Manipulados e oprimidos em nome da fé

biblia-resDesde a antiguidade sabe-se e é notório que o sobrenatural exerce fascínio sobre a mente e coração do homem. Nos primórdios, as civilizações antigas aspiravam com fervor às orientações divinas. Isto é inerente aos seres humanos e foi colocado no homem pelo criador. Como disse o romancista russo Fiódor Dostoievski (1821-18881) “existe no homem um vazio do tamanho de Deus”.

Quando verdadeiramente esse vazio é preenchido pelo próprio Deus, então a paz passa a reinar em nossos corações. A comunhão com Deus e a Palavra de Deus são lâmpada e luz para o nosso caminho (Salmo 119.105). Suas orientações divinas nos fazem andar em segurança. Mas, quando nos afastamos da lâmpada, somos atraídos pelo fascínio provocado por qualquer manifestação sobrenatural e, por vezes, nos deixamos manipular e oprimir em nossa fé e passamos a trilhar o caminho que consequentemente nos levará ao abismo.

Ao longo da caminhada cristã e nos laboriosos anos pastorais, tenho convivido com muitos crentes sinceros e fiéis. No entanto, há alguns deles com as mentes perturbadas por falsas manifestações sobrenaturais. As falsas profecias, as supostas revelações e enigmáticos sonhos e visões causaram estrago em suas vidas, os tornando incapazes de discernir. Tornaram-se reféns dos “mistérios” que passaram a ter autoridade superior ao da Bíblia Sagrada. Por falta de discernimento, por desconhecerem as Escrituras, por temerem desagradar a Deus, por medo de serem amaldiçoados, pela preocupação de não serem considerados “rebeldes”, esses crentes fiéis e sinceros foram manipulados e oprimidos em nome da fé. A manipulação é exercida pelos seus líderes, grupos, laços familiares e até por círculos de amizade.

O objetivo dos manipuladores é exercer domínio sobre a fé e a vida das pessoas. Conheço um casal que nada faz sem consultar uma suposta profetisa. A tal profetisa é sustentada financeiramente por esse casal. Eles pagam o aluguel, o condomínio, a feira e os remédios. Em troca, ela os enche de profecias e revelações. Manipulados e oprimidos, eles temem abandonar tal conduta e serem amaldiçoados.

O caso acima não é isolado. Existem situações similares em todo o país e também pelo mundo. Igrejas em que o líder é o manipulador. Falsas profecias e revelações são frequentemente usadas para manter os crentes congregando e dar o ar de “espiritualidade” nos cultos. Quando alguém discerne que tem algo errado na igreja, surgem profecias para convencê-lo ao contrário. Acuado, cheio de dúvidas e temeroso  de ser considerado rebelde, ele permanece submisso aos sistema. O círculo vicioso perdura até que as amarras sejam soltas, até que a Palavra de Deus volte a ser a única lâmpada para o caminho que conduz a vida.

Para elucidar essa situação e auxiliar os que estão atemorizados e amedrontados em suas dúvidas, passaremos à análise de alguns dos tantos textos bíblicos pertinentes ao assunto:

a) O Espírito Santo não pode ser restringido, mas tudo deve ser examinado. “Não extinguirás o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5.19-21).

b) Não se pode crer em todo o espírito, mas tudo deve ser provado. “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 João 4.1).

c) As profecias e seu conteúdo devem ser julgadas pela igreja. “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” (1 Coríntios 14.29-32, 33).

d) É preciso discernir se a profecia não é resultado de suborno. “E percebo que não era Deus quem o enviara; mas esta profecia falou contra mim, porquanto Tobias e Sambalate o subornaram” (Neemias 6.12).

e) É preciso discernir se o objetivo da profecia não é o de servir de cobertura a suposta autoridade espiritual de um líder. Muitos procedimentos contrários a Palavra de Deus são autenticados por falsas profecias. “Os seus sacerdotes violentam a minha lei, e profanam as minhas coisas santas; não fazem diferença entre o santo e o profano, nem discernem o impuro do puro… E os seus profetas têm feito para eles cobertura com argamassa não temperada, profetizando vaidade, adivinhando-lhes mentira, dizendo: Assim diz o Senhor Deus; sem que o Senhor tivesse falado” (Ezequiel 22.26, 28).

f) É preciso discernir se a igreja é guiada pela Palavra de Deus ou por revelações e profecias. Quando se ensina errado, é possível contestar com a Palavra. E quando se diz que é profecia? Como contestar? Por isso, muitos líderes mal intencionados preferem não ensinar a Palavra e dominam o povo com supostas revelações. “Os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam pelas mãos deles, e o meu povo assim o deseja; mas que fareis ao fim disto” (Jeremias 5.31); “Porquanto fizeram loucura… e anunciaram falsamente, em meu nome uma palavra, que não lhes mandei, e eu o sei e sou testemunha disso, diz o SENHOR” (Jeremias 29.23).

g) É preciso perceber se a igreja ou o líder faz uso disso como meio para angariar ofertas. Normalmente, uma suposta revelação ou profecia confirma a ação. Quando a fé é usada como fonte de lucro, somos orientados a nos apartar dos tais. “Contendas de homens corruptos  de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais. Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele” (1 Timóteo 6.5-7).

h) É preciso discernir se o líder quer controlar a vida e as ações das pessoas para manter os fiéis sob cabestro de falsas revelações. “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sob a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.2-4).

Amados leitores, diante do exposto, fica evidenciado que quando uma pessoa profetiza não quer dizer necessariamente que suas palavras estão aprovadas por Deus. Os dons espirituais são concedidos pelo Espírito e não são obtidos por mérito. Portanto, não se impressione com os que levantam a voz falando “mistérios” e entregando “revelações” em nome de causas escusas. Peça a Deus discernimento e não se deixe manipular ou oprimir com falsas manifestações sobrenaturais.

Hoje, faça esta oração a Deus: “Querido Deus, reconheço e admito que muitas vezes tenho permitido ser influenciado por profecias duvidosas. Confesso que a incerteza tem assaltado minha mente e meu coração. Reconheço que por vezes não tenho observado a Tua Palavra e por isso fico sem saber qual caminho seguir. Mas sou Teu filho(a) e suplico discernimento e sabedoria para não ser enganado. Creio em Ti, na Tua Palavra e no Teu Espírito Santo. Fala comigo e ajuda-me a reconhecer a Tua voz. Em nome do Senhor Jesus”. Amém!

Por, Douglas Baptista.

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