Deus, a família, a igreja e os perdidos

Deus, a família, a igreja e os perdidosSabemos que o ser humano é um ser altamente relacional, porque assim nos fez o Criador. Por isso, a necessidade de se comunicar, desde a invenção da escrita até os dias atuais com a internet e redes sociais. Porém, envolvimento vai além da mera comunicação. Requer convivência, compartilhar experiências. O oposto disso – o isolamento – é prejudicial ao ser humano. O professor Philip Zimbardo, psicólogo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, afirma: “Não conheço nada mais mortífero do que o isolamento. Nenhuma outra influência tem ação mais destrutiva sobre a saúde mental e física que o afastamento entre as pessoas. Já se descobriu que esse é um dos fatores centrais no surgimento de moléstias como depressão, paranoia, esquizofrenia e atos como estupro, suicídio, assassinato em massa e muitos outros distúrbios”. Isolamento nem sempre é geográfico. Pode se dar até em lares de três pessoas. Será que nossas relações são superficiais? Muitos não preferem hoje papos virtuais a reais?

Deus não criou o homem para viver solitário (Gênesis 2.18). Mas, o que é “envolvimento”? O dicionário define estar envolvido como “ser participante de uma relação bem próxima, ter conexão, estar incluído”. Quando nos envolvemos com alguém, temos conexão com ele. Há quatro áreas do envolvimento:

1) Envolvimento com Deus – Este certamente é o mais importante. Resulta da salvação em Jesus (Romanos 5.1). No presente, implica nosso caminhar diário com Cristo (Atos 9.31), buscando sempre Deus.

2) Envolvimento com a família – Pais, filhos, irmãos, parentes, cônjuges, sejam cristãos ou não. Como os estamos ajudando? Queremos trazer o mundo para cristo, mas estamos ajudando os de nossa própria casa a chegarem mais perto de Jesus? (Gênesis 12.3). Temos real intimidade e proximidade com eles?

3) Envolvimento com não-cristãos – Trabalhamos com eles; vamos à faculdade com eles; vivemos perto deles. Se não nos envolvermos com eles, como os traremos a Cristo? Muitos tem dificuldade em saber até que ponto podem se envolver com não-cristãos. Jesus disse: “vós sois a luz do mundo” (Mateus 5.14). A luz brilha na escuridão, mas cuidado para que esta não venha a apagar a maravilhosa luz de Jesus em nós.

4) nvolvimento com outros cristãos – Geralmente, estas pessoas são escolhidas dentre as que frequentam nossa igreja. Sem eles seria uma peregrinação mais difícil e desanimadora frente à vida. Aguém já sugeriu que somos um bando de porcos-espinhos numa fria noite de inverno. O frio nos força a aproximarmo-nos uns dos outros, formando um grupo para nos mantermos aquecidos. Mas, ao começarmos a nos aconchegarmos, nossos pontiagudos espinhos espetam uns nos outros, nos afastando. E pouco tempo depois, começamos a sentir frio novamente. Aconchegamo-nos uma outra vez para nos aquecer e de novo nos pomos a espetar e picar uns aos outros. E assim ficamos nessa estranha rítmica “dança tribal”. Não podemos negar o fato: precisamos uns dos outros e, no entanto, estamos sempre distribuindo alfinetada mútuas. Como romper essa síndrome do “proco-espinho”? Precisamos urgentemente de verdadeira comunhão.

O texto de Atos 2.42 me chama bastante atenção. No contexto, temos a igreja que acabara de nascer. Mais ou menos 3 mil novos-convertidos nas ruas de Jerusalém. Eles não tinham muito em que se apoiar – não tinham prédios, muitos pastores, coral jovem, congressos e nem mesmo uma versão completa da Bíblia. O que fizeram, então? Perseveravam na instrução dos apóstolos, na oração, no partir do pão e na comunhão (Atos 2.42-43).

Esses cristãos tinham em comum o riso e o pranto, gozos e alegrias. Essa comunhão é mencionada cerca de 20 vezes no Novo Testamento e é expressa em duas direções: 1) partilhar coisas materiais; 2) partilhar um projeto, um sucesso, um fracasso, uma necessidade, um sofrimento.

Essa comunhão bíblica não se vive sozinho. Deus quer que seus filhos se envolvam profundamente uns com os outros (Colossenses 3.13). Deus quer que rompamos o isolamento, a começar no lar (Romanos 12.9-21).

Não podemos usar as desculpas “Sou muito ocupado”, “Não preciso de ninguém”, “Se chegar perto posso te machucar”. A verdade é que o Corpo de Cristo precisa de envolvimento. Em 1 Coríntios 12.25-27, vemos pelo menos três características do envolvimento verdadeiro: espontaneidade, vulnerabilidade e responsabilidade.

1) Espontaneidade – “Para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (v25). Acho excelente que Deus se expresse dessa  maneira: “haja”, Ele não diz “Faça isso, senão…”. Segundo o escritor Charles Swindoll, “essas palavras empregadas no versículo sugerm numa disposição espontânea. Quando Deus pede um envolvimento, não é um envovimento forçado, nunca é imposto, mas brota naturalmente”. E Deus cria as condições para que o nosso envolvimento seja expontâneo. Nos versículos 12 a 27, Ele faz uma analogia entre nosso corpo e a igreja: “Deus colou os membros no corpo, cada um deles como quis (v18), dando muito mais honra ao que tinha falta dela (v24, para que o olho não diga a mão: Não tenho necessidade de ti, nem ainda a cabeça, aos pés: Não tenho necessidade de vós (v21), para que não haja divisão no corpo (v25)”. Deus está dizendo: Não importa se o que você faz pela minha obra é ou não reconhecido pelo homem. Para mim e para a igreja, todos são igualmente importantes. ‘Para que não haja divisão no cropo’ (v25)”.

2) Vulnerabilidade – “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele, e se um deles é honrado, com eles todos se regozijam” (v26). Aquele que se envolve partipa genuínamente do sofrimento alheio; está vulnerável, exposto a ferir-se, porém participa também da honra alheia, sem inveja, com alegria verdadeira. Larry Crabb diz em seu livro De Dentro para Fora: “É pecado de autoproteção dizer a palavra branda ao sofrimento alheio quando motivado pelo medo da ameaça ao seu conforto pessoal”.

Veja Marcos 14.3. Muitas vezes entramos na igreja um a um, como vazos de alabastro individuais: contidos, autosuficientes, encerrados em si mesmos, um conteúdo não revelado e que não exala perfume. Infelizmente, nos preocupamos muito com o exterior (roupas, participação, posições etc), quando um envolvimento verdadeiro não é superficial. É preciso quebrar o vaso. E o que acontece depois? O mesmo que aconteceu com o vaso daquela mulher: o conteúdo se evapora. E nunca mais você pode tê-lo com você, porém muitos vão sentir o aroma e ser impactados com isso.

3) Responsabilidade – “Ora, vós sois corpo de Cristo, e, individualmente membros desse corpo” (v27). Somos membros do Corpo de Cristo. Somos todos igualmente importantes para o Corpo (igreja). Somos tão importantes para outros membros como eles para nós. É um conforto saber que amamos e somos amados, que nos importamos com quem também se importa com a gente, principalmente neste mundo de isolamento e anonimato em que vivemos. Porém, em muitas igrejas, é fácil alguém ficar totalmente “perdido” em meio à multidão e ao movimento. Ela pode se tornar um rosto sem nome. Quantas vezes demoramos semanas e até meses para perceber que alguém não esta mais participando conosco?

Envolvimento implica sermos responsáveis uns pelos outros, pelas pessoas isoladas e perdidas que precisam da gente e das quais nós também precisamos. E isso começa nos lares. Envolvimento não pode ser visto como mero passatempo. É questão de sobrevivência da igreja e da família.

Por, Henrique Pesch.

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