“Lo Al-Há-Lechem Levadô Yichyeh Ha-Adam”

“Lo Al-Há-Lechem Levadô Yichyeh Ha-Adam”“Não só de pão viverá o homem” é o significado da frase que intitula esta meditação. Comemos pão, no sentido explícito de pão e no sentido alargado de alimentos variados, para o sustento de nossa vida física. Igualmente, a vida espiritual requer, para sua manutenção, do recebimento da Palavra de Deus. O Mesmo que providencia aos homens as fontes dos nutrientes para a vida física, amorosamente concede o pão espiritual. Afinal, com que alimentaríamos a nossa alma senão do “lechemha-chayim” (lemos “lérremharráim” – “pão da vida”)? Dele vem, para o homem, a restauração interior, a força, a vontade e os objetivos para viver. Comer é absorver, através de mecanismos mecânicos e químicos, os nutrientes dos quais necessitamos. Ao nos alimentarmos da Palavra, recebemos Jesus. Ao recebermos Jesus, absorvemos a Palavra, da qual o Senhor é a fiel expressão e personificação.

“Lechem” é pão e “Beit-Lechem” é casa de pão; curiosamente, contudo, as mesmas letras da raiz de nosso alimento também constituem a palavra “milchamah” (lemos “milrramá”), ou seja, guerra. Outras estruturas de vocábulos vinculam os dois sentidos, como o termo comida, “teref ” (Provérbios 31.15) e o termo “toref ”, fera, no sentido d’aquele que devora’. Se “matzah” é o pão ázimo, “nitzah” é disputa. Na língua árabe, “Beit-Lacham” é casa da carne.

Quando a alma não cuida em manter uma dieta rica do pão da vida, pode facilmente ceder às ofertas de manjares filosóficos e ideológicos tão fartamente oferecidos. Quem come o pão da violência discursiva logo sujará os dentes com o sangue de seus semelhantes.

A Bíblia apresenta-nos variadas sementes e diversos pães. Há o pão dos anjos (Salmos 78.25) ou pão do céu (Salmos 105.40), pão da presença (Êxodo 25.30), pão ázimo ou pão da aflição (Êxodo 29.2; Deuteronômio 16.3), pão de lágrimas (Salmos 80.5) e o pão dos enlutados (Oséias 9.4). Também há o pão da maldade (Provérbios 4.17), o pão da falsidade, repleto de cascalhos (Provérbios 20.17), o pão da ociosidade (Provérbios 31.27) e o pão imundo (Ezequiel 4.13). Jesus referiu-se a si mesmo como sendo o pão vivo, descido dos céus, expressões que nos remetem ao maná e ao pão dos essênios. Esse último era o pão para fortalecimento do corpo, de uso comum entre os moradores do deserto, devido à riqueza de sua constituição. Os grãos eram lavados e deixados de molho por algumas horas (possivelmente uma noite). Eram coados e mantidos numa peneira fina. A partir daí, por dois ou três dias, eram lavados algumas vezes apenas para manter a umidade. Após esse tempo já se poderia ver as pequenas raízes e caules em brotação. Os grãos eram então moídos (com um pouco de água ou azeite) e secos (nunca assados) ao sol. Conservavam, assim, sua riqueza e dulçor. Se o grão é rico em nutrientes, muito mais rica é aquela pequenina planta em formação. Ao comer o pão vivo, o essênio ingeria uma pequena ‘plantação’ e não um punhado de grãos. Biologicamente falando, travou-se ali uma batalha: cada semente precisou renunciar à sua permanência como grão (num processo enzimático complexo), para brotar como um novo organismo. Assim, se o grão de trigo não morrer, fica ele só; se morrer, dá muito fruto. O pão vivo traz o potencial alimentar de um trigal – é fonte de vida e de saúde. Jesus declara-se pão vivo e acrescenta – descido do céu – ou seja, um composto alimentar formado por grãos que não são dessa terra, são sementes celestiais, força de vida eterna. Se as sementes naturais nutrem de força o morador do deserto, quanto mais a semente espiritual, uma vez brotada, frutificará.

Nossa fé na brotação da Semente no coração dos homens não pode fraquejar. Escrevo (perdoem-me o uso da primeira pessoa) nos dias em que estou preparando uma apresentação sobre pães na Bíblia, para professores da Escola Bíblica Dominical em minha querida igreja. A mesa está repleta de grãos. Ali estão a cevada, as favas, as lentilhas (vermelhas como as do guisado preparado por Jacó), o painço e a espelta para preparar o pão de Ezequiel. Ao lado, pães ázimos preparados pela comunidade judaica e o material para preparar os ázimos de azeite. Perto, ingredientes para o pão de centeio, numa referência a Gideão, enquanto em peneiras, sobre a bancada, germinam os grãos para o preparo dos pães vivos. Também há vasilhas com fermento natural maturando para preparar o saboroso pão de Faraó e a chalah (rralá), o pão trançado do Shabat. Há grãos de bico para serem torrados, mel, figos e passas para os acompanhamentos. A ideia é apresentar aspectos curiosos e elucidativos do texto bíblico como, por exemplo, o painço, grão do qual eram formadas aquelas espigas colhidas pelos discípulos de Jesus e alvo de tanta contestação pelos inimigos das Escrituras. No Antigo Oriente Médio não havia milho. O trigo, por outro lado, não forma espigas, mas pendões. Por esse detalhe, alguns contestam a narrativa, desconhecendo que as pequenas espigas da região são do saboroso painço.

Assim, cercada de grãos e promessas de pães, leio o jornal Haaretz e fico informada sobre as duas mais recentes descobertas arqueológicas da Autoridade de Antiguidades de Israel: foi encontrada a antiga fortaleza construída pelo rei grego Antíoco Epifânio, de mais de dois mil anos, um “verdadeiro sonho tornado realidade” segundo os pesquisadores, pois a inexistência de provas sobre a localização do forte de Acra colocava em dúvida muitos relatos fundamentais para a história e constituía “uma questão em aberto na arqueologia de Jerusalém”, segundo o Dr. Doron Ben-Ami, diretor da escavação; também foram descobertos mais vestígios, agora em grande quantidade e importância, sobre a rotina de vida dos natufianos (conforme são chamados os povos primitivos da região), comprovando suas técnicas de panificação, com o uso de moinhos profundos e estreitos, moedores de boca larga, além de vasilhas de pedra para o preparo do pão de cevada e de uma espécie de mingau, também de cevada, descoberta que faz retroceder em séculos o uso dos grãos e as técnicas de manufatura do pão em Israel.

Do lançamento do grão ao solo pelo semeador até sua recepção e desenvolvimento muita guerra ainda há de se travar. Cada semente guerreia para brotar, para lançar raízes, para estabelecer-se firmemente e frutificar. Sementes boas ou ruins, todas buscarão um lugar nos solos dos corações humanos. A palavra de esperança aos incansáveis semeadores, aos dedicados panificadores, aos profetas chamados a ingerirem pães complexos, todavia fortes, aos enlutados, aos recém libertos ou aos que caminham no deserto vem da mais autorizada das fontes – a própria Semente, a Palavra viva, do Deus Vivo, diz: “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Salmos 126.6). Desse pão vivemos.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »