Lentes que não enxergaram a Deus

Lentes que não enxergaram a DeusNa atualidade, a busca pela lentes de contato é altíssima e muitas pessoas as utilizam por vaidade, mas temos que entender que elas devem ser usadas como dispositivo médico para corrigir alguma deformação visual. No Brasil, 2% da população faz uso de lentes de contato. Elas podem ser indicadas no caso de alguma deficiência visual, que pode se tratar de miopia, hipermetropia, presbiopia ou astigmatismo. Somente o oftalmologista pode recomendar o tipo de lente ideal, adaptadas às necessidades de cada usuário, isso depois de exames cuidadosos.

Se as lentes são usadas para corrigir defeitos visuais, não contribuíram muito bem para a correção espiritual e visual de Baruch Espinosa. Filho de pais judeus de origem hispano-portuguesa, ele era da Holanda, e seu pensamento era de um radicalismo absoluto, atacava diretamente as superstições religiosas, políticas, e filosóficas. Para a fonte de toda superstição é a nossa imaginação, que era incapaz de entender a verdadeira ordem do universo. Ele acreditava que, diante dessa incapacidade frente à realidade, a imaginação criara um Deus transcendental, voluntário, e assim os homens passem a ser joguetes nas mãos desse Deus. Seriam a partir dessas superstições religiosas que se desenvolvem também as superstições políticas e filosóficas.

Espinosa se apresenta como um combatente contra esses tipos de superstições em sua obra Ética, na qual apresenta um tipo de Deus imanente, que se manifesta ou que está em todas as coisas. Segundo o seu entendimento, por meio de uma demonstração geométrica, não existe lugar para tragédias, nem mistérios. Para ele, tudo se tornaria compreensível por meio da razão. Ele apresenta a filosofia como conhecimento racional de Deus e a liberdade humana se torna a consciência da necessidade.

Na sua visão, não existe livre arbítrio, uma vez que ele prega o panteísmo, ou seja, tudo o que existe é necessário, pois faz parte da natureza do ser divino.

Enquanto os outros estudiosos viam por meio de suas lentes que Deus estava fora do mundo, Espinosa via diferente. Para ele Deus era o próprio mundo, ou seja, a natureza, fazendo apologia ao panteísmo e criando uma grande confusão na visão das pessoas em relação a Deus.

Mesmo tendo uma religião judaica, não se deixou dominar pelo poder das Escrituras, que sempre evidenciaram a transcendência e soberania do verdadeiro Deus pessoal (Gênesis 1.1; Êxodo 20.1-3; Deuteronômio 32.39); por isso, aos 24 anos de idade, foi excomungado por um rabino judeu, porque suas lentes eram marcadas pela heterodoxia, que fazia oposição à fé judaica.

Espinosa se destacou pela maneira que escreveu filosofia. Em sua obra de destaque, trata sobre Deus, a natureza, a libertação e a emoção. Segundo Espinosa, assim como se estudava a geometria, usando o raciocínio, da mesma forma deveria se estudar os assuntos supracitados. Dizia que o mundo, a nossa própria existência, seguia uma lógica estrutural subjacente, que poderia ser revelada pela razão.

Espinosa entendia que nada era por acaso, mas que tudo seguia um sistema organizacional gigantesco, o que só poderia ser entendido pelo pensamento humano, desse modo ele desprezava o experimento e a  observação, dando ênfase à razão, o que desemboca no puro racionalismo.

A concepção que tinha sobre Deus fez com que não gozasse de grande aceitação social, tinha uma vida simples e vivia do ofício de polir lentes. As lentes que fazia eram usadas em microscópios e telescópios, o que lhe dava sustento suficiente para viver e expressar liberalmente seus pensamentos. Mas foi no seu próprio ofício que veio a falecer aos 44 anos, pois devido ao pó fino que respirava das lentes dos vidros, contraiu uma infecção pulmonar.

As lentes de Espinosa enxergavam “Deus” em tudo: nas formigas, nas pedras, nas folhas, nas gramas, nas janelas, nas pessoas. Tudo fazia parte de um complexo de encadeamento bem integrado, sendo que tudo o que existia era parte única de uma coisa: Deus. Na visão teológica de Espinosa, Deus não era entendido como um ser pessoal que responde orações, que se compadece das pessoas. De acordo com sua concepção, quando a Bíblia faz menção de Deus com características humanas, é apenas um recurso antropomórfico, mas que Ele não passa de um Deus impessoal que não se importa com nada nem com ninguém.

Espinosa dizia que assim como o homem ama a natureza, mas que não recebe nem um amor dela, dessa forma aconteceria também com Deus, os homens poderiam amá-Lo, mas jamais seria correspondido por Ele. O deus de Espinosa era o seu próprio intelectualismo, sua razão, por isso seu deus não se importava com as pessoas nem reagia às sua manifestações.

É marcante ainda na vida de Espinosa o determinismo, pois acreditava que o homem não era um ser livre, mas que toda ação humana era resultado de causas anteriores. Ensinava que o homem pensava que fazia suas próprias escolhas, mas que tudo não passava de ilusão, pois não existia ação livre ou espontânea. O homem tem apenas uma liberdade limitada.

O ser humano vive debaixo de uma servidão, ele não pode controlar nada, mas vive a mercê de suas emoções, o que pode fazer é compreender as causas que moldam o comportamento e reagir aos acontecimentos, desse modo pode se tornar ativo, não deixando que as emoções surjam de eventos externos, mas sim de suas escolhas.

Podemos dizer que Espinosa sofria de todo tipo de doença espiritual dos olhos, pois através de suas lentes não conseguiu ver o Deus pessoal, que é distinto de Suas criaturas, que ama aqueles que Lhe amam. O deus de Espinosa era impessoal, ele não poderia recompensar nem punir pecados de ninguém.

Se Espinosa tivesse analisado melhor com suas lentes espirituais os textos bíblicos (Gênesis 1.1; Deuteronômio 32.29; Salmo 19.1-7; Romanos 1.18-25; Atos 17.24-28), não teria aceitado a ideia de que Deus é toda a natureza, mas que Ele é distinto da Sua criação, sabendo separar transcendência de imanência. O deus de Espinosa era a sua razão, a confiança no seu conhecimento. Se suas lentes tivessem atentado para Jeremias 9.23, 24, mesmo sendo possuidor de um espírito crítico, teria procurado dar toda glória a Deus, pois conhecimento só tem valor quando gera vida espiritual (João 17.3). Jesus disse que o homem pode Lhe amar com todas as suas forças, de todo coração, mas também de todo entendimento (Marcos 12.30).

Eu posso dizer que o deus de Espinosa é o mesmo descrito em 1 Reis 18.26-28, ao contrário do verdadeiro Deus dos cristãos, que responde orações (2 Crônicas 7.14; Jeremias 33.3; Mateus 7.7; Lucas 18.7), que manifesta o Seu amor para com aqueles que O buscam (Deuteronômio 4.29; João 3.16; João 14.21; 1 João 3.1) e que sabe perdoar (1 João 1.9).

Biblicamente, sabemos que o homem foi feito perfeito, tinha uma liberdade perfeita, mas procurou deixar os caminhos de Deus. Vemos que o próprio Deus respeita a liberdade de escolha do homem (Gênesis 4.7). As escolhas feitas pelos homens são fundamentadas e baseadas em sua reflexão.

Por último, ainda podemos ver em Espinosa duas coisas que suas lentes não foram capazes de enxergar: ressurreição e salvação. No que tange à ressurreição de Cristo, ele dizia que ela não foi sobrenatural, mas que poderia ser explicada por vias racionais. Ele não entendia que, para aceitar o Cristo ressuscitado era preciso se desvencilhar da ótica natural, pois através dela o homem não pode compreender as coisas sobrenaturais de Deus (1 Coríntios 2.14).

Paulo só pode aceitar o Cristo ressuscitado porque entendeu que seu conhecimento natural seria inútil para tal compreensão, e o considerou como excremento (Filipenses 3.7-10). Este apóstolo explicitou que quem nega a ressurreição de Jesus Cristo está em pecado (1 Coríntios 15.27). Não há dúvida de que a ressurreição de Cristo foi algo sobrenatural, e o próprio doutor Lucas esclarece isso em Atos 2.32.

Tratando-se da salvação, Espinosa dizia que a mesma poderia ser alcançada por meio do conhecimento racional, e via como um tipo de êxtase bem absoluto, que provocaria no homem um bem profundo de grande alegria, desse modo o homem chegaria ao pleno conhecimento e  participaria da essência de “Deus”.

Caso Espinosa tivesse atentado para as Sagradas letras das Escrituras, que torna o homem sábio para a salvação (1 Timóteo 3.15), ele teria visto o verdadeiro Autor da Salvação, Jesus (Hebreus 12.2), e entenderia que a salvação é conhecimento. Mas o perfeito conhecimento de Deus é por meio de Jesus Cristo (João 17.3), pois se não for desse modo as pessoas sempre encontrarão os deus de Espinosa, que se perde na infinidade dessa macro natureza.

Por, Osiel Gomes da Silva (CPAD).

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