Nove critérios para uma reflexão teológica sadia

Nove critérios para uma reflexão teológica sadiaSe queremos preservar uma reflexão teológica sadia, urge atentarmos para, pelo menos, nove critérios basilares. São eles:

1) Nunca devemos tratar doutrinas bíblicas fundamentais da mesma forma que são tratadas as doutrinas secundárias ou periféricas.

Doutrinas como a divindade e a humanidade de Cristo, a doutrina da salvação, os atributos naturais e morais de Deus, a triunidade divina e a autoridade, inspiração e inerrância das Sagradas Escrituras nunca devem ser relativizadas, pois são doutrinas esposadas na Palavra de Deus e apresentadas como verdades absolutas.

2) Nunca caia na tentação de viver em busca de uma “revolução teológica”, do ineditismo teológico.

Não seja daqueles que, como os do Areópago, “não cuidavam de outra coisa senão falar e ouvir a últimas novidades” (Atos 17.21). Não se deixe hipnotizar pelos modismos que propõem “uma alternativa melhor” ou mesmo “a verdadeira resposta”, “a verdadeira saída” etc. Poços abertos fora do terreno bíblico, quando dão água (quando dão!), são águas turvas, águas que contaminam e matam. Para ser teólogo relevante não é preciso “inventar a roda”, não é preciso produzir uma nova teologia. É preciso, sim, voltar para as cisternas da Palavras, desentulhá-las, beber de suas águas cristalinas e dá-las ao povo.

É possível ser original sem ser heterodoxo. Ser original não significa necessariamente ser heterodoxo. Aliás, é extremamente fácil ser original “chutando” a ortodoxia para o alto. Não precisa ser criativo para ser heterodoxo. A verdadeira criatividade, a brilhante originalidade, se vê em pessoas que conseguem ser criativas, significativas e marcantes sem deixarem de ser ortodoxas.

3) Não ceda à tentação de, ao buscar podar as pontas de um galho, cortar todo o galho.

às vezes, o galho está precisando ser podado mesmo. Em alguns momentos, há pontos que necessitam realmente ser aparados doutrinariamente. Porém, muitos, no arroubo de fazerem isso, acabam radicalizando e cortando tudo fora. Vão além da conta, jogam fora o essencial junto com o pernicioso. Como se diz popularmente, jogam fora a água suja da bacia juntamente com o bebê.

1 Tessalonicenses 5.21 nos diz que devemos reter o que é bom. Ou seja: o que não é bom devemos rechaçar, cortar, lançar fora, mas o que é correto, devemos recepcionar e guardar em nosso coração.

4) Nunca coloque a filosofia acima da Palavra de Deus.

De maneira alguma devemos pensar que a fé é algo meramente místico, divorciado da razão. A Bíblia está repleta de lógica. O culto a Deus, por exemplo, diz Romanos 12, deve ser “racional”. E como bem definiu o pensador britânico C. S. Lewis, “a fé é a arte de admitir as coisas que a razão já aprovou, apesar da mudança de ânimo”.

Em Isaías 1.18 por exemplo, Deus assevera claramente que a razão é importante para Ele e para a fé, pois conclama Seu povo a “arrazoar” com Ele, isto é, pensar e argumentar com Ele. Isso significa que conversar com Deus exige o ato de pensar. A grande diferença entre o conceito de meditação das religiões orientais para o que a Bíblia chama de meditação bíblica é que enquanto a meditação oriental prega o esvaziamento da mente, a meditação bíblica, muito pelo contrário, consiste numa reflexão séria sobre o que o texto bíblico está falando conosco. Portanto, fé e razão não são opostas.

Agora, por outro lado, à luz da Bíblia, aprendemos também que a fé muitas vezes ultrapassa a razão. Ela não o deprime, mas ultrapassa-a. Como criaturas que somos, nunca podemos compreender perfeitamente as coisas espirituais, a não ser por fé. A razão só pode alcançar altos voos com segurança se atrelada à carruagem da fé.

A Bíblia alerta-nos em Colossenses 2.8 sobre o perigo de colocarmos a filosofia acima das Escrituras, isto é, de pensarmos que a razão por si mesma é suficiente para tudo, que a razão não precisa da fé. Paulo diz em Colossenses: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio de filosofias e vãs sutilezas”. Paulo, escrevendo em sua primeira epístola aos coríntios, no capítulo 3 e versículo 18, afirma: “Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio”. A expressão “louco” nessa passagem de Paulo significa não confiar totalmente e acima de tudo na filosofia, e não desprezar a verdadeira fé.

5) Não caia na tentação de querer ser um teólogo incomparável e não dance na beira do precipício.

Não procure testar até que ponto as fronteiras da ortodoxia bíblica podem ser esticadas para acomodar a última moda passageira dos intelectuais de hoje. Mantenha-se dentro dos limites bíblicos. Deixe-me contar uma história relembrada por Norman Geisler e que ilustra bem isso.

Certo rei morava perto de uma estrada montanhosa, estreita e cheia de curvas que beirava um imenso precipício. Esse rei queria contratar um chofer, mas, preocupado com o precipício, foi entrevistar os três candidatos que se apresentaram. Na entrevista, o rei tomava o cuidado de perguntar até que ponto podiam chegar perto da beirada sem despencarem para baixo. O primeiro motorista alegou que podia chegar a 30 centímetros da beirada sem cair. O segundo motorista se jactou da da sua capacidade de conduzir o veículo dentro de uns 10 centímetros da beirada sem a vida do rei correr perigo. O último candidato disse que dirigiria o veículo tão longe da beirada quanto fosse possível. Qual deles você acha que o rei contratou? O último, é lógico. “E a escolha real serve de bom conselho para aqueles exegetas bíblicos que, segundo parece, se deleitam em dançar na beirada da erudição evangélica”, arremata Geisler.

Não procure testar até que ponto você pode chegar perto do precipício sem cair. Não se gabe de dançar na beirada do precipício da erudição teológica liberal. Mantenha-se seguro dentro dos limites bíblicos.

6) Nunca caia na falácia de que o discurso piedoso pode justificar o erro.

É impressionante como tem gente que consegue achar normal justificar um erro doutrinário crasso usando o manto de uma falsa piedade e de um falso amor. Essas pessoas tentam desonestamente colocar o amor em oposição à doutrina bíblica, quando, na verdade, não existe verdadeiro e pleno amor onde há desprezo à Palavra de Deus.

Essa é uma estratégia antiga. Paulo já dizia que alguns em sua época ensinavam heresias, mas, mesmo assim, eram considerados corretos por alguns incautos, exatamente porque portavam uma aparência de piedade. Em Colossenses 2.18, Paulo diz: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade (…) estando debalde inchado na sua carnal compreensão”.

A Bíblia diz que o amor e a verdadeira espiritualidade andam de mãos dadas com a verdade. 1 Pedro 1.22 afirma que a obediência à verdade purifica a alma e leva ao amor não fingido.

Muitos defensores de heresias apelam para o discurso do amor porque sabem que esse tipo de discurso encontra eco no coração dos cristãos, mas a Bíblia diz que falar de amor não é garantia de espiritualidade e de verdade. O profeta Ezequiel, por exemplo, falou em sua época de pessoas que com a boca professavam muito amor, mas o coração delas ambicionava o erro (Ezequiel 33.31).

7) Lembre-se que a contextualização sadia da Bíblia não significa se adaptar a Bíblia ao povo ou à época.

Devemos sempre analisar uma passagem bíblica a partir de seu contexto histórico-social, de seu gênero literário e da doutrina bíblica. Também não podemos confundir decodificação da mensagem bíblica com adaptação. Contextualização da Palavra não significa adaptação, mas decodificação. Os princípios da Palavra de Deus não podem ser adaptados à nossa realidade, eles devem ser apenas decodificados. Quando procuramos adaptar o que a Bíblia diz aos nossos gostos, padrões pessoais e cultura, temos todas as possibilidades do mundo de corromper a doutrina bíblica. Essa atitude nos levará a torcer as Escrituras. Quando decodificamos a Bíblia à nossa realidade, é diferente. Decodificar o texto sagrado é traduzir termos e expressar significados de uma forma que a porção bíblica fique absolutamente inteligível para o povo. No processo de decodificação, não está em questão a possibilidade de o que está sendo passado ser ou não aceito pelo povo. O que se quer é passar o que a Palavra de Deus diz da forma mais compreensível, seja o conteúdo bem recebido ou não. Porque a Bíblia, diferentemente do ensina a teologia moderna, não é julgada, Ela julga.

8) Quando os ventos de doutrina soprarem, puxe o controle para a direita.

Dizem os peritos em aeronáutica que quando um avião com hélice levanta voo, ele tende naturalmente a dar uma guinada para a esquerda, a não ser que os controles do avião sejam direcionados para a direita. Pois bem, eu entendo que esse princípio deve ser sempre aplicado ao estudo teológico. A única maneira de nos mantermos na posição certa para alcançar voos seguros em nossa reflexão teológica é mantendo nosso avião com os controles apontados mais para a direita. Paulo diz em Efésios 4.14: “Não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente”.

9) Não caia na tentação de relativizar suas certezas para soar erudito.

Na pós-modernidade, a alta erudição é vista como sinônimo de incerteza. Hoje em dia, é chique ser cheio de incerteza. É charmoso ter incerteza. Quanto mais incertezas você tiver e quanto mais relativizações você fizer, mais charmosamente erudito você parecerá. Ao ponto de quem tem certezas ser taxado de desonesto. Para muitos, só é honesto quem não tem certezas, mesmo que essas sejam abalizadas claramente na Bíblia.

Diferentemente dessa onda, continuemos, como tantos outros servos de Deus, guardando o bom depósito, ficando firmes naquilo que as Sagradas Escrituras nos ensinam. Como o apóstolo Paulo, podemos dizer: “Eu sei em quem tenho crido”!”

Por, Silas Daniel.

One Response to Nove critérios para uma reflexão teológica sadia

  1. Elias Chollet disse:

    É um dos artigos mais completos que encontrei na internet. Parabéns pela publicação!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »