Jesus incentivou a discórdia familiar?

Como entender o texto de Lucas 14.26, que fala sobre “aborrecer a família”?

Jesus incentivou a discórdia familiarO capítulo 14 de Lucas tem duas peculiaridades. Percebe-se que a temática principal está nas prioridades. Inicialmente a questão de priorizar a cura de um hidrópico ou a observância da lei com relação ao sábado (1-6); na sequência, a prioridade dos primeiros assentos em uma festa (7-14);  continua com a desculpa de alguns que não priorizaram a grande ceia (15-24) e, finalmente, conclui com a parábola da providência, enfatizando a necessidade de priorizarmos a Deus em detrimento das demais coisas desta vida terrena.

O versículo 26 em especial registra o seguinte: “Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (ARC). Infelizmente, esse texto é interpretado erroneamente por muitos leitores da Bíblia. É interessante notarmos que a palavra “aborrecer” ou “abandonar”, em seu sentido literal no grego (miseõ), ainda que possa etimologicamente ser traduzida eventualmente por odiar, pode também ser traduzida por “amar menos”.

MORRIS (2011, p. 222), registra que a ideia neste versículo é que ser discípulo significa dar sua primeira lealdade. “Não há lugar no ensino de Jesus para o ódio literal”, pois ao observarmos Seus ensinamentos, encontramos que Ele “mandou seus seguidores amarem até mesmo seus inimigos (6.27), de modo que é impossível que aqui lhes diga que literalmente devem odiar aqueles que na terra são mais aproximados a eles (CG. 8.20-21)”. MORRIS (2011, p. 222) ainda declara que a ideia aqui é de “amar menos. (…) O que Jesus quer dizer é que o amor que o discípulo tem por Ele deve ser tão grande que o melhor amor terrestre é ódio em comparação (cf. Mateus 10.37)”.

RICHARDS (2008, p. 172) complementa ao comentar que o versículo 33 do capítulo 16 de Lucas ressalta que Jesus não disse “venda ou doe, mas renuncie”, logo “o que Ele quis dizer é que como discípulo de Jesus, nós entregamos a Ele a Escritura de tudo o que possuímos. Deste momento em diante, vivemos conscientes de que somos mordomos do Senhor, e que tudo o que possuímos pertence, em última instancia a Ele”, inclusive nossa família.

BRUCE 2009, p. 1680) acrescenta que o texto não afirma que o homem “precise detestar os seus familiares, mas que eles devem tomar o segundo lugar, depois do Senhor, no seu coração”. A Bíblia de Estudo Pentecostal (1997, p. 1539) traz em seus comentários o seguinte: “Jesus requer aqui é que nossa lealdade e amor a Ele sejam superiores a todos os demais vínculos em nossa vida, inclusive os da nossa própria família”.

Assim sendo, Jesus, em nenhum momento, incentivou a discórdia e nunca desconsiderou a importância da família. Simplesmente, Ele estabeleceu uma hierarquia de prioridades, na qual Deus está no topo e deve permanecer.

REFERÊNCIAS

BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento, São Paulo: Editora Vida, 2009).

MORRIS, Leon L. Lucas: introdução e comentários. São Paulo: Editora Vida Nova, 2011.

RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento, Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2008.

Por, Ivan Tadeu Panicio Junior.

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