O que querem fazer com a teologia?

O que querem fazer com a teologiaDepois da secularização da sociedade, vivemos o tempo da secularização da teologia. Ou então, a dessacralização da religião.

Refiro-me à secularização tão somente como afastamento da essência da espiritualidade e do transcendente das questões do dia. No âmbito da teologia, isso é feito através do enquadramento da fé aos limites da sociologia e da fenomenologia.

É bem verdade que presenciamos o regresso da religião ao espaço público, como um fenômeno social de abrangência mundial. A máxima preconizada por Nietzsche “Deus está morto” parece não ter se confirmado empiricamente, diante da ressurgência da fé e da religiosidade no tempo presente.

No livro God is back os editores da revista Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldrige, referem o regresso de Deus ao mundo globalizado, contra todos os prognósticos de filósofos e cientistas que desde o iluminismo pressagiavam o desaparecimento da religião[1], visto que a busca pelo sagrado, “longe de esvanecer, até cobrou um novo ânimo”[2].

Assim, mesmo em condições adversas e restrições à liberdade religiosa em várias partes do globo, a força da fé está a florescer, como é o caso da China, cujo número de religiosos tem se multiplicado, chegando a pelo menos 65 milhões de protestantes e 12 milhões de católicos[3].

O movimento do neoateísmo – capitaneado pelo biólogo inglês Richard Dawkins, até onde é possível notar, igualmente não tem sido capaz de frear o crescimento religioso. Em estudos recentes, Pippa Norris e Ron Inglehart constataram que a despeito da secularização no Ocidente, “no mundo como um todo há mais pessoas com visões religiosas tradicionais do que antes, e elas constituem parte progressivamente da população”[4].

Alguns chamam isso de pós-secularização – a revanche do sagrado. O que é estranho, afinal, paralelamente a essa ressurgência religiosa, há em curso um processo que busca dessacralizar o discurso religioso. No ambiente público, a fé é aceita, conquanto se comporte como uma boa menina, nos limites do politicamente correto.

Vejamos o caso do ensino teológico. Carlos Mendonza-Alvarez nos faz lembrar que hoje o discurso teológico tem grande dificuldade de ser reconhecido no ambiente publico, sendo a objeção principal aquela que diz que “a teologia depende de um preconceito não verificável: a revelação e sua transmissão segundo um princípio de autoridade”[5].

Graças a essa objeção, diz Mendonza-Alvarez, “as novas disciplinas que se concentram na análise do religioso, sem levar em conta a verdade de seu conteúdo, mas seu impacto social, histórico, psicológico e antropológico encontraram um terreno nas universidades modernas e nas sociedades democráticas laicas”.

Consequentemente, ao rejeitar qualquer dogmatismo e a ideia de revelação, esse cenário foi propício para a emancipação da “ciência da religião”, obedecendo a cartilha da perspectiva social e fenomenológica do sagrado. Com efeito, o cientista da religião olha para a religião (e não para o divino) como um objeto de estudo, sem qualquer afeto e com máxima neutralidade (assim pensa).

Surgem, nesse contexto, os teólogos-cientistas da religião. Encaram a fé eminentemente nas perspectivas sociológica, fenomenológica e antropológica, e não mais sob o aspecto espiritual, sagrado. Esse tipo de teólogo é cético por natureza e descrente até prova em contrário.

Ocorre que é esse o perfil que o Ministério de Educação e Cultura espera do teólogo atualmente, a julgar pela DCN (Diretriz Curricular Nacional) do curso publicada em setembro de 2016, e pelo primeiro ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) de teologia aplicado em 2015. A análise destes documentos demonstra que há muita sociologia, filosofia, psicologia e antropologia e quase nenhum “estudo de Deus”. Ao que tudo indica, doutrinas são personas non gratas neste novo perfil de teólogo, e o tal “ direito de confessionalidade” parece existir, desde que as confissões estejam alinhadas ao que o MEC entenda correto.

O resumo do que estão querendo fazer com a teologia encontra-se na afirmação do teólogo suíço Hans Küng, cujo texto compôs a questão 29 do aludido exame nacional: “Historicamente, o tema central da teologia gira em torno da figura de Deus. Contudo, o ponto de partida da reflexão teológica é a existência da história, concreta, e, às vezes, trágica, do ser humano que pensa. Uma teologia que abandona decididamente a mentalidade confessionalista de gueto, ainda bastante difundida, é capaz de unir uma ampla tolerância do extraeclesial, do religioso e do simplesmente humano com a reflexão sobre o especificamente cristão”. Desta forma, prossegue Küng, “precisamos encarar a tarefa a partir de óticas múltiplas, dando valor aos pontos de vista de outras ciências”.

Nessa nova versão, portanto, o tema central da teologia não é a “figura de Deus”, e sim a história.

Certamente, os aspectos sociais possuem importância no ambiente do conhecimento. Todavia, a redução da teologia, especialmente a teologia cristã, ao discurso sociológico e fenomenológico desnatura por completo o sentido do “estudo de Deus”, na medida em que Deus, nesse caso, é posto como mero coadjuvante.

Se a teologia transforma Deus em mero coadjuvante do seu estudo, então não há razão para ser chamada por este nome. Um estudo onde são priorizados os efeitos sociais da religião, em detrimento da sua causa principal, que é Deus, talvez deva ser chamado de qualquer outro nome, menos de teologia.

Por, Valmir Nascimento.

REFERÊNCIAS

[1] SANTOS JUNIOR, Aloísio Cristovam dos. Liberdade religiosa e contrato de trabalho: a dogmática dos direitos fundamentais e a construção de respostas constitucionalmente adequadas aos conflitos religiosos no ambiente de trabalho.Niterói, RJ: Editora Impetus, 2013, p. 11,12.
[2] SANTOS JUNIOR, 2013, p. 12.
[3] SANTOS JUNIOR, 2013, p. 12.
[4] NORRIS, Pippa; INGLEHART, Ron apud: D’SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo: por que a religião criada por Jesus é moderna, fascinante e inquestionável. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, p. 27.
[5] MENDONZA-ALVAREZ, Carlos. O Deus escondido da pós-modernidade. São Paulo: É Realizações, 2011, p. 96.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »