O martírio dos sacerdotes de Nobe

O martírio dos sacerdotes de NobeAs atrocidades cometidas contra os sacerdotes de Nobe é um claro exemplo no Antigo Testamento de pessoas martirizadas por se manterem fiéis aos princípios de sua fé no Deus criador de todas as coisas.

Nobe era uma cidade sacerdotal nas terras de Benjamin, localizada numa colina próxima de Jerusalém. Situava-se à a margem de uma estrada que chegava até Jerusalém, vinda do norte, e que passava bastante perto de Nobe, de uma forma que podia ser vista (Isaías 10.28-32). Em Nobe, o sacerdote Aimeleque, no tabernáculo, supriu as necessidades de Davi quando este fugia de Saul, oferecendo ao fugitivo o pão sagrado e a espada de Golias (1 Samuel 21.1-9), ato este considerado por Saul como um gesto de traição e rebelião, que deveria ser punido com a morte de Aimeleque e de toda a sua casa (1 Samuel 22.16).

Observaremos algumas questões relacionadas ao evento aqui exposto. Em primeiro lugar, entendo como importante fazer uma breve análise da condição de Saul, mandante da execução de Aimeleque de mais de 84 sacerdotes e dos habitantes de Nobe (1 Samuel 22.18-19). Obstinado pelo desejo de matar Davi, tido como um conspirador e traidor (1 Samuel 18.6-9), Saul empreendeu uma implacável caçada ao jovem ungido por Deus para ser o próximo rei de Israel (1 Samuel 16.1-13).

Sem a bênção de Deus (1 Samuel 18.12), Saul passou a se utilizar de artifícios humanos para se manter no poder. Em Gibeá, num discurso proferido aos seus servos e aos filhos de Benjamim (1 Samuel 22.6-7) disse: “Ouvi, peço-vos, filhos de Benjamim, dar-vos-á também o filhos de Jessé, a todos vós, terras e vinhas e vos fará a todos chefes de milhares e chefes de centenas”. Observe que Saul usa uma estratégia comum utilizada por líderes sem lideranças, que procuram se manter nos cargos pela força do próprio cargo. Ele abertamente fala em doações de terras (mais espaço), de vinhas (mais rendimento) e de cargos (mais poder) para os seus ouvintes. Estas ofertas são de fato sedutoras, onde muitos já se renderam e se venderam em troca delas.

Uma segunda estratégia utilizada por Sul neste episódio foi o de se colocar na condição de vítima: “[…] para que todos tenhais conspirado contra mim? E ninguém houve que me desse aviso de que meu filho fez aliança com o filho de Jessé; e nenhum dentre vós há que se doa por mim e me participe que meu filho contra mim instigou a meu servo, para me amar ciladas, como se vê neste dia” (1 Samuel 22.8).

Em seu discurso, a linguagem utilizada por Saul enfatiza e potencializa a sua falsa condição de vítima. As expressões “todos tenhais conspirado”, “ninguém houve que me desse aviso” e “nenhum dentre vós há que se doa por mim”, é um claro retrato disso. Você já percebeu como alguns líderes tiranos, opressores, ditadores são hábeis ao usar esse modelo de discurso, chegando até às lágrimas e com isso levando os seus ouvintes até à comoção? De perseguidores, tais líderes passam num só momento a ser vistos na condição de perseguidos.

Diante do discurso de Saul, um edomita chamado Doegue, que se encontrava entre os servos de Saul, se prontifica em lhe dar algumas informações: “Então, respondeu Doegue, o edomita que também estava com os servos de Saul, e disse: Vi o filho de Jessé chegar a Nobe, a Aimeleque, filho de Aitube, e como Aimeleque, a pedido dele, consultou o SENHOR, e lhe fez provisões, e lhe deu a espada de Golias, o filisteu” (1 Samuel 22.9-10).

É a partir das informações de Doegue que o martírio dos sacerdotes de Nobe começa ser construído. Em sua arrogância e prepotência, mesmo podendo ir até Aimeleque para se certificar das informações recebidas, como é comum também aos líderes na condição de Saul, do alto de sua soberba: “[…] o rei mandou chamar Aimeleque, sacerdote, filho de Aitube, e toda a casa de seu pai, a saber, os sacerdotes que estavam em Nobe; todos eles vieram ao rei” (1 Samuel 22.11).

Já contemplei esta cena algumas vezes. Líderes, cegos e enfermos pelo poder, diante ada informação dos “doegues” da vida, mandando chamar os supostos traidores para um julgamento onde qualquer tentativa de defesa ou justificativa é irrelevante. Julgamentos onde a sentença já e dada antes dos acusados serem ouvidos.

Aimeleque é acusado por Saul de conspiração, sem que o rei ouvisse antes uma só palavra dele: “Disse Saul: Ouve, peço-te, filho de Aitube! Este respondeu: Eis-me aqui, meu senhor! Então, lhe disse Saul: Por que conspirastes contra mim, tu e o filho de Jessé? Pois lhe deste o pão e a espada e consultaste a favor deles a Deus, para que se levantasse contra mim e me armasse ciladas, como hoje se vê” (1 Samuel 22.12-13).

O ato de ajudar Davi, e não as motivações era o que estava em julgamento. Respeitosamente e com muito senso de justiça Aimeleque aponta para as virtudes de Davi (1 Samuel 22.14) e alega inocência diante da acusação de consultar a Deus por Davi, como que participando de alguma trama contra o rei. O fato, é que nada que Aimeleque falasse mudaria a cruel e injusta sentença já deliberada antecipadamente por Saul: “Respondeu o rei: Aimeleque, morrerás, tu e toda a casa de teu pai” (1 Samuel 22.16).

Esta realidade está bem presente em nossos dias. Líderes, diante das acusações feitas contra alguém ao se sentirem ameaçados ou traídos, chamam os acusados para serem ouvidos por mera formalidade, pois em seus corações já os sentenciaram ao sofrimento e à morte.

Em sua insensatez, algo acontece na trajetória de Saul que nos serve também de alerta e exemplo. Em 1 Samuel 15.1-3, quando orientado por Deus a ferir os amalequitas, e a destruir, e a não poupar as pessoas e os animais, Saul poupou Agague, rei de Amaleque, e o melhor dos animais (1 Samuel 15.9). Já no episódio do martírio dos sacerdotes de Node, sem nenhuma ordem expressa de Deus, Saul manda executar o sacerdote Aimeleque, seus companheiros, o povo de  Node e também os bois, jumentos e ovelhas. O ato de Saul se reveste de tanta crueldade, que a própria guarda que o acompanhava se recusa a cometer tamanha violência, sendo o feito realizado por Doegue, o edomita (1 Samuel 22.17-19).

Aimeleque não traiu a sua consciência em ter ajudado Davi, o jovem escolhido por Deus e ungido por Samuel para reinar sobre Israel, pois sabia das injustiças lhe imputadas por Saul, o rei aprovado. Aimeleque não demonstrou arrependimento, pois não havia do que se arrepender. Aimeleque não se sentiu culpado, pois não havia motivos para isso.

A ação nobre de Aimeleque em favor de Davi, motivado por uma causa justa, que em nada feria os princípios e a essência dos mandamentos do Senhor, lhe custou o martírio, e não apenas o dele, mas dos demais sacerdotes. A crueldade foi estendida ao povo, e até aos bois, ovelhas e jumentos.

Aprendemos com o martírio dos sacerdotes de Nobe que pessoas e grupos comprometidos com Deus e com a Sua Palavra foram e ainda continuarão sendo perseguidos, maltratados e mortos por lideranças que por Deus já foram reprovadas (em alguns casos, nunca foram aprovadas). O martírio honra os martirizados, ao mesmo tempo em que promove na história e na eternidade a vergonha de seus algozes mandantes e executores.

Por, Altair Germano.

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