Impedimento ao avanço

Impedimento ao avançoTendo a Bíblia Sagrada a mensagem divina para humanidade e sendo a Igreja o organismo vivo edificado pelo próprio Senhor Jesus para propagação de seu Reino, que fatores poderiam impedir que a sociedade reconhecesse o Cristo na igreja?

Inicialmente, destaca-se que é missão da Igreja a propagação do Evangelho por meio da pregação (Marcos 16.15; Mateus 28.19,20). Neste sentido, o crer está ligado, indiscutivelmente, à exposição das verdades escriturísticas, pois é imprescindível a pregação para a conversão (Romanos 10.14), sendo “formosos os pés dos que anunciam o Evangelho da paz.” (v. 15). Assim, é certo que a falta de pregação bíblica impede o avanço do Reino. Contudo, vejamos outro fator.

Considerando então que a Igreja cumpra fielmente a missão da anunciação do Evangelho, haveria algum outro fator que pudesse impedir o reconhecimento, por parte dos incrédulos, de que os cristãos são, de fato, discípulos de Cristo? Conforme os ensinamentos de Jesus, sim.

Uma das profecias acerca do Cristo é de que Ele não quebraria o caniço rachado e não apagaria o pavio fumegante (Isaías 42.3-NVI). O texto prediz que o Servo do Senhor seria reconhecido pelo amor para com aqueles considerados até mesmo indignos da salvação e do favor divino. Vindo a plenitude dos tempos, conhecemos pelas páginas da Bíblia que o ministério de Jesus foi marcado pelo amor aos colocados à margem da sociedade: apresentou-se voluntariamente para adentrar a casa de um detestável publicano (Lucas 19.1-10), atendeu e curou a leprosos (Lucas 17.11-19), compadeceu-se de uma mulher cananeia (Marcos 7.24-30), comeu com“pecadores” (Mateus 9.912), não concordou na possível execução de uma prostituta (João 8.1-11), curou a muitos enfermos (Marcos 1.33,34); enfim, veio para os doentes (Marcos 2.17).

Façamos a seguinte reflexão sobre o amor de Deus: se o conhecido versículo de João 3.16 fosse escrito apenas desta forma: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira”? Com esta redação hipotética, o que o leitor perguntaria? Certamente indagaria onde está a demonstração desse amor. No entanto, sob a ótica divina o amor é expresso em ações, daí seguir o versículo: “…que deu o seu Filho Unigênito…” O dar o Filho é a expressão do amor, que transcende todo e qualquer discurso.

Sob esse prisma, Cristo, como expressão máxima do amor, deixou claro aos seus discípulos que um dos principais atrativos aos ímpios para serem conduzidos à fé seria justamente a demonstração de amor do cristão ao próximo. Assim, nos acontecimentos que envolveram a celebração da última ceia, Jesus disse aos seus discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João 13.35). Este amor, porém, não era o amor devido somente aos mais chegados, aos que compartilhavam das mesmas convicções religiosas, ideológicas e até políticas, mas para Jesus o amor que excede o padrão humano e é capaz de persuadir o mundo é destinado até mesmo aos inimigos (Mateus 5.44).

Para Jesus, a forma mais eloquente de anunciá-lO como Salvador da humanidade é amar como Ele amou. Não há argumentos que se sustentem diante de demonstrações genuínas de amor, de atos semelhantes aos do Mestre Amado, que visem ao bem do outro e não ao próprio. Portanto, amar é pregação, ainda que não seja acompanhada do rigor homilético exigido dos arautos nos púlpitos.

Apesar de já haver previsão na Lei de Moisés sobre a necessidade de amar ao próximo (Levítico 19.18), Jesus estabelece que a demonstração de amor irresistível é aquela que tem como parâmetro o Seu próprio amor pela humanidade (João 13.34; 15.12), o que – deixa claro João – deve incluir, se necessário, até dar a vida pelo próximo (1 João 3.16), justamente como em nosso favor foi dada a vida de um Inocente.

O argumento em prol da demonstração do amor da igreja como forma contundente de anunciação do Evangelho também está claro na Oração Sacerdotal do Mestre. Em João 17, Jesus coloca-se como intercessor de seus discípulos, bem como dos que viriam a crer em seu nome (v. 20). O ponto alto da oração está no versículo 21, quando Jesus roga ao Pai em favor dos seus pedindo “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (v. 21). São impactantes as palavras do Mestre e suas consequências, pois a união dos cristãos, baseada no amor, é colocada como fator de convencimento do mundo acerca do senhorio de Cristo. Por outro lado, podemos concluir que a falta de amor entre os cristãos e para com os incrédulos torna-se forte e quase intransponível obstáculo à aceitação da fé, pois o mundo não estaria interessado em um discurso de amor que, na prática, não encontra correspondência nas ações de seus propagadores.

Em um instante de reflexão, não seria difícil concluir que uma das marcas da igreja brasileira, atualmente, de forma geral, não é a demonstração de amor e unidade. Pelo contrário, às vezes não faltam argumentos aos críticos da fé a respeito da divergência entre o Cristo apresentado na Bíblia e as ações dos que dizem ser Seus seguidores. Parece haver uma dicotomia entre o que se prega, o que é defendido verbalmente, e o que se vê na prática. Algumas pessoas que defendem a Bíblia ferozmente ignoram por meio de ações seus mandamentos. A questão é tão grave que o Apóstolo João demonstra que em uma congregação identificada como cristã pode haver, em razão da falta de amor, crentes que aderiram à comunidade de fé, mas que andam distantes de Deus, dos quais podemos citar os seguintes exemplos: a) crentes que amam apenas de palavras (1 João 3.18), b) crentes que andam em trevas (1 João 2.8), c) crentes que não conhecem a Deus (1 João 4.8), e, d) crentes mentirosos (1 João 4.20). Todos estes exemplos estão ligados à falta de amor por parte dos que se identificam como cristãos.

A muitos espanta o fato de alguns seguimentos religiosos serem bem sucedidos mesmo tendo como fundamento pressupostos contrários à Palavra de Deus. No entanto, diversas pessoas aderem logo ao que lhes é proposto não pela adequação do discurso aos padrões bíblicos, mas em muitos casos pela solidariedade recebida, pelo acolhimento, por encontrarem em meio ao caos uma demonstração de afeto e chegam até a atribuir o que lhes é feito a Deus, haja vista relacionarem o Deus bíblico justamente com esses atos de amor. Nestes casos, os necessitados não estariam tão interessados, de imediato, na verdade apresentada por um discurso bem elaborado, mas tão somente no amor que lhes foi externado por ações.

Importante destacar ainda que a obrigação de demonstração de amor como anunciação das Boas Novas está sobre todos os cristãos, não somente a cargo dos oficiais da igreja, pois uma das figuras da igreja é justamente o “corpo” (Romanos 12.5), devendo ser este, no todo, uma manifestação de amor do Deus vivo.

Por, João Paulo da Silva Mendes.

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