O pelagianismo neopentecostal

O pelagianismo neopentecostalO pelagianismo é uma heresia surgida no século V d.C. que foi combatida por Agostinho de Hipona e Jerônimo, dentre outros. Agostinho, mais conhecido Santo Agostinho, debateu o tema com o próprio Pelágio, seu contemporâneo, em importantes obras: A Natureza e a Graça e A Graça de Cristo e o Pecado Original.

O objetivo de lembrarmos essa heresia neste artigo é que há alguns elementos da doutrina de Pelágio que, infelizmente, ainda estão presentes em algumas igrejas, muitas delas representadas pelo que se convencionou chamar de “neopentecostais”. Discorrer sobre todos os ensinos do monge britânico Pelágio no presente artigo faria com que ele ganhasse uma extensão a qual não me proponho. Além disso, para o propósito do presente texto, poucos informes sobre os ensinamentos desse homem são suficientes.

A atuação de Pelágio ocorre nas primeiras décadas do século V. Ele é oriundo das ilhas britânicas (Inglaterra ou ainda Irlanda). As informações que temos desse monge nos vêm principalmente de seus opositores, tais como Agostinho e Jerônimo, pois poucos de seus próprios escritos chegaram até nós hoje.

Mesmo Pelágio e o pelagianismo sendo condenados pela igreja ainda em seu nascedouro, alguns de seus ensinamentos pareciam ter consistência bíblica, a ponto de, inicialmente, a igreja não querer se envolver oficialmente com suas doutrinas, achando no começo que se tratava apenas de conflitos pessoais entre Agostinho e o teólogo britânico.

Bem, o ponto da doutrina pelagiana ao qual quero me reportar estão diretamente ligados a uma distorção teológica contemporânea praticada em várias igrejas.

Pelágio ensinava que os recursos da salvação estão dentro da humanidade. Segundo ele, o ser humano tem a capacidade de salvar a si próprio. Mesmo dominado pelo pecado, o homem possuiria a habilidade de fazer tudo o que é necessário para ser salvo. Com isso, o pelagianismo colocava a salvação como algo recebido por meio de boas obras, o que coloca Deus sob uma obrigação para com a humanidade. Haveria uma “aliança” entre Deus e o homem, bastando o homem “fazer a sua parte” e Deus faria a dEle.

Dizia Pelágio que há três aspectos na ação do homem: poder, querer e realizar. De acordo com ele, o poder vem exclusivamente de Deus, mas os outros pertencem tanto a Deus quanto ao homem. Essa postura teológica leva o fiel a um contínuo esforço em fazer algo para receber as bênçãos de Deus, como se fosse decorrentes de seu próprio mérito e esforço. O fiel se encontra envolvido na religiosidade e no “dando que se recebe”. Somente se dermos o dízimo, por exemplo, seremos automaticamente abençoados. Deus estaria “comprometido” em fazer a parte dEle, já que nos esforçamos para fazer a nossa. Dízimo deixa de ser um ato de gratidão e reconhecimento para se tornar uma barganha entre o homem e Deus. Ajudando de alguma forma a igreja, como consequência terei a recompensa já nesta vida.

Essa religiosidade irá se resumir sempre no fazer, tal como jejuar, participar de campanhas, envolver-se em atividades da igreja e muitos outros “fazeres”. Com isso, deslocamos Deus em sua graça e soberania. Suas bênçãos se transformam em uma mercadoria de supermercado, em que retiro somente o que minha necessidade de imediato requer.

Certa ocasião, uma crente participava de uma “campanha das 52 sextas-feiras”. Segundo ela, o propósito para receber a bênção era participar dos cultos de sexta-feira sem faltar um só durante um ano. Quando perguntada sobre o que aconteceria se, por algum motivo, perdesse um culto, como ficaria? A resposta foi: “Recomeço a campanha”. Deve-se pensar nas campanhas “Dos sete”, tão corriqueiras e divulgadas pela mídia: sete dias de jejum; sete dias de ofertas; sete dias de oração etc. Esse evangelho não é o Evangelho da Graça.

Por, Vantuil Gonçalves dos Santos.

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