O sopro de muitas vidas para Israel

O sopro de muitas vidas para IsraelA leitura da Torah é feita nas sinagogas segundo uma divisão em porções chamadas parashah. Cada uma delas relata uma história bíblica, organizada em leituras sabáticas. Seus títulos são, na verdade, as primeiras palavras de cada porção. Assim Chayei Sarah (lê-se “rraiei sara”), “vidas de Sarah” é o título da porção que se inicia em Gênesis 23: “As vidas de Sarah foram cento e vinte e sete anos; os anos das vidas de Sarah”. Nossas melhores traduções, ainda que preconizem a fidelidade ao texto hebraico, procuram adaptar o plural do sujeito da oração, talvez por não encontrar, em língua portuguesa, um parâmetro para o uso dessa forma de fazer múltiplo um mesmo indivíduo. Ficaremos com a exata expressão hebraica.

Sarah não teve apenas uma vida, mas muitas, e isso nada tem a ver com a ideia de reencarnações, o que fica bem claro quando nos é informado o tempo de sua jornada terrena. Afinal, foram cento e vinte e sete anos, durante os quais viveu situações variadas em lugares totalmente distintos. Filha de Terah com outra mulher que não a mãe de Abraão, Sarah encontra-o menino de 10 anos. Provavelmente cresceram juntos, tendo sido escolhidos um para o outro ou tendo-se escolhido mutuamente. Juntos deixaram Ur, ainda em companhia de Terah, em direção a Harã. Juntos tornaram-se órfãos de pai. Juntos desceram em direção à terra de Knahan (Canaã), para habitar na região entre Betel e Ai. Naquela ocasião, Abraão contava setenta e cinco anos e Sarah sessenta e cinco. Depois de algum tempo próximos a Betel, vão ao Egito em busca de melhores condições. Posteriormente retornam à região que deixaram. Mais tarde, ei-los nas terras dos filisteus. Novo retorno. Fixam, se é que se pode usar o termo em se tratando de peregrinos, sua residência junto aos carvalhais em Manreh. No decorrer desse caminho, Sarah parte da condição de filha cuidada nascida em uma família de posses, o que bem justificaria o casamento com seu meio irmão, atitude permitida e comum na época, à expectativa de uma nova terra, com diferentes costumes, tendo, contudo, a doce presença de seu pai, de seu marido e irmão, de seu sobrinho Loh e de outros que os tenham seguido. A orfandade e as novas mudanças seguem-na conforme se lhe acrescentam os anos. Uma é a vida em Knahan, outra é a vida no Egito. Um é o harém egípcio, outro é o harém filisteu. Um é o tempo da paz, outro é o tempo de ver sair o marido para guerrear contra poderosos reis. Ora a paz doméstica, ora o desprezo e a necessidade de tomar duras decisões. Um é o ventre vazio à espera da promessa que parece tardia, outra é a surpresa de ver o corpo envelhecido tomar novo vigor e gerar.

Na vida dessa mulher, dentre tantas coisas que se poderia destacar, façamos menção à sua capacidade de adaptar-se às circunstâncias de uma vida mutante. Isso deve ter-lhe valido até mesmo quanto às coisas mínimas do universo feminino, pois uma roupa de linho fino adequada para estar entre as pretendidas de Faraó, certamente não seria útil na rotina de uma beduína em suas múltiplas tarefas na aridez do deserto.

Saber mudar, enfrentando cada novo aspecto da vida, conservando a condição majestosa que seu nome anunciava é uma qualidade que parece ter permanecido nas gerações que seguiram Sarah, de forma a levar o professor Jaci Venturi a deixar suas impressões no site da Rádio CBN em Curitiba, no ano de 2013, após sua visita em Israel: “O patrimônio intelectual propiciou aos judeus a sobrevivência e a adaptação no longevo decurso de sua história de diásporas, guerras, invasões, perseguições e desterros. Segundo o historiador Paul Johnson nenhum outro povo mostrou-se mais fecundo em fazer da desgraça um uso criador”. […] “Tantas nações sucumbiram, enquanto Israel renasceu das cinzas. Qual o segredo dessa longevidade? Difícil responder, mas certamente, entre outras razões, estão a perseverança e a resiliência de um povo diante das adversidades, bem como o zeloso investimento na formação das futuras gerações pela família e pelo Estado”.

Israel é um cadinho de raças e de culturas. Caminhar por suas ruas é perceber a presença de judeus da Europa Oriental, da Europa, das Américas. Transitam filipinos, russos, etíopes, hindus… Há uma grande quantidade de imigrantes num pequeno país onde muito ainda está por fazer. Talvez nisso resida uma das maiores semelhanças entre a nação judaica e o Brasil. Diferentemente dos países europeus, para nós muito precisa ser criado, decidido, inventado. Se somos o país do jeitinho (no bom sentido), somente o somos porque a necessidade nos fez aprender a adaptação. Se não há uma planta arquitetônica, faz-se o puxadinho. Se não é possível pernoitar no hotel com a família, prevalece o calor do amigo que abre as portas de sua casa e afirma que “sempre cabe mais um”. Se o hospital carece de um instrumento preciso para determinada intervenção, inventa-se, adequa-se, faz-se funcionar – porque precisa funcionar. No Brasil como em Israel não há possibilidade de fechar-se em fórmulas alheias, mas há que se descobrir um caminho próprio, bebendo das fontes, carregando a herança legada pelo passado, mas guardando, em todo o tempo, a possibilidade de se adaptar.

Os mais atingidos pelas crises são aqueles que não conseguem ver, na mudança, a entrada de uma nova estação. Talvez alguém não possua mais o mesmo carro ou o mesmo emprego, mas vive e prossegue a caminhada. Deus está presente, não há o que temer. É possível, em qualquer situação, guardar a postura principesca que permite, no deserto, conservar o frescor das fontes do harém e, nos palácios, guardar a singeleza das pastagens e o bom perfume das raras flores dos lugares ressequidos.

Quando tudo parece já ter sido vivido, após cento e vinte e sete anos, ainda é através de Sarah que um importante aspecto da promessa se cumpre. A descendência numerosa já estava presente na pessoa do filho; a bênção de Deus estava comprovada no coração daqueles que contemplavam a vida de Abraão; a terra… bem, a terra precisava ser possuída, e foi, ao menos um pequeno pedaço, por ocasião de sua morte. Mesmo em Machpela, seu último local de peregrinação, Sarah fez sentir a superabundância do sopro do Eterno em suas muitas vidas.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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