O culto das vassouras ungidas

O culto das vassouras ungidasSe olhássemos para uma foto que mostrasse dezenas de pessoas empunhando vassouras, no que pensaríamos? Em um protesto de garis, aliás, aconteceu a pouco tempo no Rio de Janeiro, ou em uma reunião dos fãs do Harry Potter, bruxo da história criado pela britânica J. K. Rowling, o qual voa em uma vassoura? Poderíamos pensar, ainda, em uma reunião de algum político que promete “varrer” a corrupção do governo, cuja campanha foi inspirada no jingle “Varre, varre, vassourinha”, usado por Jânio Quadros, em 1960. E se eu disser ao leitor que a mencionada foto alude a um “culto evangélico” em que inúmeras pessoas se reuniram – acredite – para ungir suas vassouras com o “óleo de fogo” do Monte Carmelo? “Vassouras ungidas? Óleo de fogo?”. Exatamente. “Como assim? O fogo não é o produto originário da combustão de materiais inflamáveis?”. Sim. “E o óleo não é um tipo de combustível?”. Sim. “Como explicar essa fusão para lá de ‘sobrenatural’ e exótica?”. Calma. Eu vou explicar.

Imagine a cena: um suposto pastor, em um vídeo da Internet, diz estar no Monte Carmelo, na costa de Israel, para consagrar o tal “óleo de fogo”, a fim de “distribuí-lo” – na verdade, vendê-lo – em sua igreja, na “grande sexta-feira forte”. O “pastor” explica: “Estou aqui  no Monte Carmelo, em Israel, […] o monte do profeta Elias, o profeta do fogo. E estou consagrando aqui […] o óleo de fogo, porque foi neste lugar que o profeta Elias orou, e Deus mandou fogo dos céus para destruir o mal”. Em seguida, ele discorre sobre a finalidade do aludido óleo: “Este óleo nós vamos distribuir na grande sexta-feira forte para você ungir a sua vassoura com o óleo de fogo, para Deus destruir o Inimigo de nossas almas, para destruir macumba, feitiçaria, bruxaria, magia negra, tudo que não presta e não provém de Deus”.

E, então começa a oração: “Grande Deus e poderoso Pai, aqui no Monte Carmelo, […] eu consagro este óleo de fogo, e nós vamos distribuí-lo […] na sexta-feira forte para milhares de pessoas ungirem as suas vassouras, e elas vão varrer a sua casa, a sua empresa […] com a vassoura ungida com o óleo de fogo”. Fiz uma rápida pesquisa sobre esse pastor (pastor?) e descobri que ele não ensina seus seguidores a estudar as Escrituras, as quais limpam perfeitamente “a nossa casa”, o nosso coração (Hebreus 3.6-15). Ele despede as pessoas vazias – mas com algum objeto místico à mão, como a tal “vassoura mágica” –, orientado-as a fazerem “atos proféticos” para obtenção da prosperidade financeira e destruição do mal. Haja bizarrice!

Segundo a Bíblia, o termo “óleo de fogo”, em si, é contraditório e só pode ter tido origem na mente de quem não tem a verdadeira unção do Espírito Santo (1 João 2.10) e quer enganar pessoas incautas. Azeite e fogo, nas páginas sagradas, aparecem juntos, mas não na unção. Nos tempos bíblicos, não havia lâmpadas elétricas, e a iluminação era feita mediante o fogo, presente nas fogueiras, nas tochas e também nas lâmpadas. E estas, em especial, usavam como combustível o azeite (Êxodo 27.20 e Mateus 25.4-8). Como no meio neopentecostal, em que práticas pseudopentecostais proliferam, o “fogo” está presente em tudo, então existem “canela de fogo”, “sapato de fogo”, “espada de fogo”, “bola de fogo” e – por que não? – “óleo de fogo”.

Nos tempos do Antigo Testamento, havia vários tipos de unção. Pessoas e objetos eram ungidos ao serem consagrados ao Senhor (1 Samuel 10.1 e 1 Reis 19.16). No caso da unção de pessoas, o derramamento de azeite representava, em alguns casos, àquela época, a unção divina propriamente dita sobre a vida de quem acenderia a posição de destaque (Números 3.3 e 1 Samuel 16.13). No Novo Testamento, não vemos mais a unção sendo aplicada como no período veterotestamentário (Lucas 4.18-21 e Atos 10.38). Não é mais necessário ungir pessoas com azeite para consagração ou confirmação de seu ministérios. Basta a unção do Espírito Santo, no plano espiritual (2 Coríntios 1.21 e 1 João 2.27). Também não é preciso ungir objetos, a fim de consagrá-los a Deus.

O uso de azeite, hoje, literalmente falando – à luz da Bíblia, é claro –, só deve ocorrer em caso de oração pelos enfermos (Marcos 6.13 e Tiago 5.14). O azeite, que é símbolo do Espírito Santo (Zacarias 4.3-6), é, nesse caso, apenas um ponto de contato para estimular a fé do doente. E a Palavra de Deus é clara quanto a isso: “a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará” (Tiago 5.15). Se é o Senhor que levanta o doente, por meio da oração da fé, atribuir qualquer “poder mágico” à unção com óleo é abraçar um tipo de misticismo.

Ao assistir o vídeo sobre o “ato profético” da vassoura ungida, observei que o tal “pastor” (numa filmagem que enquadra apenas ele) disse estar no Monte Carmelo. Ora, qualquer enganador pode dizer que está em quaisquer lugares com a intenção de impressionar os incautos. E essa conduta também fortalece a ideia mística, antibíblica, de que pessoas obtêm bênçãos maiores por estarem em um lugar sagrado, e não, prioritariamente, em razão de o Senhor estar perto delas (Salmo 34.18). Alias, falando em “ato profético”, um grupo de “evangélicos”, há alguns anos, escalou e ungiu o Dedo de Deus, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Como esse pico, segundo eles, é uma alusão à presença de Deus, declararam “profeticamente” que o estado fluminense pertence ao Senhor Jesus e que toda ação diabólica foi quebrada. Melhorou alguma coisa no Rio de Janeiro, especialmente na Região Serrana, depois desse “ato profético”? Pouco tempo depois, em 2011, infelizmente, houve uma grande tragédia natural ali, decorrente das fortes chuvas, e quase mil pessoas morreram…

Outro elemento negativo é a comercialização do Evangelho (2 Coríntios 2.17), haja vista o pseudopastor ter afirmado que o “óleo de fogo” seria “distribuído” na “grande sexta-feira forte”. Na pesquisa que fiz sobre ele, nota-se que todas as suas pregações giram em torno da falaciosa Teologia da Prosperidade. Numa de suas muitas mensagens heréticas, ele disse que o crente não deve se contentar com “presentinhos de Deus”, como trocar um carro 2000 por um 2001. O crente deve “fazer sacrifício” para obter o “tudo de Deus”. Quanto à “grande sexta-feira forte”, vemos aí mais um erro. Não é sexta-feira nem os sábados, os domingos, as datas comemorativas, as festas, os elementos da Ceia do Senhor, a oração e o jejum que são “fortes”. Em Atos 2, o que foi mais importante? O dia de Pentecostes ou a obra que o Deus Todo-Poderoso fez naquele dia, derramando o poder do Espírito Santo sobre quase 120 pessoas? Infelizmente, o movimento neopentecostal é místico, idolátrico e capaz de abraçar qualquer tipo de aberração pseudopentecostal por causa do seu objetivo maior: dinheiro.

Como é triste ver igrejas ditas evangélicas voltadas ao misticismo! E os “atos proféticos”, que começaram entre os adeptos do neopentecostalismo, especialmente os do movimento G12, já tem conquistado algumas poucas Assembleias de Deus (Hebreus 12.23 e Atos 20.28). O que se vê, na atualidade, em algumas igrejas “evangélicas”, especialmente nesse caso das vassouras ungidas, não é apenas o uso indiscriminado da unção com óleo, mas também a falsificação da própria unção espiritual. Que Deus nos ajude a não irmos “além do que está escrito” na Palavra de Deus (1 Coríntios 4.6).

Por, Ciro Sanches Zibordi.

One Response to O culto das vassouras ungidas

  1. charles disse:

    Vai tomar no cu né , enganar o povo vendendo vassouras a 1000 Reais , se fosse fuzis ate eu entenderia , mas vassouras ? Putz só trouxas compram

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