Males do preconceito e da discriminação

Males do preconceito e da discriminaçãoApesar dos efeitos deletérios do pecado (Gênesis 3.14-24), das suas consequências danosas no mundo antediluviano (Gênesis 6.1-12) e da hecatombe resultante da ira e do juízo divino (Gênesis 7.10-24), o texto bíblico mostra claramente que o Criador não desistiu da humanidade (Gênesis 8.21, 22 cf. 3.15; João 3.16). Paradoxalmente, Deus “procurou” alguém através do qual daria sequência a raça humana  (Gênesis 6.13 – 7.9; 9.1-17) e, posteriormente, retirou um dos frequentadores de panteão caldeu para, a partir deste, abençoar o mundo inteiro (Gênesis 12.1-3). Nisso fica explicitamente claro que o Criador não compactua e muito menos condescende com a objeta prática de se fazer acepção de pessoas, discriminação.

Apesar de a chamada “teologia da retribuição” defender uma espécie de “etnia religiosa” a partir de Israel, o propósito divino é  diametralmente oposto, pois, desde o início da formação dos descendentes de Abraão, Deus planejou que este povo fosse sacerdotal, isto é, mediador e canal através de quem o Criador estenderia sua bênção a todas as nações (Êxodo 19.6). Assim, a despeito das acusações de que a Lei era inumana, ao observá-la melhor, é possível verificar que ela é infinitamente superior aos demais códigos legislativos do mundo antigo (Levítico 19.9-18); Deuteronômio 23.7, 8). E era esse justamente o propósito da Lei, formar um povo cujo exemplo inspiraria os demais a quererem ser como Israel (Deuteronômio 4.5-8).

A Bíblia condena, por exemplo, todas e quaisquer práticas que atentem contra a dignidade intrínseca da pessoa (Isaías 47.3; Malaquias 2.9; Colossenses 3.25; 1 Pedro 1.17). Em outras palavras, a pessoa não vale pelo que tem ou possui, e sim pelo simples fato de existir (Deuteronômio 10.17; 16.19; 2 Crônicas 19.7; Jó 34.19; Lucas 12.15; Atos 10.34; Romanos 2.11; Efésios 6.9)! Veja, por exemplo, Tiago 2.1, 9 que condena explicitamente o fazer acepção de pessoas. O Dicionário Vine esclarece, acerca do primeiro versículo, que o substantivo grego “prosõpolempsia […] denota ‘respeito ou acepção de pessoas, parcialidade’, ou seja, favorecimento no tratamento dispensado a pessoas influentes, poderosas, ricas, etc., a falha de alguém que, quando responsável em dar julgamento, tem respeito à posição, classe, popularidade ou circunstâncias dos homens, em vez das suas condições intrínsecas, preferindo os ricos e poderosos aos que não o são”. No caso do versículo nove de Tiago dois, a mesma obra afirma que o verbo grego prosõpolempteõ refere-se a “’ter respeito de pessoas, fazer acepção de pessoas’, ou seja, tratar as pessoas com desigualdade, favorecendo os ricos, os poderosos, etc.” (p. 368).

Desnecessário seria dizer que ambos os textos condenam tanto o preconceito quanto a discriminação, pois tais práticas aviltam a dignidade humana denotada na antropologia bíblica que diz que a humanidade foi feita “à semelhança de Deus” (Tiago 3.9 cf. Gênesis 1.26). Independentemente das exegeses e das intermináveis discussões em torno do que seja essa “imagem e semelhança de Deus” na humanidade, é preciso entender que o fato da encarnação de Cristo é suficiente para dignificar a raça humana (Mateus 1.23; João 1.1-14). Na pequena e singela carta de Paulo aos Filipenses, especificamente no hino cristológico (2.6-11), encontra-se um grande leitmotiv da Bíblia que é a reflexão antropológica. Talvez pela formação extremamente natural e despretensiosa em que é colocada, passa despercebido à maioria dos leitores que nessa porção escriturística situa-se uma das melhores definições da antropologia bíblica: o homem é servo. Ao descobrir-se servo o homem deveria fazer o que lhe é próprio, pois Deus tornou-se servo e, achado nessa forma, “humilhou-se”! A humilhação não foi o ter se tornado servo, ou seja, humano, mas a morte ignominiosa de cruz. O pensamento de que a encarnação ou que o ter se tornado humano seja algo humilhante, é proveniente de resíduos filosóficos do neoplatonismo, gnosticismo e maniqueísmo que ainda são muito fortes e condicionantes na teologia cristã.

Dessa forma, se por um lado, tal “alteridade” pode ser considerada um “rebaixamento” do divino, por outro, da ótica e perspectiva humanas, ela elevou e dignificou a humanidade, pois Deus escolheu viver entre nós exatamente como nos criou. Esse decisivo e mais importante acontecimento da história humana deveria ser a única resposta ao preconceito e à discriminação. Se o próprio Deus sujeitou-a à forma humana dignificando-a, será que há desculpa para alguém estabelecer uma distinção negativa entre seus semelhantes por questões relacionadas à etnia, língua, cor, sexo, religião, ideologia ou quaisquer outros fatores? Penso que não. Todavia, por mais absurdo que pareça, vez por outra se ouve alguma coisa desagradável relacionada a tais práticas.

Nos últimos dias a mídia tem ventilado exaustivamente notícias acerca de preconceito e  discriminação envolvendo pessoas ligadas ao esporte. Independentemente de quem seja alvo desse tipo de atitude, o fato é que preconceito e discriminação são práticas nocivas  e reprováveis que revelam o quanto ainda estamos longe de sermos civilizados e/ou humanizados. Mesmo que não houvesse uma única objeção legislativa condenando a prática e tornando-a crime, ainda assim, espera-se das pessoas que sejam solidárias e não discriminadoras e preconceituosas. Triste, porém, é saber que infelizmente as coisas não são assim. Daí o porquê de a necessidade da criação de determinadas leis com vistas a coibir esses abusos.

Um dos casos mais emblemáticos envolve uma torcedora de um determinado time do Rio Grande do Sul que vem sendo hostilizada e perseguida. Tal se deu após ela ter sua imagem divulgada na televisão no momento em que, juntamente com milhares de outros torcedores, insultava um goleiro. Através da própria mídia ela já pediu perdão diversas vezes, mas tudo indica que sua trajetória não será nada fácil e demorará muito para que seu ato seja esquecido. Se há alguns anos dirigir-se a  pessoas negras com adjetivos nada elegantes, seja em programas humorísticos ou informalmente, nada rendia, hoje isso não se tolera. Acredito que neste aspecto avançamos, pois ninguém deve suportar provocações por conta de sua cor de pele ou mesmo por qualquer outra característica.

Aqui, porém, cabe uma reflexão, e também uma advertência, acerca dos cuidados que se deve ter com o estranho comportamento humano em meio à multidão. Em sua obra Psicologia das Multidões, o médico e sociólogo francês Gustav Le Bon afirma que na “multidão”, o exagero de um sentimento é fortalecido pelo fato de que, propagando-se muito rapidamente mediante sugestão e contágio, a aprovação de que se torna objeto aumenta sua força consideravelmente” (p. 51). Segue-se ou some-se a isso o fato de que, em meio à multidão, a “certeza de impunidade, tanto mais forte quanto mais numerosa for a multidão, e a noção de um poder momentâneo considerável devido ao número tornam possíveis para a coletividade sentimentos e atos impossíveis para o indivíduo isolado” (p. 52).

Assim, lembrando de muitas injustiças cometidas por indivíduos que, em meio a uma coletividade sem cérebro e insuflada por manipuladores (até mesmo religiosos, vide Lucas 22.66 – 23.25) fazem coisas inimagináveis, penso que esse é um bom momento para se refletir acerca dos cuidados que precisamos tomar quando estamos em grupo. Por outro lado, é preciso advertir igualmente os formadores de opinião, pois estes também devem ser responsabilizados pelos atos que incentivam as pessoas a fazer. Isso porque, como diz Le Bon, os “crimes das multidões geralmente decorrem de uma poderosa sugestão, e os indivíduos que deles tomam parte convencem-se em seguida de ter cumprido um dever” (p. 151). Algo muito parecido disse Jesus Cristo em relação aos que passariam a perseguir os seus seguidores (João 16.2). Que tenhamos cuidado com nossa influência.

Por, César Moisés Carvalho.

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