Lei moral e cerimonial

Lei moral e cerimonialEm minhas visitas pelo, e em favor do Evangelho, deparei-me com um Adventista que afirmava: “a Lei está dividida em lei moral e lei cerimonial”. Disse ele mais ainda: “A lei moral é eterna e se centraliza nos 10 Mandamentos, a lei cerimonial, por sua vez, consiste em estatutos e ordenanças civis, éticas e afins, foi extinta pelo próprio Cristo”.

Em outras palavras, segundo ele, se a lei moral, sendo eterna e composta dos 10 Mandamentos, quem não guardar o sábado, que é um dos mandamentos, está violando toda a lei, tornando um transgressor. Toda transgressão receberá o castigo merecido (Hebreus 2.2). Para o transgressor só resta a condenação. Resumindo: somos condenados por Deus em não guardar o quarto mandamento, isto é, o sábado!

Veja os sofismas desta constatação e conclusão.

Interessante que esta “divisão” é ensinada por muitos evangélicos, não somente nas pregações, estudos e literatura, contudo sem pensar nas implicações deste sofisma.

Avaliemos esta “divisão” através de algumas assertivas.

Primeira: Não temos nas Escrituras nenhum texto fazendo esta distinção. Tanto os judeus, Jesus e os escritores do AT e NT nunca fizeram esta distinção.

  • Lemos em 1 Coríntios 11.34 o seguinte: “As vossas mulheres […] estejam sujeitas, como também ordena a Lei”. Em Gênesis 3.16, encontramos esta ordem. Sendo assim, o escritor considerou o livro do Gênesis como Lei.
  • Em Romanos 7.7 diz o seguinte: “Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a Lei não dissesse: ‘Não cobiçarás’”. Pergunto, onde a Lei diz isto? Em Êxodo 20.17 e Deuteronômio 5.21. Conclusão: tanto o Êxodo quanto o Deuteronômio são considerados Lei.
  • Um doutor pergunta a Jesus qual o grande mandamento da Lei? A resposta de Jesus foi: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Mateus 22.3638). Onde está baseada a resposta do Mestre? Em Deuteronômio 6.5. Logo, vemos mais uma vez que o livro de Deuteronômio é Lei.
  • Vejamos outro exemplo. “Qual o grande mandamento da Lei?”. Perguntam a Jesus e Ele responde: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 12.5). Onde se lê isto na Lei? Em Levítico 19.18. Logo, Levítico é considerado Lei por Jesus.
  • Jesus perguntou: “Não tendes lido na Lei que, aos sábados, os sacerdotes violam o sábado no templo” (Mateus 12.5) Onde se lê isto? Em Números 28.9,10. Jesus considerou, então, o livro de Número, Lei.
  • Jesus, falando de si aos discípulos disse: “convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés” (Lucas 24.44) Pergunto, o que era a Lei de Moisés para os judeus? Resposta: Lei, Profetas e Salmos. Com isto podemos concluir que a Lei era toda a Escritura veterotestamentária.

Poderíamos examinar o AT e confirmar que os escritores também consideravam os livros do AT como Lei de Moisés (Leia 2 Reis 14.6 com Deuteronômio 24.16; 2 Crônicas 35.12 com Levítico 3.3; Esdras 6.18 com Números 3.6; Josué 8.31 com Êxodo 20.35). Podemos constatar que em nenhuma passagem se faz uma divisão entre lei moral e cerimonial.

Segunda: a parte mais importante da Lei para Jesus. Esta constatação feita por Cristo é tão importante e fundamental que não precisamos nos alongar. Ele disse: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, não há outro mandamento maior” (Mateus 22.37,40). Interessante que estes dois mandamentos não estão no Decálogo e sim em Deuteronômio 6.5 e Levítico 19.18.

É oportuna a constatação de R. Pitrowisk que “a palavra ‘Lei’ ocorre na Bíblia mais que 400 vezes, mas nem uma só vez se refere exclusivamente ao decálogo, porém a lei toda, dada a Moisés por Deus”.

Terceira: querer estabelecer o decálogo como lei moral e o resto como lei cerimonial é, no mínimo, distorcer e ir além do texto. Vejamos um único exemplo tomado do livro de Tiago, que é considerado o livro mais judaico do NT. Neste livro temos uma “mistura” do que seriam as leis morais e cerimoniais. Leia o que diz o registro de Tiago 2.8: “Se vós, contudo, observais a lei régia, segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem”. Veja agora o verso 11: “Porquanto aquele que disse: não adulterarás, também ordenou: não matarás. Ora, se não adulteras, porém, matas, vens a ser transgressor da lei”.

Observe que destes três mandamentos, um está fora do Pentateuco, no entanto todos são considerados “lei régia”, “lei da liberdade” e “lei perfeita”. Não há distinção entre o que permanece e o que não permanece.

Convém também observar que muito da “chamada lei moral”, nós como cristãos temos que observar. Também muito da “chamada lei cerimonial” temos também que observar. Tanto eu quanto você podemos “sair por aí” adulterando, matando, cobiçando a mulher do próximo, furtando e descumprindo outros “mandamentos morais”? Também podemos “sair por aí”, torcendo o juízo, afligindo o órfão e viúva, promovendo mexericos, seguindo a multidão dos que fazem mal e também descumprindo outros “mandamentos cerimoniais”?

Embora o cristão não esteja ligado à Lei de Moisés, nada disso podemos praticar, mas isto seria outro assunto para abordar.

Soli Deo Gloria!

Por, Vantuil Gonçalves dos Santos.

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