Deus manda matar os infiéis?

Deus manda matar os infiéisCenas de indescritível barbárie têm sido mostradas nos meios de comunicações ocidentais nos últimos meses, causando espanto e estarrecimento naqueles que assistem as tétricas imagens. Uma ala extremista do islamismo – auto denominada Estado Islâmico (EI) – adepta da chamada jihad (guerra santa) global, tem feito uso de ações genocidas, perpetrando milhares de assassinatos de civis com requintes de crueldade, incluindo decapitações gravadas em vídeo, e posteriormente postadas na internet.

O objetivo último do grupo jihadista é o estabelecimento de um califado nas regiões de maioria sunita (ramo majoritário do islamismo) do Iraque e da Síria, países localizados no Oriente Médio. A ideologia do EI, alicerçada numa interpretação anti-ocidental extrema do Islã, obriga todos aqueles que vivem nas áreas que controla – sob pena de tortura, mutilação e até mesmo de morte – a se converter ao islamismo, e viver de acordo com os preceitos do Islã pelo viés sunita e da sharia (lei religiosa que regula os aspectos públicos e privados da vida do seguidor do islamismo). Todos os que não concordam com a ideologia do EI são considerados infiéis (no caso de não mulçumanos) e apóstatas (no caso de mulçumanos), tornando-se alvo da violência religiosa, com caráter de limpeza étnica, por meio de execuções a sangue frio com extrema brutalidade, conforme descrito acima. Tudo em nome e obediência a Alá, assim dizem os seguidores da ala radical do Islã, termo que literalmente significa “submissão” (a Deus).

Discussões acaloradas estão ocorrendo em profusão em diversas esferas da sociedade. No âmbito religioso, inquirições instigantes têm sido elaboradas: Deus ordena que matemos os infiéis? Os muçulmanos fanáticos teriam respaldo no Alcorão (livro sagrado do islamismo) para matarem os que não seguem o islamismo, do mesmo modo como no Antigo Testamento Deus ordena a morte dos povos cananeus? Como conciliar esta ordem com as palavras de Jesus quando disse que veio salvar o ser humano? O presente artigo tem por finalidade tratar a dita questão religiosa.

Inicialmente, é de suma importância corrigir um grande equívoco cometido nas inquirições acima, qual seja, equiparar canonicamente os dois documentos escriturísticos (a Bíblia e o Alcorão), como se ambos fossem expressões idênticas e fidedignas da revelação de Deus ao homem para a sua salvação. Uma das características basilares do monoteísmo (crença em um único Deus) é o chamado exclusivismo religioso. De acordo com N. Geisler, na sua obra Enciclopédia de Apologética, página 56, “… já que proposições mutuamente excludentes não podem ser ambas verdadeiras, então todas as religiões mundiais opostas são religiões falsas. […] Portanto, apenas o cristianismo é a verdadeira religião.”

O teísmo cristão ortodoxo reconhece a Bíblia como a única fonte inerrante e infalível da revelação de Deus ao homem, e por isso somente o cânon cristão composto de 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento tem a prerrogativa exclusiva de ser chamado A Palavra de Deus (Mateus 15.6; Romanos 3.2; 1 Pedro 1.23; Hebreus 4.12). Em razão de sua origem e inspiração divina, as Escrituras reivindicam, sem necessidade de verificação, ou autorização humana, os seus próprios atributos: perfeitas (Salmos 19.7), fiéis (Salmos 19.7b), retas (Salmos 19.8), puras (Salmos 19.8), eternas (Salmos 119.89), verdadeiras (Salmos 119.86), justas (Salmos 19.9) e santas (2 Timóteo 3.15). Por conseguinte, a premissa inicial, objeto da discussão acerca da ordem dada pelo Deus da Bíblia quando comparada (equiparada) com a ordem dada por Alá no Alcorão torna-se nula e ilegítima, tendo em vista que a Bíblia não pode ser nivelada ou equiparada a nenhuma outra literatura, quer religiosa, quer secular, como regra de fé e prática de vida.

Isto significa dizer que, a despeito de uma boa ou má exegese – e consequentemente interpretação – do Alcorão, os seus ensinamentos são espúrios e contrários à verdade. Mesmo quando uma interpretação moderada do texto defende e incentiva a paz, é uma falsa paz porque não está fundamentada na verdadeira paz, que somente Jesus Cristo, o Príncipe da Paz e o único mediador entre Deus e os homens, pode conceder (Isaías 9.6; João 14.27; 1 Timóteo 2.5).

Em seguida, feita a correção acima, podemos então voltar a nossa atenção para o relato bíblico acerca da destruição dos povos cananeus. Antes, porém, ainda se faz necessário expor algumas verdades bíblicas fundamentais no que tange o relacionamento de Deus com a Sua criação. Renomados pensadores, como S. Freud, no século passado, e mais recentemente, Richard Dawkins, por não terem considerado estas verdades, terminaram tendo a sua visão e compreensão sobre Deus totalmente distorcida. Principalmente nos relatos bíblicos do Antigo Testamento, onde alguns veem Deus como um Ser sanguinário, arbitrário e até mesmo vingativo.

A criação, e tudo que nela há (mundos físico e espiritual), é obra das mãos de Deus (Gênesis 1-2; Salmos 19.1; Hebreus 11.3). Perante a Sua criação, Deus é ao mesmo tempo transcendente (independente, separado e superior) e imanente (provedor, sustentador e governante). Estas duas realidades são regidas pela vontade de Deus, tanto no aspecto diretivo (soberano) (Êxodo 19.4-6; Salmos 33.6-11; Isaías 45.18; Romanos 11.1-10), quanto no permissivo (interativo) (Gênesis 3.1-6; 12.1-5,10; 2 Reis 20.5,6; Jó 1-2; Romanos 8.28). Os propósitos de Deus são eternos (Efésios 3.11; 2 Timóteo 1.9), baseados em Seu mui sábio e santo desígnio (Jó 42.2; Romanos 12.2), originados na Sua liberdade (Daniel 4.35; Romanos 9.21), tendo como finalidade a Sua glória (Isaías 40.5; 43.7; Romanos 15.6; 1 Coríntios 6.20).

Com o nosso entendimento aclarado por tais verdades bíblicas, podemos agora refletir sobre a questão dos povos cananeus. É muito relevante observar que entre a declaração divina proferida (Gênesis 15.13-16) e a ação consumada, conforme registrado no livro de Josué – e que, lembremos, era também uma luta de sobrevivência do povo de Israel na nova terra: ou lutavam contra os cananeus ou morriam pelas suas mãos – ,  transcorreram mais de quatrocentos anos. Destaca-se na declaração proferida a expressão: “porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia” (Gênesis 15.16). Isso significa dizer que o quadro (sentença) poderia ser alterado caso houvesse mudança na trajetória moral e espiritual daqueles povos. Como paralelo, séculos mais tarde a Bíblia nos revela uma alteração num julgamento de destruição proferido para o povo assírio nos dias do profeta Jonas (Jonas 1.2;3.210). É a chamada misericórdia divina (coração compassivo).

Ainda nos dias de Abraão, apesar da extrema depravação moral e espiritual dos habitantes das cidades cananéias de Sodoma e Gomorra (Gênesis 13.13), bastaria que dez justos fossem encontrados ali para que Deus poupasse as duas cidades (Gênesis 18.32; 19.29). O quadro moral e espiritual dos povos cananeus, porém, avançou numa espiral sem volta e escala sem igual, muito bem ilustrado pelas palavras do Apóstolo Paulo em Romanos 1.18-32, e fartamente comprovado por descobertas arqueológicas.

Embora Deus não tenha enviado profetas para aqueles povos, como fez com os ninivitas, a natureza física (Salmos 90.2; 94.9,10; Hebreus 3.4), a natureza humana (Salmos 42.1,2; Romanos 2.14,15), e a própria História (Gálatas 4.4; Daniel 2.7; 4.17), são meios e evidências, ainda que de forma limitada, da existência de um Criador que ama e anela ter comunhão com as Suas criaturas, o que os torna inescusáveis (Romanos 1.20). O ocorrido com aquela geração é a expressão de um princípio bíblico chamado lei da semeadura (Gálatas 6.7).

Precisamos entender que, de certo modo, não é Deus exatamente que decide quem será abençoado ou quem será amaldiçoado. Na verdade, somos nós que nos colocamos na posição de sermos abençoados ou amaldiçoados. Se decidirmos pelo Monte Gerizim, símbolo da obediência (a Deus e Seus preceitos), certamente as bênçãos do Senhor nos seguirão (Deuteronômio 27.12; 28.1.14). Porém, se decidirmos pelo Monte Ebal, símbolo da desobediência (a Deus e Seus preceitos), toda sorte de maldições assolarão a nossa vida (Deuteronômio 27.13; 28.15-68). Em ambos os casos, fazemos uso do livre-arbítrio no exercício da nossa vontade, o que nos torna seres morais e responsáveis pelas nossas escolhas.

Por fim, independente da ilegitimidade e ilicitude nas comparações e paralelos entre a Bíblia e o Alcorão, as atrocidades cometidas pelo EI, onde missionários, pastores e cristãos leigos estão sendo massacrados, juntamente com milhares de pessoas inocentes, não devem nos impedir de identificar o verdadeiro inimigo (2 Coríntios 4.4; Efésios 6.12; João 8.44;10.10). Não somente grupos extremistas como o EI, mas também centenas de milhões de muçulmanos espalhados por todo o mundo devem ser alvos da evangelização da Igreja. Mais do que nunca, são atuais as palavras de Jesus Cristo: “Ser-me-eis testemunhas” (Atos 1.8 – literalmente, “mártires”).

Por, Gil Monteiro Silva.

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