Israel: os 70 anos de uma jovem nação

Israel - os 70 anos de uma jovem nação“Quem já ouviu uma coisa dessas? Quem já ouviu tais coisas? Pode uma nação nascer num só dia, ou, pode-se dar à luz um povo num instante? Pois Sião ainda estava em trabalho de parto, e deu à luz seus filhos” (Isaías 66.8).

Há setenta anos, ouvintes judeus colavam, com grande expectativa, seus ouvidos nos aparelhos de rádio para acompanhar, voto a voto, o processo que definiria a existência ou não de um Estado Judeu. Era o dia 29 de novembro. O sonho de minimizar de uma vez por todas as agruras sofridas pelo horror do holocausto ainda parecia distante e era constantemente agravado pela forma como os sobreviventes eram tratados em campos de transição, mantidos distantes e impedidos de, mesmo colocando suas vidas em risco, iniciarem o que naqueles dias era mais do que uma aventura na terra de seus ancestrais.

Episódios trágicos, como o do navio Êxodus, constrangeram as nações a tomarem uma decisão em favor da vida de milhares de pessoas.

Em fevereiro daquele mesmo ano, o Reino Unido já houvera passado o mandato que detinha sobre a região chamada geograficamente de Palestina (nome com que os romanos denominaram a área numa forma de afronta aos judeus) desde seu estabelecimento pela Liga das Nações em 1922 para os cuidados das Nações Unidas. Ainda assim, a retirada de suas tropas aguardava o reconhecimento formal de Israel como nação e a consequente independência, que apenas ocorreria em maio do ano seguinte. A votação 181 sobre o Plano de Partilha (ou partição) transcorreu sob a liderança do presidente da Assembleia Geral, o chefe da delegação brasileira Osvaldo Aranha, mais tarde laureano com o Prêmio Nobel da Paz (1948). A situação havia sido avaliada por um conjunto de onze estados que compuseram o Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP), intermediador das conversações entre a Agência Judaica e o Alto Comitê Árabe. A posição árabe era francamente contrária ao restabelecimento da pátria judaica. Após anos de dominação otomana, seguida do governo britânico, a Liga Árabe, na pessoa de seu secretário geral, o egípcio Abdul Rahman Hassan Azzam (AzzamPasha, assim se expressou: “O mundo árabe não está disposto a fazer qualquer compromisso. […] Os povos não fazem concessões; eles lutam. […] Vamos tentar vencê-los. Não tenho certeza se teremos sucesso, mas tentaremos. Conseguimos combater os cruzados – por outro lado, perdemos a Espanha e a Pérsia. Talvez possamos perder a Palestina, mas definitivamente é tarde demais para falar sobre soluções pacíficas”. Ainda assim, 56 nações votaram, num processo que precisou da firme direção do Diplomata Osvaldo Aranha e que concluiu pelo estabelecimento de um lar nacional judaico mediante 33 votos a favor, 13 votos contra e 10 abstenções. Somente em 2011, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, reconheceu que os árabes erraram ao rejeitar a partilha proposta pela ONU.

A alegria daqueles que acompanhavam o processo, voto a voto, através dos rádios, logo foi acompanhada pelo estado de alerta que marcou o início dos ataques dos opositores. Os meses de transição foram marcados por grandes e crescentes tensões, mas seguiu seu curso, sob a supervisão da ONU, uma vez que os judeus adotaram o plano de partição, apesar da perigosa e quase insustentável quebra do território. Com a efetiva conclusão do mandato britânico, o Estado de Israel foi proclamado no dia 14 de maio de 1948, na cidade de Tel-Aviv, quando o presidente da Agência Judaica, David Ben-Gurion declarou: “Nós proclamamos por este ato o estabelecimento do Estado Judeu na Palestina, que se chamará Israel”. A Ben- -Gurion foi concedida a honra de presidir o novo Estado. O texto da Declaração de Independência inicia-se com as seguintes palavras: “A terra de Israel foi o lugar onde nasceu o povo judeu. Aqui sua identidade espiritual, religiosa e nacional foi formada. Aqui eles conquistaram independência e criaram uma cultura de significado nacional e universal. Aqui eles escreveram a Bíblia e a deram ao mundo. Exilado da Palestina, o povo judeu manteve-se fiel a ela em todos os países de sua dispersão, jamais cessando de orar e esperar por seu retorno e pela restauração de sua liberdade nacional. Impulsionados por este vínculo histórico, os judeus lutaram através dos séculos por voltar à terra de seus pais e recuperar seu país. Nas últimas décadas, eles voltaram em massa. Eles recuperaram o deserto, reviveram sua língua, construíram cidades e aldeias e estabeleceram uma comunidade vigorosa e crescente com vida própria, econômica e cultural. Eles buscaram a paz, mas sempre estiveram preparados para se defender. Eles trouxeram a bênção do progresso para todos os habitantes do país”.

Há, portanto, duas datas nesse importante desenrolar: uma delas, 29 de novembro de 1947, quando as Nações Unidas votaram o Plano de Partilha, razão pela qual há, em muitas cidades de Israel, ruas chamadas Kaf-TetbeNovember; outra data, a da Independência de Israel, no dia 5 de Iyar de 5705. Como a data da Independência é estabelecida segundo o calendário judeu, varia de ano a ano. No ano de sua declaração, correspondia ao nosso 14 de maio, mas sofre, ano a ano, as variações relativas às diferenças entre o calendário judaico e o gregoriano. É costume fazer duas celebrações. Alguns dizem do nascimento de Israel em 29 de novembro e de sua independência em 14 de maio de 48. Outros, à semelhança da Revista Veja, que publicou uma edição na época, cuja matéria de capa intitulava-se “Nasce o país dos judeus”, consideram que a criação do Estado ocorreu naquele dia, em Tel-Aviv. Ora, um dia a mais para comemorar não constitui um problema nacional, mas é a justa celebração de um processo que foi e ainda é extremamente doloroso.

Este ano, a comunidade judaica programou uma festa especial para lembrar a votação da ONU, ocorrida no distrito de Queens, em Nova York, nas dependências do museu. Para tanto, foram reservados quartos para a delegação israelense. A direção da casa manifestou total apoio ao evento, que chamou de “maravilhoso e significativo” e de“premissas originalmente relevantes”. No entanto, a partir das manifestações dos ativistas do BDS (grupo contra Israel cuja sigla significa ‘boicote, desinvestimento e sanções’) o museu cancelou o evento. Mais tarde, suspendeu o cancelamento. Na ocasião, o embaixador israelense Danny Danon manifestou-se com as seguintes palavras: Qualquer tentativa de discriminar o Estado de Israel é completamente inaceitável e continuaremos combatendo tais injustiças. Estamos ansiosos para celebrar com orgulho esta histórica decisão das Nações Unidas”.

– A despeito da discussão sobre as datas, ou da aceitação de ambas como duas etapas de uma mesma vitória, o importante é que Israel é um milagre concretizado, uma profecia cumprida, uma esperança não frustrada. Mais do que cálculos escatológicos, o aniversário de 70 anos dessa jovem nação deve nos levar a manter firme a nossa própria esperança, aguardando o retorno do Fiel Senhor e depositando nossa alegria na Sião futura, num paralelo com o Hino Nacional judaico, cuja letra diz: “Ainda permanece no coração da alma judia um alento, na direção do Oriente, olhando sempre com atenção. Nossa fé não terminou. Dois mil anos de esperança: ter liberdade em nossa terra – terra de Sião e de Jerusalém”. Permaneça também viva e firme a nossa fé, rumo à Pátria Celestial.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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