Os huguenotes e a Casa de Israel

Os huguenotes e a Casa de IsraelDentre os trezentos homens que compunham a expedição comandada pelo Almirante Gaspar de Coligny, havia catorze cristãos huguenotes ilustres. Compunham o grupo os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier, além do historiador Jean de Léry. Chegaram às terras que mais tarde receberiam o nome de Brasil em 7 de março de 1557.

O termo huguenote refere-se aos protestantes franceses, de maioria calvinista, alguns dos quais discípulos do movimento iniciado por Pedro Valdo, que teria deixado raízes profundas entre os cristãos por sua coragem e sofrimento. Para alguns estudiosos, os estudantes que se reuniam em casas para o estudo secreto da Bíblia nas regiões de influência flamenca eram chamados de Huis Genooten (colegas de casa), enquanto aqueles que estudavam nas regiões alemã e suíça eram chamados de Eid Genossem (colegas de juramento). Do afrancesamento das duas expressões chegamos à palavra huguenote, comumente usada por seus opositores de forma desrespeitosa. Alguns dizem que os servos do Senhor mantinham reuniões secretas na Torre de Hugon, na França, e daí receberam seu apelido. Qualquer que seja a origem do nome, o certo é que o grupo sofreu severa perseguição e muitos foram martirizados. Dentre os ataques ao grupo destacam-se os assassinados ocorridos durante a Noite de São Bartolomeu, quando, segundo apologistas huguenotes, 70.000 morreram, ainda que o número seja contestado por apologistas católicos, que custam a admitir um número de 2.000 mortos.

Os que vieram nos idos de 1557 foram posteriormente perseguidos pelo próprio Villegaignon, que os convidara. As questões religiosas na França tiveram, aqui, sua repercussão. Os cultos, primeiramente diários e com a frequência de líderes da expedição, foram proibidos e os irmãos findaram expulsos do Forte Coligny. O relato daqueles dias pode ser encontrado no livro Histoire d’um Voyage faictenla terre Du Brésil, de Jean de Léry, datado de 1578. Alguns dos huguenotes presos foram condenados, estrangulados e lançados ao mar. Lafon teve sua vida poupada. Le Balleur conseguiu fugir, chegando a São Vicente, onde propagou a fé evangélica. Posteriormente foi detido, condenado à forca, tendo o carrasco se recusado a executar a sentença. Diante disso, Le Balleur foi enforcado pelo próprio jesuíta José de Anchieta, por ordem de Mem de Sá, no dia 20 de janeiro de 1567, data em que eram lançados os fundamentos da cidade do Rio de Janeiro.

Um dos legados desses nossos irmãos foi a iniciativa da realização daquele que é considerado o primeiro culto das Américas, na quarta-feira, dia 10 de março de 1557, portanto, três dias após sua chegada. A cerimônia teve início com o versículo 4 do Salmo 27: “Uma coisa pedi ao Senhor e a buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a formosura do Senhor, e aprender no seu templo”. Na ocasião, foi entoado o Salmo 5. Qualquer que meditar nessa bela passagem encontrará motivos para crer que nossos amados irmãos profetizaram não apenas os males que seriam os grandes desafios para essas terras, como a resposta, em Deus, para esses mesmos problemas.

Ainda que a história reserve páginas duras, marcadas pela crueldade e ódio separatista, não podemos ignorá-la, para não nos arriscarmos a arrancar-lhe as passagens de coragem, perseverança, fé inabalável e testemunho indestrutível. A chamada primeira Igreja Evangélica das Américas, inaugurada no dia 21 de março de 1557, pode ter frutificado de maneiras variadas, mas igualmente calcadas na certeza de que nossa fé está firmada na graça de nosso Senhor Jesus Cristo.

O exemplo dos huguenotes não soube morrer ali, mas estendeu suas obras de misericórdia de maneira tal que veio a frutificar em benefício à Casa de Israel. Em 1942, André Trocmé e sua esposa Magna, líderes da Congregação huguenote da vila de Le Chambon-sur-Lignon, no sudeste da França, pediu às suas ovelhas que ajudasse e, se possível, dessem abrigo a todo e qualquer judeu, livrando-os dos horrores do nazismo. A gente a quem ele chamava de “povo da Bíblia” logo encheu as ruas da vila e de seus arredores, alcançando as montanhas. Alguns usaram o caminho como rota para alcançar a Suíça. Outros permaneceram por lá, especialmente na região alta de Le Chambon, até a libertação da França. Cerca de 5.000 judeus passaram por lá. Quando as autoridades locais ordenaram o fim das atividades protecionistas, a resposta do servo de Deus foi: “Estas pessoas vieram pedindo ajuda e abrigo. Eu sou seu pastor. Um pastor não abandona o seu rebanho. Eu não sei o que é um judeu, só sei o que é um ser humano”. Trocmé foi preso. Seu primo, Daniel Trocmé, foi enviado ao campo de concentração de Buchenwald, onde foi morto pelos alemães por seu trabalho de proteção a crianças judias. Os cidadãos de Le Chambon continuaram com sua missão. Naquela região os judeus habitaram seguros. Quando os nazistas se aproximavam, fugiam para as montanhas. Quando o perigo passava, os moradores iam para as florestas, cantando canções que sinalizavam o fim do perigo. André Trocmé e os moradores de Le Chambon foram reconhecidos por Israel como “Justos entre as nações”. Eles arriscaram suas vidas e, por seu trabalho compassivo, muitos judeus escaparam dos campos de extermínio.

Nestes dias, nos quais vemos recrudescerem os discursos de incentivo a um distanciamento entre evangélicos e judeus, baseados em toscos argumentos que buscam ressaltar suas diferenças de costumes e práticas, vale a pena rever o amor em que se funda nossa relação. O cristão que se aproxima da língua hebraica e busca aprofundar seu conhecimento no Tanach não necessariamente está-se ‘judaizando’, bem como o judeu que busca entender as razões pelas quais muitos identificam Jesus como o Messias de Israel, não necessariamente está traindo sua fé ancestral. Caminhamos próximos demais para não nos encontrarmos eventualmente.

O pior argumento, espantosamente, diz respeito a um temor de que, ao interagirem com os evangélicos, os membros da comunidade judaica brasileira estariam ‘atraindo’ a si os ódios e as reações políticas hoje em curso e sendo prejudicados por tal aproximação. Nada mais inverídico e raso como ferramenta discursiva. Nada mais perigoso como instrumento de ódio. A vizinhança à leitura da Palavra, aos princípios bíblicos, à vida de oração, ao desejo de abençoar, de interagir e de conhecer jamais poderá ser tida como prejudicial. Há uma caminhada inegável. Há testemunhos contados como fatos históricos. Há um registro inapagável de amor mútuo. Páginas difíceis? Também as há. Maior, porém, é o abraço pastoral que mutuamente nos damos no momento em que não nos reconhecemos como opositores, apenas humanos, igualmente amados pelo Eterno.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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