O “orgulho” de Paulo ao dizer “sede meus imitadores”

Como entender 1 Coríntios 11.1, onde o apóstolo Paulo diz “Sede meus imitadores, assim como eu sou de Cristo”? Ele não estaria se gloriando?

O “orgulho” de Paulo ao dizer “sede meus imitadores”Há oito anos, todas as noites, eu sinto a mesma alegria em meu coração quando, à mesa, vejo meus filhos fecharemos olhos e orar. Pequeno ainda, mesmo antes das primeiras palavras, meu primogênito Estêvão cerrava os olhinhos em reverência a Deus, enquanto agradecíamos pelo alimento. Mais nova, a minha pequena Amy assimilou esse hábito com a doçura que só têm as meninas: ela usa as mãozinhas para cobrir os olhos. A imitação foi o poderoso recurso que minha esposa e eu empregamos para incutir esse comportamento em nossas crianças.

No texto de sua primeira carta à Igreja de Corinto (11.1), o apóstolo Paulo demonstra conhecer os benefícios didáticos da imitação. Com autoridade pastoral, ele exorta suas ovelhas a assumirem um comportamento ideal à cristandade. Com segurança paterna, o fundador da igreja peloponesa convida os filhos na fé a agirem como ele próprio: “Sede meus imitadores”.

Como entender claramente esta passagem? Estaria o prisioneiro de Cristo exagerando em suas qualidades pessoais? O que ele pretendia?

A primeira regra para a boa exegese é resistir ao impulso de considerar um versículo como unidade autônoma de pensamento. A Bíblia, aliás, não foi redigida originalmente em capítulos e versículos – este recurso surgiu no século XIII, ideia do sacerdote inglês Stephen Lagnton. Alguns textos, porém, ao serem arranjados da maneira como os conhecemos, tiveram sua redação fracionada; esse é o caso de 1 Coríntios 11.1 que, originalmente, pertence ao capítulo anterior, e é neste contexto que deve ser estudado.

Paulo, desde o capítulo 8, vem tratando sobre a liberdade cristã. Ele começa pelo tema sensível dos alimentos ofertados aos ídolos (8.1-3); a seguir, constrange os coríntios com sua renúncia pessoal (9.1-13); depois, fala sobre os riscos da obstinação (9.24-10.22); e, finalmente, apela à sua demonstração pessoal de piedade (até 11.1): “Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos. Sede meus imitadores, como eu também sou de Cristo” (10.32, 33 e 11.1). Considerando estes versículos um só parágrafo, começa a tornar-se clara a intenção do apóstolo.

Outra ação hermenêutica importante é ler e reler o texto em busca dos conceitos que há na passagem. No texto em questão há dois, e eles não são orgulho e prepotência, absolutamente!

O primeiro conceito é a réplica comportamental por imitação. Paulo quer reproduzir entre os coríntios um padrão específico de convivência. No entanto, ele já conhecia o temperamento difícil e o caráter comprometido daqueles crentes. Embora não lhes faltassem palavras ou recomendações, seu aprendizado parecia depender de demonstrações e exemplos. E Paulo tenta uma solução dizendo “É só fazer o que eu fizer.”

O segundo conceito é a referenciação comportamental. O apóstolo quer que o imitem, mas nem de longe se assume como a referência absoluta. É só aplicarmos um pouco de lógica: Paulo quer ser imitado. E o que Paulo faz? Paulo imita a Cristo. E o que os coríntios devem fazer? Imitar a Cristo, assim como Paulo! Jesus, portanto, é a referência, e não Paulo.

Conclui-se, então, não haver orgulho em Paulo nesse caso. Ele era dominado pelo desejo de formar naqueles seus irmãos a imagem de Cristo, e uma boa maneira para isso era convencê-los que imitar a Cristo é desejável e viável. Era como se dissesse: “Façam como eu: imitem a Cristo!”

Por, Gunar Berg.

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