Idolatria no meio evangélico

idolatrianomeio evangelicoLiguei a TV, em um fim de noite, em busca de um bom programa evangélico e me deparei com um famoso milagreiro. Reunindo o povo ao redor de si – ao contrário de Moisés, que reuniu o povo ao redor da rocha, que representava Cristo (1 Coríntios 10.4 e 1 Pedro 2.4) –, ele não se importava com o fato de as pessoas se empurrarem para colher, com um lenço, o suor que escorria do seu rosto! Estarrecido, mudei de canal e reconheci, em um palco todo iluminado um cantor dos meus tempos de adolescente (disse “reconheci” porque ele estava muito diferente). Em resposta à sua performance de popstar, a plateia dançava, assobiava e gritava sem parar. Resolvi, então, ler um pouco e, depois, dar uma rápida olhada na Internet. Nova decepção. Vi cantores e pregadores evangélicos que costumam acusar os católicos romanos de serem mariólatras comportando-se como ídolos, exibindo-se ao seu fã-clube gospel.

O que vemos nos programas “evangélicos” e nas redes sociais são retratos do que acontece no meio evangélico. Como está o nosso culto a Deus? Temos adorado ao Senhor com exclusividade, como ordena a Sua Palavra? Ou estamos confundindo o profano com o sagrado? Sinceramente, boa parte das reuniões evangélicas é antropocêntrica; isto é, prioriza o ser humano. Não vejo nos condutores de cultos o interesse em estimular os crentes a louvarem a Deus pelos Seus atos poderosos. Além disso, líderes, pregadores e cantores têm reunido o povo ao redor de si, e não da Rocha da salvação. Sabe o que é isso? Antropolatria.

No Decálogo está escrito: “Não terás outros deuses diante de mim”; “Não farás para ti imagens de escultura”; “Não te encurvarás a elas nem as servirás”. Esses mandamentos são reprisados no Novo Testamento. Mas é importante observar que o conceito de idolatria foi ampliado (Gálatas 5.20; 1 Coríntios 5.11; 10.7, 14 e 1 João 5.21). Para os israelitas, tais mandamentos aludiam à adoração aos deuses de ouro, prata, madeira, barro etc. Quanto a nós, qualquer tipo de idolatria nos é vedado (1 Coríntios 10.7, 14 e 1 João 5.21). É claro que não é pecado ser admirado, ter fama –, pois até o Senhor Jesus era famoso (Mateus 14.1), a ponto de a Sua fama correr por toda parte (Lucas 4.14). Nada tenho contra as pessoas que admiram cantores, pregadores ou pastores. O apóstolo Paulo incentivou os coríntios a imitá-lo (1 Coríntios 11.1). O que é errado para um cristão é priorizar a fama e se portar do mesmo modo que as celebridades, como Lady Gaga e Justin Bieber.

Qual é a finalidade de um fã-clube? Alimentar a fama de astros. E quem tem isso como motivação para o seu ministério não se porta como um verdadeiro adorador, e sim como um popstar. Temos liberdade, é evidente, para admirarmos pessoas, mas é inegável que tem havido idolatria no meio evangélico. Alguns “adoradores” são, para muitos crentes, mais populares que Jesus Cristo. Quando eles chegam, todos ficam maravilhados, e os holofotes se voltam para eles. As estrelas chegaram! Certo pregador ficou sem graça, em um grande evento, pois no meio da exposição da Palavra, uma popstar chegou, e todos se viraram para vê-la, deixando o expoente sem graça. Este articulista já passou por apuros em alguns congressos que têm a participação de cantores famosos. Muitas pessoas aglomeram-se à frente do púlpito – que se transforma em palco – para tirar fotos de seus ídolos. E, depois, saem na hora da mensagem. Isso não é idolatria?

Entristeço-me quando vejo clubes de fãs no meio evangélico, visto que Deus não dá a Sua glória a ninguém (Isaías 42.8). Se os cantores tem uma boa voz, e os pregadores falam bem, com unção do Espírito, é porque o Senhor os têm abençoado (Isaías 50.4). Podemos, sim, admirar pregadores e cantores – repito –, porém considera-los intocáveis ou cultuá-los de modo tácito ou explícito é um erro lastimável. Eles são falíveis e podem errar (aliás, estão errando) como qualquer pessoa. Inerrante é a Palavra de Deus (1 Pedro 1.24-25). Infalível é o Senhor Jesus, o Verbo de Deus (João 1.1), no qual devemos fixar os nossos olhos (Hebreus 12.1-2). A despeito de todos nós gostarmos de ter o trabalho reconhecido, nosso objetivo maior é agradar a Deus (Gálatas 1.10).

Segue-se que o conceito de fã-clube é secular, mundano, efêmero, e a Palavra de Deus nos orienta a não nos conformarmos com o mundo (Romanos 12.1, 2 e 1 João 2.15-17).  É possível ser, ao mesmo tempo, um servo do Senhor e um popstar? Quando pensamos em celebridades, logo lembramos de características que não combinam com a vida cristã, como vaidade excessiva, exigências, imodéstia e extravagância. Infelizmente, temos os nossos cantores, pregadores e pastores que não gostam de participar do culto desde o começo; que pedem para ficar em uma sala VIP, com ar condicionado, até que chegue o momento de se apresentarem ao público. E, quando entram em cena, vários irmãos ficam apinhados para tirar fotos. Esses astros incentivam o comportamento de fã e contribuem para o aumento de cristãos mal orientados que idolatram cantores, pregadores e pastores. Muitos desses irmãos ficam deslumbrados por terem tocado em seu ídolo. Tenho visto até caso em que eles comentam: “Consegui tocar na mão dele!” Isso não é idolatria?

Estevão, quando pregou às autoridades que o inquiriam acerca de suas declarações, não teve boa receptividade. Todos os ouvintes taparam os ouvidos E, ao final de sua exposição, ele foi apedrejado (Atos 7.51-57). Alguém diria: “Que fracassado!” Mas ele, cheio do Espírito, viu o Senhor Jesus em pé, ao lado de Deus Pai, em sinal de aprovação (v55). Conheço muitos pregadores e cantores que, à semelhança de Estevão, são verdadeiramente servos do Senhor. E conheço outros que agem como celebridades hollywoodianas. Estes a mim não comunicam nada, pois já notei que dão sempre os mesmos berros, falam as mesmas línguas estranhas. Mecanismo e artificialismo puros! Será que essas celebridades se esqueceram de que antes de serem cantores, pregadores ou pastores precisam ser crentes em Jesus Cristo e servos de Deus?

Diante do exposto, gostaria de pontificar que adorador não é ídolo; adoração não é extravagância; culto não é show; povo de Deus reunido não é plateia de fãs; púlpito não é palco; e pregação não é animação de auditório. Que os pregadores, os cantores e o povo de Deus, em geral, amadureçam e deixem de lado as efemeridades (Hebreus 5.12-14), a fim de que todos agrademos ao Senhor Jesus. O nosso Mestre não nos chamou para sermos ídolos ou fãs. Isso não leva a nada. Ele nos tem chamado para sermos Seus discípulos e andarmos como Ele andou (1 João 2.6 e 1 Pedro 2.21). Renunciemo-nos a nós mesmos e tomemos, a cada dia, a nossa cruz, como verdadeiros seguidores do Rei dos reis e Senhor dos senhores (Mateus 16.24). Amém?

Por, Ciro Sanches Zibordi

One Response to Idolatria no meio evangélico

  1. Ronaldo disse:

    Estudo sobre idolatria

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »