O inimigo era meu irmão

O inimigo era meu irmãoO telefone toca no saguão de um hospital ao norte de Israel. A ligação é de um oficial do Exército Israelense. A mensagem é lacônica, porém, repleta de significado: “Alguém está chegando em uma hora”. A rotina do centro de tratamento é alterada para receber mais um rebelde ou civil sírio ferido na guerra que vem assolando aquele país nos últimos anos. Trazidos através da fronteira para receber tratamento médico, chegam vítimas de estilhaços de balas, contaminados por armas químicas (cujo uso, proibido pelas convenções internacionais, foi dolorosamente confirmado), queimados, necessitados de intervenções cirúrgicas, jovens, crianças e mulheres em estado de desnutrição. Temerosos, sem conhecimento do hebraico, nervosos por estarem no território de seu inimigo de longa data, permanecem anônimos. Suas famílias poderiam sofrer represálias se o seu deslocamento e tratamento em Israel fossem divulgados. Cada uma das vítimas cresceu ouvindo o discurso oficial sírio antiisraelense e referiu-se ao povo que agora lhes oferece abrigo como “os animais” do outro lado da fronteira. O regime sírio é inimigo de Israel e seus cidadãos podem ser presos por qualquer tentativa de descumprirem a determinação de isolamento entre os dois países. O enfrentamento em duas guerras resultou numa relação bastante tensa. Mesmo os dois lados que combatem entre si na guerra civil síria têm em comum o ódio a Israel. Os militantes do Hezbollah e os combatentes da al-Qaeda opõem-se igualmente à existência do Estado Hebreu.

À margem das questões políticas, os centros médicos israelenses disponibilizam professores fluentes em árabe, e a ajuda de assistentes sociais para atender os pacientes do país vizinho. Ainda que saibam que seu esforço é como uma pequena contribuição diante do quadro terrível provocado pela guerra, reconhecem que é sua maneira de amenizar a dor de seus semelhantes. “Escutei [de um médico em meu próprio país] que eles tratam as pessoas muito bem por aqui”, disse um paciente sírio. Por isso vencem a travessia da fronteira, perigosa pelo ataque sofrido pelas ambulâncias, por parte de opositores à ajuda humanitária prestada. O choque cultural e o perigo de serem descobertos são agravados pela dúvida quanto ao retorno: “Não posso retornar para minha aldeia e dizer que os israelenses me trataram. Com toda a minha gratidão, não poderei falar disso porque o regime me mataria”; “Estou muito agradecida aos israelenses, mas quando retornar, não poderei falar onde estive, nem da amabilidade dos médicos e enfermeiros”, são alguns depoimentos de sírios atendidos. Mas os feridos não param de chegar. Quando retornam, são providos de roupas, remédios e artigos de primeira necessidade. São então devolvidos ao Exército Israelense, responsável por conduzi-los, através de rotas secretas, remanejando-os o mais seguramente possível de volta ao lar, conforme sua expressa vontade.

As informações prestadas talvez esclareçam a posição de cautela de que se reveste Israel no presente momento, com relação à guerra civil síria. Não existe qualquer desejo de um envolvimento direto no conflito, muito embora, por vezes, seja necessário responder a ataques como os ocorridos recentemente na região norte. Quatro foguetes foram disparados na região do Golã e as forças israelenses dispararam 5 ou 6 ataques de artilharia e aviação como resposta. A guerra, no entanto, restringe-se à Síria, conquanto suas consequências venham repercutindo em toda a Europa para onde se deslocam multidões de migrantes, naquela que já é considerada a maior crise migratória em décadas. A Alemanha anunciou, no dia 7 de setembro (2015), que vai destinar 6 milhões de euros para administrar o grande fluxo de pessoas e absorvê-las adequadamente. A Chanceler alemã Angela Merkel declarou: “O que vivemos agora é algo que seguirá nos ocupando pelos próximos anos, nos mudará, e queremos que a mudança seja positiva”. A França comprometeu-se a receber 24 mil refugiados dos 120 mil que a Comissão Europeia deseja abrigar no continente.

Os esforços europeus são considerados “ridículos” pelo primeiro-ministro turco, Ahmed Davutoglu, crítico do número de refugiados autorizados a entrar na União Europeia, definida por ele como uma “fortaleza cristã”, enquanto a Turquia recebeu mais de dois milhões de pessoas que fugiram das guerras na Síria e no Iraque.

O Premiê de Israel tem rejeitado o pedido do líder da oposição israelense para que o país dê abrigo a refugiados sírios. No dizer de Netanyahu, ele “não é indiferente à tragédia” e continuará tratando os feridos da guerra. “No entanto, Israel é um Estado muito pequeno e não tem alcance geográfico e nem demográfico” para tal absorção. Suas afirmações devem-se ao delicado equilíbrio étnico mantido em seu país, onde um quinto da população de 8,3 milhões de pessoas é formado por cidadãos árabes.

Mais clareza, talvez, nós encontremos nas palavras do Ministro do Interior da Espanha, Jorge Fernández Díaz, que defendeu o aumento das medidas de controle dos solicitantes de asilo procedentes da Síria, ante o temor da infiltração de membros do grupo terrorista Estado Islâmico. Segundo ele, “a Espanha não vai negar o direito de asilo a ninguém”, “mas temos que aumentar também os controles na hora de receber essas pessoas”. As razões de tal cautela? Certamente residem na dúvida sobre o posicionamento ideológico daqueles que estão fugindo. Fogem do terrorismo, mas fogem de países onde o terrorismo está implantado. Ele afirma que persiste uma dúvida: “de que, entre essas avalanches, possam infiltrar-se pessoas que não são [de fato] refugiados”.

Haveria algo de verdadeiro nas restrições de Netanyahu e nas dúvidas de Jorge Díaz? A ajuda humanitária cabível e necessária aos sofridos migrantes deverá armar-se da cautela que livre as nações hospedeiras de tornarem-se as próximas vítimas do terror? Seria possível uma hedionda trama que se valesse da necessidade dos que buscam abrigo para, entre eles, infiltrar a semente que levaria o mesmo mal que os assolou a outras terras? Ainda não há respostas e cabe-nos fazer o bem a todos – com a simplicidade das pombas e a prudência das serpentes.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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