Israel: um povo sem Matzeivah

Israel - um povo sem MatzeivahA minha prece é a seguinte: que voltemos a nos encontrar, vivos.” As palavras que iniciam esta breve meditação foram proferidas pelo líder sionista Chaim Weizmann, no Congresso Sionista Mundial, em Genebra, dia 24 de agosto de 1939, logo após ter tomado conhecimento do recém estabelecido pacto nazista-soviético. Próximos a ele, igualmente consternados, estavam David Ben-Gurion e Moshe Shertok. A partir daquela data, as condições de vida para os judeus na Europa deterioraram-se de tal maneira que é impossível enumerar neste espaço as dificuldades passadas por homens e mulheres das mais diversas condições e idades, chegando às cifras catastróficas do Holocausto. Esvaziados da esperança, alguns privaram-se de suas próprias vidas, descrendo da possibilidade de um futuro. Em 1942, Stefan Zweig, escritor, nascido em Viena, em 1881 e estabelecido na Inglaterra, cometeu suicídio em Petrópolis, Rio de Janeiro, por encontrar-se deprimido quanto ao destino da Europa. Simone Weil, filósofa, nascida em Paris, em 1909, também é exemplo dessa extrema tristeza. Morreu de tuberculose e auto inanição no sanatório de Grosvenor, Ashford, Kent, em 1943. Primo Levi, escritor e químico, nascido em Turim em 1919 e membro da resistência antifascista, cujo primeiro livro Se questoè um uomo (Se isto é um homem) descreve suas experiências no campo de concentração de Auschwitz, cometeu suicídio em Turim, em 1987 – numa prova de que a ausência de boas expectativas perduram por longo tempo em um coração ou no coração de muitos dentre um povo.

Pactos podem promover a esperança ou enfraquecê-la. No primeiro dia deste mês de junho (2015), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse a um canal de televisão israelense que só um acordo e não um ataque militar poderia impedir o Irã de adquirir armas nucleares, acrescentando: “Eu acho que posso demonstrar, não na base de uma esperança [grifo nosso], mas a partir de fatos, de provas, de análises, que o melhor meio de impedir o Irã de desenvolver uma arma nuclear passa por um acordo sólido e verificável”. Na entrevista, cujos trechos repassamos, defendeu que “uma solução militar não irá solucionar o problema”. Quanto à possibilidade de Israel optar por atacar instalações nucleares iranianas, caso esta seja uma necessidade premente para sua sobrevivência como nação após um acordo entre Irã e as grandes potências mundiais, Obama recusou-se a “especular”. “O que eu posso dizer ao povo israelense é: entendo suas inquietações e compreendo seus medos”. O acordo, do qual Israel é o mais feroz opositor, foi concluído em abril, na Suíça, tendo como prazo final de confirmação o dia 30 de junho, razão pela qual o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, prossegue numa ofensiva diplomática e midiática de oposição. Alguns governos não se deram conta, ainda, de que o Irã precisa ser contido com sanções e bloqueios comerciais. Para isso, no entanto, necessitaria haver uma firme vontade política em uma sociedade ocidental que, infelizmente, vive um processo de declínio em seus valores e princípios. De qualquer forma, o descarte que o presidente dos Estados Unidos faz do termo “esperança” é, especialmente significativo num pronunciamento a Israel. Desconheceria Obama que esse é exatamente o título do hino nacional da pátria dos judeus? Pois por fatos, provas e análises o povo da nação à qual se dirigia há muito teria sido aniquilado – mas permanece tão vivo quanto a esperança que lhe foi inculcada pelo seu Deus.

Recordemos um homem. Alguns dizem que era um judeu, dos judeus empobrecidos de Gadara, que se ocuparam da criação de porcos, atividade abominável para um descendente de Abraão. Como não há base para afirmar sua ancestralidade, e como a região era habitada por um misto de povos, consideremo-lo um não judeu. Era de tal maneira possesso por espíritos malignos, que já se encontrava destituído de quase tudo: não possuía habitação, não possuía roupas, dignidade, honra, amigos (pois os espíritos o impeliam para o deserto) ou limites (as correntes da misericórdia queriam contê-lo para que não se ferisse, mas não podiam, por causa dos demônios). O homem não possuía voz – bem entendido – quando procurou falar, sua boca foi usada por seus opressores, que se manifestaram diante do Mestre Jesus. Tal homem morava entre os sepulcros, moradia bastante inconveniente para alguém que ainda vivia. Exatamente, pois além de não possuir roupas, voz ou teto, tal homem também não possuía matzeivah.

Ainda que o gadareno não fosse um judeu, a prática relativa à matzeivah não era exclusiva de Israel. Trata-se do uso da pedra tumular, com a inscrição do nome do morto nela. No momento da morte, não se lhe atribuía muita importância, uma vez que o nome a ser exaltado no despedir-se de uma vida querida não era o nome do falecido, mas o Sagrado Nome dAquele que pode doar a vida e retirá-la. Por isso, a colocação da pedra deveria esperar de um mês a um ano, conforme o costume local, quando, então, deveria ser feita a cerimônia de descoberta da matzeivah. Pense no espanto do artífice que recebeu a encomenda de um objeto semelhante para o filho da viúva de Naim, ou mesmo para o conhecido e amado Lázaro, quando seu trabalho foi tornado inútil pelo poder da ressurreição. Espanto igual pode ter passado aquele que se propôs a preparar a matzeivah do bom Rabi que andara pregando e profetizando entre o povo naqueles dias, tendo sido morto numa cruz e sepultado numa cova junto a um jardim. Seu túmulo permanece destituído de matzeivah. Aliás, é conhecido que Seu costume e prática é o de escrever nomes de filhos de Adão não em pedras tumulares, mas no Livro da Vida do Cordeiro.

O gadareno não possuía nada em que pudesse se alegrar, mas não possuía uma matzeivah, ainda que habitasse nos sepulcros. É fato que as pessoas costumam considerar mortas aquelas que, tendo perdido tudo, caminham entre os que não têm vida, como se mortos já fossem. É necessário lembrar que um homem, mesmo o desesperançado, estando vivo, tem preservada por Deus a sua condição moral de caminhar em direção ao Salvador. Nem demônios (mesmo milhares), nem desonra, nem nudez, nem solidão podem impedir alguém em sua jornada para o céu. Ao conhecido paralítico, foram necessários e providenciais os quatro companheiros que o levaram ao Senhor. Ao gadareno, no entanto, ajuda alguma lhe fora oferecida, senão a disposição amorosa do Filho de Deus, em atravessar o mar e a força da tempestade para estar à distância adequada a que os passos humanos pudessem chegar. E, logo, vamos encontrar o desesperado vestido, são, em seu perfeito juízo, desejando caminhar com Cristo, sendo enviado a apregoar a glória da transformação de que fora alvo.

Enquanto líderes mundiais são enredados pela ideologia de destruição, vendendo suas convicções em acordos que visam a morte de uma nação, lembremos a realidade de que o povo de Israel está vivo, de que nenhum decreto quanto a sua morte foi lavrado da parte de Deus e de que não há data para se descobrir sua matzeivah. Em lugar da pedra, resiste e soa um hino – Ha Tikvah, A Esperança.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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