O andar do Senhor sobre as águas

O andar do Senhor sobre as águasO Senhor Jesus é a auto-manifestação da deidade em forma humana, por conseguinte, todos os seus modos de ser se constituem objeto de reflexão para o homem. Reflitamos, pois, no seu andar sobre as águas do bravo mar. Ei-las:

A primeira lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que uma das exigências nucleares impostas aos discípulos do Senhor é a obediência incondicional (Mateus 14.22). “Logo em seguida obrigou os seus discípulos” [IBB]. O discípulo tem como cabeça o Deus-Homem (1 Coríntios 11.3): “[…] Cristo é a cabeça de todo homem”. A cabeça é o centro de comando do homem espiritual. O homem que não se submete a Cristo não é cristão (Romanos 8.9). Só que esta submissão a Cristo não é uma submissão subjetiva, isto é, participar em oposição às normas da Igreja. Submeter a Cristo implica subscrever as doutrinas e as orientações da Igreja. “[…] e, se recusar também ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mateus 18.17). Dentro do contexto da paz celestial, o discípulo tem que ser obediente às orientações diretivas do Senhor através do Espírito Santo em seu viver privado.

A segunda lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite que quem está vinculado ao Senhor está inserido no movimento dialético do Espírito Santo (Mateus 14.22). “Logo a seguir, compeliu Jesus os discípulos a embarcar e passar adiante dele para o outro lado [ARA]”. O movimento dialético é constituído pela tese, antítese e síntese. O aquém do mar é tese, o mar é a antítese e o além do mar é a síntese. O discípulo do Senhor é ordenado a crescer. “[…] antes crescei na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo” (2 Pedro 3.18). A ataraxia [indiferença total ao que ocorre no mundo] é contra a Bíblia. O cristão cresce através das dificuldades. Os imperativos bíblicos é para nos gloriarmos nas tribulações que produz perseverança, a perseverança produz a experiência, e a experiência produz a esperança. A esperança por sua vez não confunde (Romanos 5.1-5). Na sua carreira o cristão tem que crescer.

A terceira lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que o objeto, isto é, a matéria prima do ministério, da igreja é o povo (Mateus 14.23), “enquanto despedia as multidões” (v. 23). Deus quer encontrar sua casa cheia (Lucas 14.23). Todos os que são comissionados por Deus devem possuir essa consciência que a matéria do trabalho da igreja é o povo. Por conseguinte, quem não gosta de trabalhar com o povo não deve exercer cargo de liderança na igreja.

A quarta lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que, demanda alguma foi obstáculo ao exercício da sua devoção privada a Deus (Marcos 6.46). “E tendo despedido a multidão, foi ao monte para orar” (v. 46). Orar depois de uma jornada pelo deserto não é fácil, mas mesmo assim o Senhor orava. No Getsêmani, temos o exemplo máximo, da vida de oração do Salvador. Era o momento mais crítico, era o momento que precedia a prisão do Senhor (Mateus 26.36-46). Os discípulos dormiram, menos o Salvador.

A quinta lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que o período da presença do Senhor em oração a Deus era longo (Mateus 14.23, 25). “Tendo-as despedido, subiu ao monte para orar à parte. Ao anoitecer, estava ali sozinho. […] À quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar”. Podemos verificar nas Escrituras pelo menos três vigílias praticadas pelo Senhor. A primeira em Lucas 6.12: “Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus”; a segunda em Lucas 9.28-37, no versículo 28 encontramos: “[…] tomando consigo a Pedro e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar”. No verso 37 é registrado: “No dia seguinte, ao descerem do monte, veio ao encontro de Jesus grande multidão”. A terceira está registrada em Mateus 14.23, 25. Jesus subiu ao monte a tarde, e só desceu na quarta vigília da noite, isto é, entre as três e as seis horas da manhã.

A sexta lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem se encontra no centro da vontade divina não está imune à contrariedades existenciais humanas (Mateus 14.24). “[…] açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário”. O mundo, ou melhor, a igreja no mundo é o campo de formação do homem para o céu. O homem ao nascer, não nasce perfeito, nasce como um ser aberto. Portanto, seu caráter, sua personalidade é formada aqui em seu habitat em meio aos conflitos existenciais. O barco neste contexto representa a igreja, à semelhança da arca de Noé. Os combates enfrentados pelos cristãos devem ser vistos mais na esfera coletiva do que simplesmente na esfera privada. Quem está no barco vencerá! Quem deixar o barco perecerá nas águas oceânicas do mundo, que tem Satanás como príncipe.

A sétima lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem mantém uma genuína comunhão com Deus tem um andar diferenciado (Mateus 14.25). “[…] foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar”. As três barreiras clássicas que os cristãos enfrentam são conhecidas de todos, a saber: a carne, o mundo e o diabo. O mar, em certos contextos bíblicos, pode ser interpretado como o mundo p. ex. Lucas 21.25; Apocalipse 13.1, i.e., as convulsões do mundo e o governo mundial do anticristo que surge no mundo. Viver vitoriosamente neste mundo só é possível na esfera do Espírito, o que implica um viver em contínua oração a Deus. Andar sobre as águas é andar vitoriosamente.

A oitava lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem mantém uma genuína comunhão com Deus está preparado a qualquer hora (Mateus 14.25). “À quarta vigília da noite, […]. Isso significa que o cristão deve estar sempre pronto. Nosso Senhor ordena ao Seu povo a vigilância: “Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã […]” (Marcos 13.35). Só anda na quarta vigília da noite quem está acordado. A quarta vigília da noite precede o amanhecer do dia, que profeticamente significa a consumação da vitória.

A nona lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem mantém um forte vínculo com Deus opera em qualquer lugar (Mateus 14.25). “[…], foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar”. O jovem José, filho de Jacó, foi vitorioso no Egito; Daniel e seus companheiros foram vitoriosos no cativeiro babilônico; a serva da esposa do general sírio Naamã, testemunhou de Deus na Síria. Andar sobre as águas significa não submergir nos sistemas socioculturais pagãos, negando a fé. Isso só é possível para quem vive em comunhão com Deus. Andar sobre as águas é manter a identidade cristã perante o mundo.

A décima lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem mantém um forte vínculo com Deus torna-se um dado observável (Mateus 14.26). “Os discípulos, porém, ao vê-lo andar sobre o mar, […]”. O Senhor encarnado é o objeto da fé da igreja, i.e., da nossa fé cultural, mas já que o Senhor viveu como verdadeiro homem, não é herético interpretar o andar do Senhor sobre as águas como homem, isto é, como homem da fé. Ademais a Escritura nos diz: “[…] e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 João 5.4). O andar do Senhor neste contesto comporta duas leituras, a saber: o Senhor como objeto da fé e o Senhor como tipo ideal da fé. Um andar diferenciado neste mundo só é possível na fé.

A décima primeira lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem têm consciência do chamado divino não se deixa afastar do seu objetivo (João 6.15). “Percebendo, pois, Jesus que estavam prestes a vir levá-lo à força para o fazerem rei, tornou a retirar-se para o monte sozinho”. Aqui comporta duas leituras, a primeira é destinada aos crentes em geral. Os cristãos têm seu perímetro de ação delimitado pelo Espírito Santo (Gálatas 5.16). Kenneth S. Wuest, especialista em grego, nos diz que o vocábulo Espírito [Santo] neste texto, está no locativo de esfera, e pode ser gramaticalmente por um ponto dentro de um círculo, e propõe a seguinte tradução: “Conduzi-vos constantemente na esfera do Espírito”. Equivale dizer que cristão tem limite nos seus atos, isto é, seus trajes, locais de lazer, leitura, visão etc. A outra leitura é para os ministros que são tentados abdicar a vocação por outras carreiras seculares: política, empreendimentos, etc.

A décima segunda lição que o andar do Senhor sobre as águas nos transmite é que quem segue o Senhor não pode perdê-lo de vista (Mateus 14.30). “Mas, sentindo o vento, teve medo; e começando a submergir […]”. Pedro mudou o foco de sua visão. Sem Cristo não há Evangelho a pregar, sem Cristo não há esperança de vitória, sem Cristo não há salvação. Temos também que nos acautelar com a Filosofia, pois ela pode bloquear o homem de sua devoção a Cristo.

Nada na Escritura é trivial, todo registro bíblico contém alimento para nossa alma. Portanto alimentemo-nos com os atos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Bibliografia

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Ed. ver. atual. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Ed. ver. revisada. De acordo com os melhores Textos em Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1986.
WUEST. S. Kenneth. Joias do Novo Testamento Grego. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1986.

Por, Francisco Gonçalves da Costa.

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