao assunto, mas que vieram à igreja a fim de ouvir uma mensagem de Deus. São pessoas em sua maioria novas na fé, sem muita maturidade religiosa, que se apegarão com mais facilidades a certas palavras ditas pelo pregador. É, portanto, a tarefa do expoente da Palavra de Deus de uma responsabilidade muito grande.

Existem pelo nosso Brasil inúmeras pessoas que se utilizam de uma má interpretação de um texto para ostentar teologias que em nada consideram os ensinos da Bíblia Sagrada.

Entendo que há uma grande falta de temor a Deus nestes últimos momentos da Igreja na Terra. Brinca-se muito com as coisas de Deus, Sua Palavra e com o próprio Deus. Não entenda “temor” aqui como medo, mas como respeito.

Dispomos hoje de vários recursos didáticos para fazer uma boa interpretação dos textos bíblicos, no entanto, poucos se utilizam dessas metodologias. Outros se fecham totalmente para os meios hermenêuticos, entendendo que o Espírito é quem dá a interpretação. Não acredito assim, a iluminação do que será dito para o povo através daquele texto é com certeza dada pelo Espírito Santo, mas o interpretar, ou extrair a mensagem do texto, cabe ao hermeneuta, que buscará entender melhor o que, quando e para quem foi dita a mensagem.

1 BALL, Charles Fergunson. A vida e a Época do Apóstolo Paulo. 1 edição. Rio de Janeiro: CPAD, 1998. Pág. 20.
2 Idem, ibidem, pág. 155.

Por, Edeilson Santos.

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