Em busca do sangue redentor

Em busca do sangue redentorO título desta coluna repete o de um antigo folheto evangelístico, literatura destinada aos judeus, distribuída gratuitamente pela Sociedade Brasileira de Folhetos e pela Sociedade Brasileira Amigos de Israel. Seu conteúdo é a expressão emocionada de um ancião, durante um parlamento ocorrido na cidade de São Francisco (EUA), durante as comemorações de Pessach (Páscoa). Na ocasião, o idoso levantou-se e, com autoridade, declarou: “Vós vos esqueceis, meus irmãos, de que tendes tudo, exceto aquilo que Jeová requer em primeiro lugar. Ele não disse: ‘Quando vir vossas casas limpas do fermento, ou quando vos vir comendo os pães asmos e o cordeiro, ou quando fordes à sinagoga.’ Sua Palavra diz: ‘Quando eu vir o sangue, passarei por vós.’ Ah, meus irmãos, vós não podeis substituí-lo. Precisais do sangue, Sangue, SANGUE!”As palavras ainda deviam retumbar nos corações dos ouvintes enquanto o homem narrava a experiência de sua busca pessoal, ornada por sinceros e profundos estudos das Escrituras, encontrando nelas o fortalecimento de sua angústia, diante da verdade de que sem sangue não há expiação para o pecado. A leitura da Torah apenas aumentava sua certeza, ano após ano, enquanto batia no peito, clamando por perdão, compreendendo que o próprio Senhor havia fechado a possibilidade do sacrifício, no único lugar na terra onde se ousaria realizá-lo – o Templo. A observância ao Talmude, a permanência nas regras e o mérito dos pais não pareciam suficientes para substitui-lo e prover a expiação. Foi então, quando aquele judeu deixou a Terra de Israel e passou a residir em Constantinopla, que ouviu, numa das estreitas ruas da cidade, a voz de alguém que proclamava: “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado”. O impacto daquelas palavras transformou-lhe o coração, e o entendimento veio à sua mente. Por isso, confessou, naquela primavera em São Francisco, que havia “finalmente encontrado” o perdão para os seus pecados e o pagamento de suas culpas. “Confiei nEle e, agora, gosto de ler o Novo Testamento para observar como todas as minúcias da lei foram cumpridas em Jesus. Seu sangue foi derramado pelos pecadores. Satisfez a Deus e é o único meio de salvação, tanto para os judeus como para os gentios.”

A longa referência ao folheto deve-se ao valor que lhe atribuo. Não posso recordar o que me atraiu a ele. Talvez tenha sido a pequena figura de um rabino, com sua fronte ampla, o perfil amável… Talvez a figura tenha evocado em mim a lembrança de meu pai, quando pendia a fronte, reclinando-se sobre os livros, roçando-lhes as páginas com os fios da longa barba… Mas, qualquer que tenha sido o chamamento à leitura, a autoria dessa bendita condução cabe ao Santo Espírito de Deus, desejoso de tocar minha alma com o testemunho de um filho de Abraão. As palavras dele somaram-se a outras e outras, com as quais fui amorosamente conduzida à fonte vermelha e viva da salvação. Pois o sangue de animais ou as cerimônias religiosas não alcançam o preço com que cada alma humana foi avaliada, a saber, o preço do Filho do Eterno Deus.

Sangue e vida são conceitos paralelos e complementares. Quando a Bíblia declara que o homem tornou-se nefesh, não se refere a uma parte do ser, mas à figura total dele, portanto, a toda a amplitude que a expressão ‘ser humano’ delineia. Nefesh não é algo que alguém possua, portanto, não se trata da psyquê grega – não diz respeito apenas à esfera intelectual nem à emocional. Nefesh não é algo, é alguém, uma pessoa, um indivíduo. Pela Palavra sabemos também que a nefesh da carne está em seu sangue. A força para a existência da nefesh, por sua vez, está no sopro, no vento, no espírito doado por Deus ao homem e retornado a Ele quando o homem tomba sobre terra. O Senhor envia seu ruach (espírito) e os homens são criados. Assim, o fôlego do homem pertence a Deus, provém de Deus e retorna a Deus. Uma vez que há um paralelismo entre o termo ruach e o conceito de plano, propósito, objetivo, cada vida humana comporta um plano e toda a vida constitui um propósito. Como a respiração e o sangue estão intimamente ligados e a vida pertence a Deus, cada delito de sangue é um atentado contra o Criador. Tão forte e valiosa é a vida contida no sangue que o seu clamor permanece vivo e atuante diante do Altíssimo mesmo depois de derramado. Clama o sangue de Abel, somam-se a ele as vozes em coro de gotas e gotas rubras do sangue das crianças mortas pelo temor de Faraó e pela ira de Herodes, juntam-se a elas o sangue do vinhateiro Nabote e do piedoso Estêvão. A Terra está cheia de sangue, toda a criação invoca a justiça celestial.

O desrespeito à vida, ao sangue, ao fôlego divino, reforça-se na arrogância dos princípios utilitarista (somente deve viver aquele que é útil), hedonista (a vida somente tem sentido se revestida de qualidade, sempre entendida a qualidade como saúde, posse de bens, conforto e prazer) e positivista (a ciência, como se fora um deus, pode dispor da vida, descartando-a ou oferecendo ao homem a ilusão da imortalidade). Contra isso, os santos do Senhor têm o compromisso de afirmar o mistério da vida como uma dádiva, impossível de ser reduzida a objeto de consumo ou de descarte. Cada mínimo fôlego é pela Igreja recebido como um plano precioso do Criador, pelo qual devemos ser gratos, recebendo e aceitando com a alegria sermos coparticipantes da graça divina.

Está, portanto, intrínseca no homem a revelação do valor do sangue. Assim como o produto da fonte medular alimenta a vida física, uma fonte superior, jorrando do Calvário inicia e sustém nossa vida espiritual. Do tronco de Jessé, da raiz de Davi, chegou-nos um alento que nos vivifica, um manancial que jorra em direção ao mundo pecador, pronto a solucionar o dilema da culpa gerada pelo pecado. A fonte de justiça está aberta. Ali o sangue, a própria vida de Deus, nos é franqueado.

Equivoca-se quem pensa que o principal temor de Israel, no momento, são os recentes acordos firmados no sentido de serem apoiadas as iniciativas iranianas quanto ao desenvolvimento da tecnologia nuclear em seu país, cuidando que tais progressos signifiquem destruição e grande mortandade. A perspectiva de mais e mais poderosas armas nas mãos do inimigo não pode ser motivo de festa – não constitui, no entanto, o principal temor. Este se manifesta de outra forma, superior em expectativa e angústias quando, ano após ano, em todo o cerimonial de Pessach, ou no Dia da Expiação, batendo no peito, conhecendo a necessidade de ser perdoada, a alma judia clama e não encontra resposta: Onde está o Sangue Redentor?

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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