Igrejas se multiplicam e bizarrices também

Igrejas se multiplicam e bizarrices tambémQuando este articulista estava escrevendo o presente texto, pediu a ajuda de seus leitores que o acompanham pelo Facebook e recebeu inúmeras mensagens contendo exemplos – com fotos e vídeos – de práticas bizarras, pseudopentecostais, em voga no meio evangélico. A lista é grande: campanha do embelezamento; “transferência de unção” mediante contato entre pés e mãos; derramamento de jarras de azeite sobre a cabeça do pregador (pregador?); comercialização de produtos “abençoadores”, como perfume, creme hidratante e sabonete líquido com o “cheiro de Cristo”, chocolate ungido para quem tem prisão de ventre, caneta ungida para passar em concursos etc.

Um vídeo na Internet, no site YouTube – muito compartilhado nas redes sociais –, mostra fieis de uma igreja “evangélica”, liderados por uma bispa (bispa?), subindo um monte íngreme com mochilas cheias de pedidos de oração nas costas. Ele alude a uma campanha de embelezamento: “Terça-feira da exaltação na fé de Ester, na Igreja Apostólica […] de Deus”. O narrador do vídeo, com vozeirão de locutor de cinema, anuncia: “Sete terças-feiras do embelezamento, com a distribuição do kit de beleza da rainha Ester, feito com a essência da mirra consagrada em Israel pela bispa […]”. Vestida de pano de saco, a tal “bispa”, que é casada com um apóstolo (apóstolo?), sobe o monte de joelhos, persistentemente, falando em “línguas estranhas” e profetizando “vitória”. E, ao chegar ao topo, queima todos os pedidos em uma grande “fogueira santa”.

O que estas práticas bizarras têm a ver com o Evangelho? Nada! Elas, na verdade, estão associadas às falsas boas-novas mercantilistas, mencionadas em 2 Coríntios 2.17 (ARA): “nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus”. Esta referência bíblica alude à conduta dos falsos obreiros, que, para ganhar dinheiro, estão dispostos a tudo, inclusive a falsificar as Escrituras. E, considerando, também, que “o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males” (1 Timóteo 6.10), não resta dúvida de que a mercantilização da fé – ou seja, a Teologia da Prosperidade nas suas mais variadas formas – é a maior causa de proliferação de heresias e modismos por parte de “apóstolos” e “bispas” gananciosos.

Grosso modo, as bizarrices existem porque ainda há obreiros fraudulentos que se aproveitam da simplicidade e da ingenuidade das pessoas para ganharem dinheiro de modo fácil. Tais falsos obreiros, em vez de abrirem uma mercearia, uma padaria ou outro negócio, optam pela comercialização do Evangelho. Eles sabem que existem igrejas sérias, bem estruturadas, capazes de formar discípulos de Jesus e acolhê-los, mas fundam as suas próprias igrejas-negócios. E as práticas bizarras que adotam fazem parte de uma estratégia para enganar os incautos pela obtenção de vantagens financeiras ou lucro.

No primeiro século, os dois principais apologistas da igreja primitiva, Paulo e Pedro, se opuseram aos falsos obreiros, mal-intencionados, sem compromisso com as Escrituras, interesseiros, que vagueavam pelas igrejas cristãs torcendo o Evangelho para obter lucro. Assim como nos dias de hoje, havia naquele tempo judaizantes, falsos irmãos que queriam veterotestamentarizar o culto neotestamentário (Atos 15.1-11 e Gálatas 2.4-21). E os dois apóstolos mencionados, conquanto tenham divergido em alguns assuntos, se empenharam em mostrar à cristandade que eles eram diferentes dos “apóstolos” e “mestres” que mercadejavam a fé (2 Coríntios 11.3-15 e 2 Pedro 2.1-3).

Como se sabe, o que motivou a Reforma Protestante também foi a resistência dos apologistas daquela época – conhecidos como reformadores – ao evangelho mercantilista da Igreja Católica Romana. “Martinho Lutero detestava a prática de venda de indulgências, que nada mais eram do que pacotes caros pagos pelo perdão. Em 31 de outubro de 1517, na véspera do Dia de Todos os Santos, um dia importante do calendário, afixou seus protestos em latim à porta da igreja do castelo de sua cidade” (BLAINEY, Geoffrey. Uma Breve História do Mundo. São Paulo: Fundamento, 2008, p. 185).

O surgimento de denominações e ministérios evangélicos em grande escala seria uma bênção para o Brasil se todas essas igrejas tivessem o compromisso de obedecer às Escrituras e programar a genuína mensagem do Evangelho. Mas é notório que boa parte delas tem disseminado doutrinas heréticas e bizarrices que dispõem contra a verdade. E isso tem deixado os apologistas sérios – levantados por Deus “para defesa do evangelho” (Filipenses 1.16) – em um dilema. Ao mesmo tempo que eles se opõem ao ateísmo, ao agnosticismo, ao laicismo evangelicofóbico e a outros movimentos que querem impedir a pregação do Evangelho, têm de reagir às falsas boas-novas propagadas “entre nós” (Atos 20.27-31 e 2 Pedro 2.1-2).

Desde o início da segunda metade do século passado, as Assembleias de Deus têm se dividido e subdividido. Novos ministérios e denominações, oriundos da igreja iniciada pelos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, foram surgindo e dando origem a outros, num processo sucessivo e inevitável, a ponto de hoje, haver Assembleias – de quem, mesmo? – para todos os gostos. Sim, a denominação Assembleia de Deus tem sofrido na mão de obreiros fraudulentos, mercantilistas, que não têm compromisso com a Palavra de Deus e não respeitam os limites estabelecidos pelos pais do Movimento Pentecostal no Brasil.

E isso não vem acontecendo apenas com a Assembleia de Deus. A Igreja Batista, por exemplo – de onde saíram os primeiros cristãos assembleianos, em razão de terem crido na doutrina pentecostal esposada por homens de Deus como William Seymour, no início do século passado –, é uma das denominações históricas que sofrem na mão de maus obreiros. Eles não abrem mão do nome “Igreja Batista”, despeito de serem infiéis ao perfil teológico-eclesiástico-consuetudinário dessa igreja. Este articulista, há alguns anos, avistou, num bairro do Rio de Janeiro, a seguinte placa denominacional: Igreja Batista Ministério Deus é Pentecostal!

Como combater a proliferação de bizarrices, atreladas à mercantilização da fé, que afastam as pessoas do caminho da verdade? As igrejas sérias devem continuar se empenhando em ensinar a sã doutrina, estimulando os fiéis a buscarem o conhecimento bíblico genuíno. Nesses tempos hipermodernos, muitos evangélicos estão interessados apenas em shows gospel, deixando vazias as reuniões de ensino da Palavra de Deus. E as pessoas sem conhecimento são manipuláveis, alvos fáceis dos enganadores. Como sal da terra e luz do mundo (Mateus 5.13-16), os salvos, como verdadeiros apologistas (1 Pedro 3.15), não podem deixar de proclamar a verdade e se opor ao erro, haja visto ter dito o Senhor “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32).

Por, Ciro Sanches Zibordi.

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