Israel e o cordeiro de ouro

Israel e o cordeiro de ouroO povo trouxe-me ouro, eu joguei no fogo e SURGIU esse bezerro” (Êxodo 32). Com tais palavras Arão não convenceria seu irmão Moisés e nem mesmo a si próprio sobre sua condução inocente no episódio do bezerro de ouro – o pecado não é casual. As marcas arqueológicas do evento permanecem, gravadas em pedras, na região desértica da Arábia Saudita, a alguma distância do oásis de Elim. Os petroglífos mostram figuras de bois semelhantes ao ídolo egípcio Ápis e aos deuses cananeus Baal e Moloque, frequentemente representados sob a forma desse animal. Quando de sua descoberta, as autoridades árabes espantaram-se não apenas com o achado, mas com a preservação das figuras, apenas justificada pela aridez do clima e isolamento do sítio. Também causou espanto o estilo único, jamais encontrado no lugar, confirmando tratar-se do registro de outro povo, talvez em peregrinação. São as marcas, ainda legíveis, da desobediência dos recém libertos filhos de Israel.

Dentre as dores da alma, destaca-se a ansiedade. Segundo alguns estudiosos da psiquê humana, ela é fruto de uma postura controladora. De certa forma, o ansioso não suporta o fato de que não detém todos os fatores para estabelecer seu presente e seu futuro. O desejo de estar no comando de cada faceta de sua vida deixa-o tenso e pré-ocupado na tentativa de resolver questões para as quais Deus não o habilitou e não lhe conferiu as informações e meios necessários. Moisés tardava. A angústia substituiu a fé tranquila, que sabe aguardar em Deus.

Considerando que cerca de três mil pessoas foram mortas num primeiro momento de correção, logo após o retorno do libertador, podemos imaginar a maneira como Arão estava sendo pressionado. Nada, porém, pode minimizar a gravidade do fato. É mister obedecer a Deus, mesmo que a turba ansiosa e enfurecida queira seguir caminho diverso e, ainda mais, carregando o servo do Senhor consigo, para tentar legitimar suas ações.

Um bezerro de ouro não ‘surge’. Ele é resultado de um modelo, anteriormente construído, talvez em barro ou madeira, conforme aquilo que foi visto ou imaginado. Figuras e figuras do bezerro foram vistas pelos hebreus por mais de quatrocentos anos no Egito. Elas estavam nas paredes, nos amuletos, nos objetos ritualísticos e nos de uso doméstico dos moradores da terra. Talvez tivessem sido, gradativamente, adotados por alguma família hebreia mais liberal sob a justificativa de sua beleza artística, acrescida da sempre comum retórica do ‘não tem problema’, ‘não me afeta’, ‘não tem nada a ver’. Os bezerros entram no ambiente familiar e tornam-se comuns, bem aceitos e recebidos como parte de uma nova cultura em formação. Bezerros não surgem, infiltram-se. Tão ardilosamente deixam sua marca, que sua reprodução não exige muito esforço – ele parece, apenas parece, praticamente ter surgido.

Toda construção demanda tempo e modelo. Ao ordenar a construção do tabernáculo, o Senhor expressamente advertiu sobre a necessidade de tudo fazer segundo o modelo. Sim, é certo que todos os detalhes eram tipo e sombra de coisas futuras, referentes a Cristo e à salvação. Na ânsia, porém, de fugir ao uso quase místico que hoje se faz dos elementos da tenda, alguns quase que esquecem que ela não apenas era sombra de coisas futuras, mas, igualmente, sombra de coisas celestiais (Hebreus 8.5). O candelabro, a mesa dos pães, a bacia representando o mar de cristal, além dos outros elementos, de cada detalhe, seguiam a semelhança, muito reduzida, de coisas inefáveis existentes na Glória. Somente através do sangue de Jesus, do qual o tabernáculo é sombra, modelo e tipo, poderemos chegar ao Tabernáculo Celestial. A construção tão bem liderada por Bezalel e Aoliabe era, portanto, um tipo, com dois antítipos, um na pessoa de Cristo, outro no ambiente desejado pelos santos. O cumprimento do tipo em um antítipo não anula a dupla referencialidade.

Há quem tente afirmar os elementos do tabernáculo como símbolos de Israel e da nação judaica – destarte os desvios quanto ao uso da simbologia, ela não pode ser detida por nenhuma nacionalidade, nem mesmo a dos filhos de Abraão. O modelo é divino, eterno e celestial; apesar disso, não lhe cabe qualquer manifestação de idolatria. O Senhor abomina os ídolos e nem mesmo coisas ou semelhança de coisas que digam respeito ao ambiente celestial merecem receber a honra que somente a Ele é devida.

O espanto deve-se mais à maneira rápida como Israel abraça modelos mundanos e distancia-se daqueles que seguem os contornos do céu. Para o Criador, há modelo de como ser homem, mulher, família, comunidade de fiéis, trabalhador, rei ou soldado. Na linguagem liberal, modelos são chamados estereótipos, numa tentativa de conduzi-lo à esfera do preconceito. O argumento não esvazia a certeza dos que guardam os parâmetros divinos e os retém firmes em seus corações, priorizando a semelhança com o Filho de Deus em suas vidas até o ponto em que, numa circunstância provocadora qualquer, sua reação os surpreenda e eles mesmos não encontrem mais, no fruto do seu agir, as formas dos antigos bezerros, mas, ao final, possam ver, em firmes contornos, a forma de um Glorioso Cordeiro.

Que o Eterno santifique Israel, retirando o Egito de seu coração.

Que o Senhor seja formado em nós.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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