Missionária do Iraque

“O Estado Islâmico veio para exterminar com tudo. Eles não têm amor a nada”

Missionária do IraqueA brasileira Agim (nome fictício, por questões de segurança) atua no norte do Iraque como missionária e tem acompanhado de perto os conflitos vividos pelos moradores da região, sobretudo dos refugiados cristãos e dos povos minoritários, que sofrem pela perseguição perpetrada pelo grupo Estado Islâmico. Nesta entrevista, concedida com exclusividade ao jornal Mensageiro da Paz, ela fala sobre o contexto político da região do Oriente Médio, das pressões sofridas pelos cristãos, do risco de morte que estes sofrem, das frentes de trabalho em que ela atua, dentre outros assuntos.

Qual o cenário político atual da região onde a senhora atua como missionária?

É um cenário de guerra e terrorismo. O grupo Estado Islâmico foi criado no Iraque passando para a Síria a três anos, quando iniciou a guerra no país. Ele retornou muito mais forte para o Iraque, vitimando muitas vidas. É verdade o que vêm sendo veiculado na mídia. Atualmente, eles estão lutando contra o exército curdo, o Peshmerga. Alguns meses atrás, quando eles começaram a invasão de Mossul, o exército iraquiano se rendeu, mais de 300 homens. O que aconteceu foi que todas as armas que os Estados Unidos deixaram para o exercito iraquiano e que estavam de posse desse exército rendido hoje pertencem aos terroristas. Eles se renderam sem lutar para sobreviver. Os terroristas estão muito mais fortes depois que tiveram acesso a esse armamento que tomaram do exército iraquiano. A cidade de Mossul tem esse nome hoje, mas era chamada de Ninive, cidade registrada nas páginas da Bíblia, para onde Deus enviou o profeta Jonas. Os terroristas destruíram qualquer qualquer coisa que tivesse relação com fé do judaísmo e do cristianismo. Eles destruíram o túmulo de Jonas e muitas igrejas cristãs. Esse grupo veio para exterminar tudo. Ele não têm amor a nada.

Sobre sua estada no campo missionário, que experiências vividas a irmã gostaria de compartilhar com os leitores do MP?

Na minha estada lá, uma coisa que me sustenta é a convicção do chamado (choro). Eu tive que voltar de lá em obediência ao meu pastor, pois ele está muito preocupado com a minha segurança. Gostaria muito de estar lá nesse momento, pois é o momento de maior necessidade. Uma pessoa bem próxima a mim confirmou que um rapaz se converteu ao cristianismo e, descoberto, foi abordado pelos terroristas com a proposta de negar a fé em Jesus e voltar ao islamismo. O rapaz, para poupar a sua vida, aceitou a proposta. Mas eles disseram que a decisão dele não era de coração e por isso iriam matá-lo; e fizeram isso covardemente. Esse rapaz morreu, mas Deus tem livrado muita gente da morte. É o caso de um grupo de soldados que foi alvo de uma bomba e o artefato não explodiu. Por que Deus deu livramento a eles? No meio do grupo, havia um cristão que orava, essa é a resposta. É tanto que todos os colegas que sabiam da fé do soldado foram falar-lhe e disseram: “De fato, você é um homem sincero e o teu Deus nos livrou”.

A respeito dos refugiados, quem são eles, como estão e quem tem garantido a segurança do grupo?

Quando nós ouvimos falar de refugiados, a primeira ideia que vem a nossa cabeça é a de pessoas muito pobres. Isso não é uma realidade, pois entre eles há médicos, engenheiros, pessoas que tinham a sua vida bem estabelecida em Mossul ou em qualquer outra cidade que foi invadida pelos terroristas. Essas pessoas abriram mão de todo o conforto que tinham para abraçar Jesus e tê-lO como o bem mais preciosos das suas vidas. O que e quem garante a segurança deles? Nada e ninguém! Quem garante a minha própria segurança? A gente sabe que o grupo terrorista ainda não entrou em algumas regiões, mas eles estão avançando, tanto que nem sequer sabemos se no meio de um determinado grupo há um deles. A qualquer momento em qualquer lugar podemos ser vítimas de atentados. Não há como prever que área está segura. Em qualquer lugar, pode ser que aconteçam explosões. Não se tem garantia de segurança no Oriente Médio. Quer dizer, nem sei se tem segurança no mundo. “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas”.

Em que frentes de trabalho a irmã atua?

Estudei três anos em um seminário que me ensinou as questões de aculturação. Mas, quando você começa a viver a realidade, é necessário pedir muito a direção a Deus para saber se segue a linha reta do que foi aprendido nos livros ou se abre outros horizontes para ver onde o Senhor vai te encaixar com tua personalidade. Tenho me dedicado à área de assistência às pessoas, como o social e à área da saúde. É interessante como Deus trabalha! Veja isso: eu sou solteira e o Senhor tem me dado a missão de aconselhar pessoas não-cristãs sobre conflitos matrimoniais. Eu não trabalho diretamente com a igreja local. O Senhor me chamou para trabalhar com os líderes. Orando com eles, meditando na Palavra, encorajando-os. Mas isso também acontece da parte deles para comigo, pois eu também sou animada e encorajada por eles. Eu acompanho a luta de cada um deles e de suas famílias.

Qual a importância do suporte dado pela família e a igreja ao missionário no campo?

Quando as coisas começaram a ficar complicadas na região, meu pastor entrou em contato comigo pedindo para eu antecipar a minha vinda, que estava prevista para uma data posterior. Aí eu perguntei à liderança se eles estavam sendo pressionados por minha família. Eles disseram que não. Na verdade, não estavam mesmo. Foi o cuidado com a minha segurança que os fez tomar a decisão de eu vir logo. No caso da minha família, eu sei que meu pai não gostaria que eu voltasse mais para o Iraque, mas ele entende o meu chamado; a minha mãe foi recolhida à glória faz poucos anos e ela também entendia. Meus irmãos também são bem tranquilos quanto a isso. Todos tem me apoiado muito. Se o Senhor quiser que eu volte ao Iraque, que é o que eu quero, Ele fará. Se Ele quiser que eu morra lá… Temos que confiar na soberania de Deus. Eu não tenho nenhuma “vocação para ser mártir”, mas sei que onde estou trabalhando é perigoso. Quem está no campo missionário, em zona de conflito, como é o meu caso, não está enganado dos riscos que corre. Não podemos ter garantia de que nada de mal vai acontecer. Não podemos ser negativistas, mas a região é de conflito mesmo. Tem grupo terrorista para tudo que é lado por lá. Você vai para a Palestina, lá tem o Hamas; no Líbano, tem Hezbollar; na Síria, no Iraque, tem o Estado Islâmico, além de outros em diversas partes.

Que palavra você deixa aos irmãos que têm chamada, aos pastores que têm missionários no campo e às igrejas mantenedoras.

É duro o que eu vou dizer aqui, mas é uma realidade. Muitos pastores têm abandonado seus missionários no campo, têm cortado a manutenção deles, pois infelizmente estão focados em outras coisas. A grande verdade é que missões não é um investimento que muitos priorizam fazer, pois não tem retorno do ponto de vista institucional. É um investimento em vidas, em almas. É um investimento que só veremos na glória. Se quiser retorno do ponto de vista institucional, é só enviar missionários apenas para a América do Sul. Precisamos refletir a este respeito: o que queremos mesmo? A oração que faço é para que o Senhor abra os olhos de muitos líderes. Para os irmãos que sentem ter chamada para o campo missionário, a palavra que deixo é: seja obediente à voz de Deus e também à sua liderança. Quando Deus chama Ele faz. Não tente fazer nada pela sua própria força. Não force a barra. Isso pode trazer grande consequências. O fator tempo é importante de ser observado, pois o que eu penso ser para agora ainda pode demorar alguns anos. Por fim, aquieta o seu coração, faça a sua parte, estude. Busque fazer um curso profissionalizante. Esse tipo de curso facilita bastante a entrada e permanência em determinados países. Uma das primeiras coisas que facilitará é a emissão do passaporte.

Por, Mensageiro da Paz.

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