Existe maldição hereditária?

A doutrina da “maldição hereditária” continua sendo propagada, embora muitos a rechacem. No que consistem seus erros exatamente?

Existe maldição hereditáriaEntre os anos 1990 e 2000 presenciamos uma verdadeira enxurrada de ensinos heterodoxos no meio do arraial evangélico. O ensino sobre “Maldições de Famílias” despontou como sendo um dos principais. Multiplicava-se pelo Brasil afora seminários e mais seminários enfocando esse assunto. Por mais de uma vez assisti a cultos onde pregadores de renome nacional conclamavam os crentes a “quebrar maldições que estavam sobre suas vidas”. A ideia por trás desse ensino era a crença de que alguma maldição não quebrada estava por trás da falta de prosperidade na vida do crente.

O escritor João A. de Souza Filho (2009, pp 81, 82), conceituado autor nacional, que defende a doutrina da maldição hereditária diz que recebe muitos questionamentos acerca do texto de Gálatas (Gálatas 3.13-14). Nesse texto, o apóstolo Paulo afirma que Cristo já carregou sobre si todas as maldições. Qual, portanto, a necessidade de carregarmos conosco hoje alguma maldição se Cristo já as levou? Souza Filho responde que “é preciso explicar esse texto à luz de outros semelhantes nas Escrituras. Sim! O Senhor levou sobre si todas as maldições previstas na Lei, aquelas encontradas no livro de Deuteronômio. Meu argumento é que Ele também levou na cruz as nossas dores, os nossos pecados, as nossas enfermidades. Mas ainda sofremos dores, enfermidades e cometemos pecados. Ora, se todas estas coisas foram levadas sobre o Senhor na cruz, porque os crentes ainda são afligidos? Se já estou em Cristo e se Cristo levou sobre si todas as maldições da lei sobre a cruz, por que espíritos familiares continuam a agir no tronco de minha família? Esses demônios não são uma espécie de maldição hereditária? Por que os espíritos familiares continuam a perturbar a vida de muitas famílias, até mesmo de irmãos comprometidos com a Palavra de Deus?”.

O argumento de Souza Filho contém uma falácia lógica – um erro de categoria. Em outras palavras, ele coloca “pecado” e “demônios” na mesma categoria lógica quando na verdade não são. Seu argumento é que se o crente que foi liberto do pecado continua ainda com a possibilidade de pecar, da mesma forma os demônios, como uma espécie de maldição, ainda continuam a atormentar o crente. Dessa forma a doutrina da maldição de famílias continua válida. O argumento se torna inválido quando vemos pelas Escrituras que o pecado faz parte da nossa natureza caída (Romanos 7.17-25), mas os demônios, não!

Como crentes, recebemos o poder do Espírito Santo para subjugar o “velho homem” (Romanos 8.1-13), mas não para erradicá-lo (Romanos 6.6; Efésios 4.17-22). Por outro lado, os demônios não fazem parte de nossa natureza. O pecado e os demônios pertencem a categorias diferentes, por isso agem de forma diferente na vida do crente. Os biblistas indicam que as maldições no Antigo Testamento tem conexão com algumas situações específicas. Vemos em Gênesis 3.14,17, a maldição (hb ‘arar) vem como uma declaração de punição; em Jeremias 11.3 a maldição (‘arar) aparece como um proferir de ameaças; em Deuteronômio 27.15-26 e 28.16-19, caso que ora estudamos, a maldição (‘arar) aparece como uma proclamação de leis. Mas a Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã revela que “eram maldições sobre o desobediente onde quer que ele estivesse, na cidade, no campo, indo ou vindo; sobre sua comida; sobre sua descendência e sobre a prole de seus rebanhos e bandos (Deuteronômio 28.16-19)”. Portanto, a maldição que vem como resultado da desobediência, ocorre quando há uma quebra da aliança. Em Gênesis 3.14, 17, a maldição é consequência da queda do primeiro casal, e em Deuteronômio e Jeremias como resultado da quebra da aliança com o Senhor. Por isso, a bênção está associada à obediência a Deus, e a maldição em conexão à desobediência.

Por, José Gonçalves.

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