Esmirna: fé em meio à perseguição

Esmirna - fé em meio à perseguiçãoLocalizada ao norte de Éfeso, e com uma população de cerca de 250 mil habitantes, a cidade de Esmirna era considerada a mais bela da Ásia Menor. Sua beleza natural era fascinante. Seu esplendor habitava entre o mar e as montanhas. Sua estrutura urbana era modelo para as demais cidades de sua época. O comércio internacional favorecia economicamente a cidade, que era grande exportadora de mirra.

Na condição de centro religioso, em Esmirna eram adorados os deuses Cibele, Apolo, Asclépio, Afrodite e Zeus. O culto ao imperador, que incluía a queima de incenso a imagem de César, foi lá bastante difundido e praticado 1. Conforme Kistemaker: “Em 26 d.C., ela dedicou um templo ao imperador Tibério e se gabava de ser a principal no culto ao imperador. Essa jactância agradou aos administradores romanos, os quais fomentavam a paz e a unidade que caracterizavam o espírito de Roma por todo o império. William Barclay escreve que, para tornar o espírito de Roma tangível, os romanos apresentaram o imperador como sendo sua incorporação, e assim surgiu o culto ao imperador. Ainda que alguns dos primeiros imperadores discordassem de tal culto, a população o ativou ao ponto de tornar os imperadores divinos” 2.

Não há registros específicos da chegada do Evangelho e da fundação da igreja em Esmirna, mas podemos sem problema algum enquadrar tais fatos no contexto de Atos 19.10.

Como na grande maioria dos casos, na medida em que foi estabelecida pela pregação do Evangelho, a igreja em Esmirna começou a provocar e a vivenciar algumas tensões, inquietações e desconfortos, que aos poucos se transformou numa violenta e cruel perseguição.

A Perseguição à Igreja em Esmirna

“Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver” (Apocalipse 2.8).

Os historiadores sugerem que o bispo da igreja em Esmirna por ocasião desta carta era Policarpo (69 d.C – 155 d.C.). Como falar de Esmirna e não citar esse grande mártir da história do cristianismo?

Policarpo fora discipulado por João. Ao se tornar pastor da igreja em Esmirna manteve-se fiel à Palavra, mesmo sendo sabedor da possibilidade do martírio.

No ano de 155 ainda estava vigente a política de Trajano sugerida ao governador Plínio, onde os cristãos não eram perseguidos, mas se delatados por alguém, e se negavam a adoração aos deuses ou ao imperador, eram submetidos aos tribunais romanos, condenados, castigados e martirizados 3.

Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, nos narra alguns detalhes do martírio de Policarpo, registrados numa correspondência enviada pela igreja em Esmirna às igrejas de Ponto. Antes de relatar os fatos relacionados ao martírio de Policarpo, na referida correspondência se encontra detalhes sobre os métodos empregados pelos martirizadores dos crentes de Esmirna:

“Os que postavam à volta ficavam tomados de assombro ao vê-los lacerados por chicotadas, expondo o próprio sangue e artérias, de modo que a carne encerrada nas partes mais internas do corpo e as próprias entranhas ficavam à vista. Eles eram deitados sobre conchas do mar e sobre pontas afiadas de lanças sobre o chão. E depois de passar por todo tipo de punição e tormento, eram por fim lançados às feras” 4.

Foi a postura de um jovem nobre chamado Germânico diante de seu próprio martírio, que a fúria dos perseguidores se voltou incontrolavelmente contra o líder da igreja em Esmirna. Persuadido por muitos e de várias maneiras para que negasse a sua fé em Cristo, e que prestasse culto ao imperador, Policarpo caminhou firme em direção ao estádio onde seria martirizado. Quando o governador lhe pediu para que negasse a Cristo, Policarpo lhe respondeu: “Oitenta e seis anos tenho lhe servido, e ele nunca me fez mal; e como posso agora blasfemar meu Rei que me salvou? […] Ameaça-me com fogo que queima por um momento e logo se extingue, pois nada sabes do julgamento que virá e do fogo da punição eterna reservada para os perversos. Mas, por que te demoras? Faze o que desejas” 5. As palavras de Policarpo enfureciam cada vez mais seus algozes. Como de costume, o arauto se dirigiu ao centro do estádio e proclamou: “Policarpo confessa que é cristão”.

Quando nos deparamos com as narrativas acima, passamos a entender a necessidade da ênfase dada no início da carta à igreja em Esmirna à morte e ressurreição de Jesus, que certamente contribuiu para ajudar aqueles crentes fiéis a superarem o medo natural da morte e do martírio.

O exemplo da igreja em Esmirna

“Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás” (Apocalipse 2.9).

Jesus declara conhecer a real condição daquela igreja, que implicava em constante e grande aflição (gr. thlipsin), e em extrema pobreza (gr. ptocheian), mas que era espiritualmente e essencialmente rica.

A condição da igreja em Esmirna promove a desconstrução dos fundamentos da Teologia da Prosperidade e da Vitória Financeira, fortemente difundido nas Assembleias de Deus no Brasil pelo pastor Silas Malafaia, através de seu programa de televisão. Os crentes de Esmirna eram fiéis, mas tal fidelidade provocou a tribulação e pobreza material deles, visto que na próspera cidade de Esmirna muitos foram obrigados a deixar os empregos, tendo também os seus bens confiscados. Como bem adverte Kistemaker: “Isso não significa que os crentes devem atrair perseguição e dificuldades a fim de ficarem ricos de possessões espirituais; antes, Jesus quer que sejam fieis, a Ele e à Sua Palavra, mesmo quando passam por dificuldades e abuso, porque então serão espiritualmente bem-aventurados” (Mateus 5.11, 12; Tiago 2.5).

É preciso ter cuidado para não incorrermos no erro da Teologia da Prosperidade e da Teologia da Miserabilidade.

O tipo de fé vivenciada pela igreja em Esmirna deve provocar em nós uma reflexão sobre o tipo de fé que vivenciamos em pleno século XXI. Até que ponto não estamos praticando algum tipo de idolatria pós-moderna? Podemos não estar cultuando o “imperador”, mas será que não cultuamos o poder do imperador? Quando pastores abandonam o seu ministério, ou dividem o pastoreio do rebanho com a política secular, não está aí presente o culto ao poder? Quando líderes fazem acerto com políticos em bastidores, chegando a negociar os votos da igreja em períodos de campanha eleitorais, visando em alguns casos tirar proveito em benefício próprio, de familiares e de amigos, não estamos queimando incenso aos imperadores? Será que não trocamos os deuses em forma de estátuas e imagens, por deuses em forma de bens e recursos materiais?

O atual assédio dos políticos mundanos em torno da igreja evangélica brasileira, não deveria provocar em nós desconfiança? Por que não éramos assediados quando não passávamos de um pequeno grupo dos “bíblias”? Por que nossos templos não eram visitados por vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes na época em que não tínhamos tanta expressividade numérica e visibilidade social?

Será que diferente da igreja em Esmirna, não fomos seduzidos, embriagados, entorpecidos e enganados pela glória e honra do presente século, oferecida por Satanás ao próprio Cristo (Mateus 4.8-9).

Qual é a real condição da igreja evangélica brasileira, e em especial as Assembleias de Deus, diante daquele que não apenas conhece todas as obras, mas que conhece também os nossos desejos, vontades, motivações e interesses?

Que a igreja em Esmirna nos sirva de exemplo e referencial de fidelidade a Deus, coragem e determinação. “[…] Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte” (Apocalipse 2.10c-11).

Notas

1 – LAWSON, Steven J. As Sete Igrejas do Apocalipse, 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 97
2 – KISTERMAKER, Simon. Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 163-164
3 – GONZÁLES, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo: a era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 70, v. 1
4 – CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da igreja cristã. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 134
5 – Ibid., p. 137

Por, Altair Germano.

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