O despertar do Leviatã sob as águas

O despertar do Leviatã sob as águas“Poderás pescar com anzol o leviatã ou ligarás a sua língua com a corda? Podes por uma corda no seu nariz ou com um espinho furará a sua queixada? […] Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. Do seu nariz procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira. O seu hálito faz acender os carvões e da sua boca sai chama” (Jó 41.1, 2, 19-21).

A impressionante descrição do animal marinho foi utilizada pelo cientista político Thomas Hobbes (1588-1679) para representar o único ser que, em sua opinião, superaria o “estado de natureza” que leva os homens a lutarem contra seus semelhantes, na “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes). Hobbes afirmava que um governo central e autoritário, uma espécie de monstro terrivelmente poderoso e centralizador – o Leviatã – seria a fórmula para conduzir à paz e à segurança mundiais, ordenando todas as decisões da sociedade e subjugando os povos ao seu comando.

Ao hebraico liwjatham – animal que se enrosca – corresponde o termo latino leviathan, descrevendo um ser criado por Deus (“ali andam os navios e o leviatã que formaste para nele folgar”), servindo de alerta a Jó de que o homem não pode medir forças sequer com uma criatura e, portanto, deve curvar-se diante da grandiosidade do Criador. O termo também é aplicado espiritualmente ao poder das trevas e à sua derrota nos últimos dias: “Naquele dia o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, a serpente fugitiva, e o leviatã, a serpente tortuosa; e matará o dragão, que está no mar”. Na demoniologia é o nome do espírito de manipulação, que procura governar a mente do homem, sobrepujando em poder até mesmo as artimanhas rebeldes comumente chamadas de “espírito de jezabel”. Os regidos por leviatã quedar-se-iam inertes em suas resoluções, tendo sido anulados por seu fôlego maligno.

Em outubro de 2010, uma maciça jazida de gás natural foi descoberta nos mares de Israel na área que os geólogos chamam de Bacia Levantina. O achado, localizado a umas 84 milhas a oeste do porto de Haifa e a três milhas de profundidade, recebeu o nome de Leviatã. As estimativas iniciais, para a jazida, de 16 trilhões de pés cúbicos de gás tornaram-na o maior achado de gás de águas-profundas numa década, com reservas suficientes para suprir os gastos de gás de Israel pelos próximos 100 anos, solucionando o dilema da autossuficiência energética para o país, após as numerosas e pouco producentes tentativas de exploração de petróleo, tão abundante em seus vizinhos.

As reservas encontradas no Mediterrâneo são o real cenário para a recente reconciliação entre Israel e a Turquia. Após a derrubada de um avião russo na fronteira com a Síria pela aviação turca, o relacionamento Ankara-Moscou tornou-se tenso demais para permitir a construção de um gasoduto que abasteceria a Turquia com o gás enviado pela Rússia, de onde provém metade do gás consumido naquele país. A descoberta do tesouro escondido nas águas israelenses surgiu como uma solução para o dilema energético. Os dois países passam a negociar a construção de um gasoduto que parta das águas territoriais de Israel e passe pelo solo turco, atendendo o país e entrando na rede de condução de energia que abastece a Europa.

O jornal El País, em artigo do dia 27 de junho, apaziguou os discursos eufóricos ocorridos no reatamento das relações e estabeleceu com clareza as razões que movimentaram a aproximação diplomática: “Nem “vitória diplomática para melhorar a situação humanitária em Gaza”, como proclama Ancara, nem “desterro do Hamas de sua base de operações na Turquia”, como alardeia o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O acordo para a normalização de relações entre Turquia e Israel, oficializado nesta segunda-feira depois de seis anos de desencontros, é um pacto de interesses mútuos que gira em torno do negócio do gás natural no Mediterrâneo Oriental […] Israel conta com grandes reservas de gás natural em suas águas territoriais. Uma vez cobertas suas necessidades energéticas […] vê-se obrigado a exportar o excedente do gigantesco campo Leviatán. Com um mercado regional limitado à Jordânia e após a descoberta de imensas reservas nas águas do Egito— seu teórico mercado natural —, Netanyahu viu-se forçado a buscar uma conexão com a Turquia e sua rede de gasodutos para a Europa.”.

O governo israelense assumiu o compromisso de pagar 18,14 milhões de euros em indenizações por um ataque feito em 2010. Naquela ocasião, forças israelenses atacaram o navio Mavi Marmara, fretado por uma organização não governamental turca para tentar romper o bloqueio e levar ajuda humanitária ao território. Dez ativistas turcos morreram na operação. A Turquia pediu o levantamento do bloqueio a Gaza. Israel permitiu a chegada de ajuda turca à população para aliviar a grave situação humanitária, com envios que serão desembarcados no porto israelense de Ashdod para uma inspeção de segurança, e pediu, por sua vez, a expulsão do território turco dos representantes do Hamas, o movimento islâmico que controla a Faixa de Gaza. O pacto inclui um programa de investimentos turcos em Gaza, com a construção de um novo hospital e a instalação de uma central elétrica. A Turquia e a Alemanha financiarão a construção de uma fábrica de dessalinização da água do mar, uma vez que cerca de 90% da água disponível na região de Gaza não é considerada potável. Ancara se comprometeu-se a não permitir que o Hamas realize ações contra Israel do território turco e a expulsar os comandantes acusados por Israel de dirigir atentados terroristas na Cisjordânia. No entanto, a Turquia prossegue oferecendo apoio à criação de um Estado Palestino.

Os países trocarão embaixadores brevemente, reiniciando as relações estabelecidas desde 1949, quando a Turquia foi o primeiro país de maioria muçulmana a reconhecer o Estado de Israel e é hoje um de seus principais entrepostos comerciais de recursos energéticos. Nos primeiros dias de julho, conforme acordado, o navio “Lady Leyla” atracou no porto de Ashdod, carregado com 11 mil toneladas de suprimentos, alimentos e brinquedos destinados à Faixa de Gaza.

Enquanto isso, o gás natural vem se tornando a única solução limpa e realista para suprir a Europa, em lugar do carvão, tornando o continente o maior mercado emergente dessa fonte no mundo. Isso poderá ligar, por interesses comerciais, Israel, Turquia e Catar de um lado e a Síria, o Irã, a Rússia e a China de outro, numa geopolítica da energia que movimentará o Leviatã de seu descanso sob os extratos subterrâneos e lançará – talvez tonteará – as nações com as chamas de sua boca. Que poderes estão sendo levantados, e que consequências trarão ainda não podemos discernir, mas já vemos uma Eurásia em mudança e seus limites nacionais em variações de contornos. Aguardemos e oremos. Shalom!

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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