Mundo silencia sobre massacre na Nigéria

Mundo silencia sobre massacre na NigériaEnquanto o mundo se chocava com o massacre à redação do jornal Charlie Hebdo e a um mercado judaico em Paris, um massacre ainda mais devastador estava sendo perpetrado na Nigéria por outro grupo radical islâmico: o Boko Haram, cujo nome significa, em hausa, uma língua local, “A educação não-islâmica é pecaminosa”. Os ataques ocorreram de 3 a 7 de janeiro (2015), na aldeia de Baga, no estado de Borno, e levou à morte mais de 2 mil cristãos. Várias igrejas foram queimadas, algumas com crentes dentro.

“A Associação dos Cristãos da Nigéria afirma que o Boko Haram queimou várias igrejas e fez numerosas vítimas”, confirmou, ainda naquela semana, o líder religioso Patrick Tor Alumuku à Agência Fides. Alumuku é diretor de comunicação social da Arquidiocese de Abuja. Segundo ele, “quando militantes do Boko Haram chegam a uma cidade grande, eles não fazem distinção entre cristãos e muçulmanos, e a população precisa fugir para sobreviver, independente de sua religião. Porém, nas aldeias menores [como é o caso de Baga], o Boko Haram separa muçulmanos de cristãos”. O objetivo do grupo islâmico radical Boko Haram é estabelecer à força a “sharia” (lei islâmica) na Nigéria.

O massacre começou quando o Boko Haram tomou um quartel em Baga, dando início a uma série de ataques que atingiu também 16 outras localidades no estado de Borno. Os radicais islâmicos foram de casa em casa, arrancando de todas elas jovens em idade de combater para os executar na rua. Eles perseguiram até a morte, sobre motocicletas, todos os que fugiam, e queimaram vivos os que buscaram refúgio em prédios e templos.

Os primeiros relatos eram de que pelo menos 150 pessoas foram mortas, porém, à medida que se contavam os mortos e os testemunhos chegavam, descobriu- -se, segundo relato da Anistia Internacional, que o número de vítimas fatais era mais de 10 vezes o estimado: ao todo, foram mais de 2 mil mortos, o que torna esse massacre o maior na história da Nigéria e um dos maiores massacres perpetrados por grupos terroristas em todo o mundo.

Até o fechamento desta edição do jornal Mensageiro da Paz, o Boko Haram continuava dominando Baga e centenas de corpos permaneciam espalhados no meio do mato. O chefe do distrito de Baga, Baba Abba Hassan, afirma que a maioria das vítimas era de crianças, mulheres e idosos, e que as armas utilizadas pelos radicais para promover esse massacre foram fuzis, metralhadoras e granadas.

As eleições presidenciais na Nigéria estão marcadas para o dia 14 deste mês (fevereiro/2015), mas a maioria dos observadores ressalta a falta de credibilidade de uma consulta popular em que os cidadãos da região nordeste do país não poderão participar, porque estão sob o controle dos terroristas do Boko Haram. Os radicais controlam dezenas de aldeias nos estados de Borno e Adamawa.

Silêncio do mundo

Apesar da grandiosidade dessa tragédia, o mundo praticamente silenciou diante dos ataques em Baga. O silêncio vergonhoso foi denunciado pelo arcebispo de Jos, na Nigéria, Ignatious Kaugama, que afirmou, em entrevista à agência de notícias Ásia News: “Não se esqueçam que estamos aqui, que nós também estamos sofrendo, que centenas de pessoas estão mortas e há milhares de desabrigados que não têm mais um local para viver. Precisamos de ajuda e de um suporte concreto para colocar um fim a esses ataques”.

O próprio exército nigeriano já pediu uma intervenção da comunidade internacional contra o Boko Haram, que tem se fortalecido cada vez mais desde a sua fundação. O grupo radical foi fundado em 2002, tendo como principal foco a luta “contra a educação de matriz ocidental”. No início, apesar do radicalismo, seus membros não praticavam atentados. Entretanto, desde 2009, o Boko Haram mudou seu modo de atuação, passando a matar todos os cidadãos não- -muçulmanos. Seu objetivo é eliminar do país todos os não-muçulmanos. Ocorre que 40% dos nigerianos são cristãos, contra cerca de 45% de muçulmanos. Logo, mais de 90% das vítimas do Boko Haram são cristãos.

Os ataques do Boko Haram ocorrem há seis anos, mas se intensificaram enormemente nos últimos dois anos, ceifando, só nesse período curto, dezenas de milhares de vidas na Nigéria.

O jornalista Will Ross, correspondente da BBC News em Lagos, a principal cidade da Nigéria, é outro que denuncia o silêncio do Ocidente diante do massacre a cristãos naquele país. Afirmou ele à BBC em 13 de janeiro que “o mundo está lentamente começando a manifestar indignação com a recente violência, mas, além disso, e de uma ajuda limitada, não parece haver vontade de se envolver mais profundamente no conflito”.

Segundo Ross, o cenário atual na Nigéria é devastador. “A violência no país não tem fim, e é cada vez mais chocante, como no caso do uso de uma criança em um dos ataques com bomba do último fim de semana. As Forças Armadas nigerianas tiveram algumas vitórias, mas têm uma tarefa muito difícil, de proteger civis de homens-bomba e atiradores que estão espalhados por uma grande área no nordeste do país. Por isso, com frequência, são dominadas pelos militantes e falham em sua missão. As autoridades do país não gostam de ouvir isso, mas é verdade”, afirma Ross.

Razões do silêncio

Por que o silêncio do mundo diante do massacre a cristãos na Nigéria? Há pelo menos três razões para isso.

Em primeiro lugar, em uma sociedade cada vez mais movida a imagens, o fato de o massacre na Nigéria ter ocorrido em uma região de difícil acesso e sem internet fez com que não se tivesse imagens imediatas do massacre. Se elas surgissem logo, com certeza o massacre teria um apelo muito maior no Ocidente. Porém, infelizmente, volto a frisar, em uma sociedade movida a imagens como a de hoje, só o relato oral ou textual muitas vezes não é suficiente.

Em segundo lugar, infelizmente, os órgãos da imprensa internacional geralmente dão pouco destaque para a África.

Em terceiro lugar, os atentados ao Charlie Hebdo ocorreram em Paris, uma das mais importantes cidades do Ocidente; e, além do mais, pela peculiaridade de terem sido perpetrados em uma redação de jornal e em resposta a uma charge, envolviam ainda o respeito às liberdades de imprensa e de expressão, valores muito caros ao Ocidente.

Em quarto lugar, nos noticiários, cronologicamente, a notícia do massacre a Baga começou a ser dada depois da massificação da notícia dos atentados em Paris, o que fez com que o massacre em Baga entrasse, lamentavelmente, como uma espécie de nota de rodapé na narrativa sobre a onda de atentados de radicais islâmicos ao mundo no início do ano.

Seja como for, ainda que o mundo não tenha olhado para o massacre em Baga com o olhar que deveria dar, nós, cristãos, devemos olhar com carinho para o sofrimento de nossos irmãos cristãos ali, e de toda a população da Nigéria. Oremos pelos irmãos nigerianos e por uma intervenção nessa situação.

Por, Silas Daniel.

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