Faremos obras maiores que as de Jesus

Que obras são essas que Jesus disse que Seus discípulos fariam maiores que as dEle?

Faremos obras maiores que as de JesusA resposta a esse tipo de indagação passa obrigatoriamente pela obediência a uma regra inflexível da boa hermenêutica: o estudo contextual. Tal exercício proporcionará, entre outros saberes, o conhecimento da estrutura e propósito do livro. Além disso, mostrará o gênero literário a que o material pertence e, ainda mais importante, qual é a teologia subjacente ao escrito.

Como já é amplamente conhecido, o quarto evangelho é o mais teológico de todos e distingui-se abissalmente dos demais. Não obstante esse reconhecimento, muitos ainda insistem em classificar esse escrito, e os demais evangelhos, como “biografia”. Todavia, em uma análise minimamente séria já é possível identificar, pelo chamado “prólogo joanino” (João 1.1-14), que tal documento não tem caráter biográfico algum. Além disso, por um dos finais do Evangelho joanino, é possível ver que o propósito do texto é justamente produzir fé e confiança em Jesus, o que era, na realidade, o conteúdo da pregação neotestamentária (20.30, 31).

Dividido em dois “livros” e contendo mais de um gênero literário, o Evangelho de João pode ser bem mais estudado, e entendido, quando distinguimos o chamado “livro dos sinais” (1.19-12.50), do “livro da glorificação” (13.1-20.31) e, finalmente, do seu “apêndice” (21.1-25). Onde está situada a perícope, isto é, a porção escriturística, objeto de dúvida e, portanto, de nossa análise? No “livro da glorificação”. Qual é o gênero literário predominante no escrito? Enquanto os acontecimentos do “livro dos sinais” se desenrolam publicamente, o material do “livro da glorificação” consiste, em sua maior parte, de discursos privativos e reservados de Jesus apenas aos seus discípulos (13.31-17.25). Assim, essa porção é classificada, literalmente falando, como “testamento”. É um documento confidencial que deve ser conhecido apenas por aqueles que são íntimos, pois contém conselhos, e “benefícios” do conteúdo. Por isso mesmo, a narrativa mostra que Jesus só inicia seu pronunciamento após a saída de Judas Iscariotes, o traidor (João 13.30, 31).

Assim, chegamos à questão crucial: Que obras são essas referidas por Jesus em João 14.12? Seguindo o raciocínio dos textos de João 5.20 e 9.4, onde a palavra grega para “obras”, ergas, também aparece, e cientes de que a expressão ergon pode ter significado tanto ativo (a realização de uma obra) quanto passivo (a obra realizada), é preciso notar o texto de João 6.28, 29, que contrasta com a fé, tanto para a realização de uma obra quanto para se crer em uma obra já realizada. Isso pode ser visto claramente pelo restante do discurso de Jesus (João 6.30-58). Como a teologia joanina é sumamente cristológica e mostra, entre outros exemplos, Jesus como “o pão vivo que desceu do céu” e “a obra de Deus” consistindo em apenas crer nessa verdade (6.29), é preciso considerar que até mesmo os discípulos tiveram dificuldade em crer no que dizia o Mestre (6.60-71), mesmo vendo os sinais que Ele fazia. Assim, é fato que a crença e a assunção dessa verdade através da pregação, naquele que mesmo sem tê-lo visto ainda assim creram, é uma obra ainda maior do que o próprio Mestre realizara (João 20.29). Isso porque nem sempre a pregação é acompanhada de sinais. Levando em conta o fato de o ministério terreno do Senhor ter tido uma curtíssima duração, e os que o aceitaram já contarem com uma história de dois milênios, é possível pensar também que a expressão “obras maiores” refere-se apenas ao maior número e alcance dessas obras.

Por, César Moisés Carvalho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »