Declaração ou profecia?

Declaração ou profeciaHoje em dia é possível ver de tudo um pouco nos arraiais evangélicos: desde bizarrices a sandices em nome da fé e da manipulação das massas. A moda agora, embora não seja nenhuma novidade, é a famosa frase dita por pregadores evangélicos: “vire para o seu irmão e profetize”. Embora, a meu ver, interagir com o ouvinte não seja de todo ruim, classificar como profecia tais palavras é perigoso demais. Geralmente tais falas, são oriundas da falta de conteúdo bíblico do pregador durante a exposição da mensagem. Para preencher tempo e envolver emocionalmente a plateia, esses preletores lançam mão dessas táticas e falas que na sua maioria, servem apenas para provocar emoções e frenesi na assistência.

Em muitas congregações atualmente o ensino dominante consiste em profetizar mensagens que Deus não enviou, e então, como diz as Escrituras Sagradas, ainda fazem o povo esperar o cumprimento das tais “profecias”, e o resultado é único: verdadeiras multidões passam a confiar em suas próprias palavras, confissões e declarações e não na Palavra do Senhor.

Será que podemos mesmo profetizar o que vem à nossa mente e tal conteúdo irá mesmo acontecer? Podemos determinar, declarar, confessar as nossas vontades com nossa boca e realmente acontecer? Vejamos o que a Bíblia diz a respeito: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.21).

A profecia, como dom do Espírito Santo é detalhada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12 a 14. A igreja em Corinto experimentava grande confusão a respeito dos dons espirituais. Os crentes de Corinto tinham dons espirituais (1 Coríntios 1.7), mas muitos eram imaturos, insubmissos, ignorantes da doutrina reveladora dos dons, além de carnais. Em uma igreja é possível haver crentes fervorosos, que gostam de movimento e agitação sem, contudo, haver espiritualidade real, advinda do Espírito Santo. Às vezes o que parece fervor espiritual é mais emocionalismo, resultante de motivações e mecanismos externos. Tal fervor é passageiro, ao passo que a verdadeira espiritualidade está intimamente relacionada ao exercício da piedade e da vida cristã consagrada (Efésios 4.17-32). Os “espirituais” falavam línguas sem interpretação para a igreja e desta forma não edificavam (1 Coríntios 14.5), já os profetas falavam, mas não havia ordem de quem deveria falar primeiro (1 Coríntios 14.29,32). Paulo vai aprofundar o tema, discutindo o assunto e apontando diretrizes básicas na utilização dos dons do Espirito Santo.

Assim, convém enfatizar que a profecia se constitui de vários elementos. Certa instância da profecia tem função de edificar, exortar e consolar (1 Coríntios 14.3). As Escrituras Sagradas nos revelam que há três procedências da profecia: o Espírito Santo, o espírito humano e o espírito imundo. É uma tática antiga do Maligno imitar o Espírito de Deus, sendo que sua mensagem se distingue dos propósitos e resultados que são opostos aos interesses do Reino de Deus; a mensagem produzida pelo espírito imundo se caracteriza pela desarmonia com a Palavra de Deus (Isaías 8.19; Atos 16.16-18). Toda profecia de origem divina, é inspirada pelo Espírito Santo.

Embora Paulo enfatize a superioridade da profecia em relação ao dom de línguas (1 Coríntios 14.2-6), lembremo-nos de que a profecia não é superior às Escrituras. Seu aspecto mais aceitável é a sua consonância com a Bíblia. Ao compreender tal verdade, entendemos que: (1) O dom de profecia não é infalível, porque envolve a fusão do homem com o divino; do finito com o infinito; do imperfeito com o perfeito (1Coríntios 14.32). (2) O dom de profecia não tem finalidade de estabelecer normas de governo, não serve para liderar ou guiar a Igreja.

O dom de profecia está sujeito ao julgamento humano (1 Coríntios 14.26-33). Julgar é o mesmo que discernir. É uma obrigação cristã analisar todas as profecias. Foi Paulo, que com autoridade apostólica escreveu: “… falem dois ou três (profetas), e os outros julguem” (1 Coríntios 14.29). O apóstolo João, outro escritor neotestamentário, também investido de autoridade apostólica, nos diz: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1 João 4.1). Aproveito a ocasião para um questionamento: quando uma profecia é contrária à Palavra de Deus? Quando serve para “determinar” decisões que é de responsabilidade individual. Tais “profecias” se parecem mais com “vaticínios” de horóscopo, onde alguém busca “resposta” para obter um casamento, abrir um negócio, empreender uma viagem, etc. Quando serve para “sentenciar” doenças, infortúnios e morte a outrem, às vezes por puro revanchismo. Isto conflita-se com o triplo objetivo da profecia: “edificar, exortar e consolar” (1 Coríntios 14.3), além de convencer os incrédulos sobre as verdades do Evangelho. Quando serve, sob coerção ou incentivo, para “afirmar” o que o Espírito de Deus não falou: “O ‘Espírito Santo revelou’ algo tremendo ao meu coração agora… Então, eu profetizo… olhe para o seu irmão e profetize também…”. Quando serve para expor a “empolgação” do portador do dom, exagerando ou dizendo o que Deus de fato não revelou (2 Samuel 7.1-17).

O dom profético, assim como todos os demais dons, singular ou coletivamente considerados, tinha por objetivo fazer a igreja avançar espiritualmente (Efésios 4.11ss). O alvo é a participação nas perfeições da imagem e da natureza de Cristo (2 Coríntios 3.18).

A profecia como dom espiritual se distingue da pregação comum porque é resultado da inspiração espiritual espontânea, enquanto a pregação tem sua inspiração espiritual, todavia não pode ser espontânea, e sim, fruto de intenso estudo e preparo do pregador.

Assim, concluímos que a profecia não nasce da vontade da carne, portanto esta história de “vira para o irmão do teu lado e profetiza” é muito perigosa, pois induz o povo a profetizar sem que o Senhor tenha mandado. Além do mais os termos usados são bem autoexplicativos o “EU profetizo”, “EU determino”, “EU tomo posse”, “EU decreto”, “EU declaro”, “EU confesso”, todo este conjunto de EUS, nos dão um alerta.

Declarações e confissões estas, diga-se de passagem, que são muito mais baseadas nas vontades da carne, nas bênçãos, conquistas e vitórias, nas glórias humanas, terrenas e passageiras (efemeridades) do que naquilo que é eterno, contribui apenas para obscurecer nas mentes e corações das pessoas a Luz verdadeira do Evangelho do Senhor.

Em tempo, há os que defendem que usar do artifício “vire para o irmão ao lado e profetize”, seria pedagógico. Esta prática é uma técnica de PNL (Programação Neurolonguística), para fixar a aprendizagem por meio de mensagens subliminares, mas ocorrem abusos. Embora pareça inofensiva, tal prática está longe de ter respaldo na Palavra de Deus. Não encontramos passagem alguma nas Sagradas Escrituras em que algum apóstolo, profeta ou discípulo de Jesus utilize estas práticas, por este motivo a recomendação de Paulo aos Coríntios para que não se afastassem da simplicidade presente em Cristo (2 Coríntios 11.3).

Lembro que o culto deve ser feito de forma racional, com inteligência e acima de tudo espontâneo (Romanos 12.2). O culto não deve ter amarras de qualquer natureza. O elemento surpresa é de grande destaque, mas o que se torna repetitivo, perde o interesse. Ao pregador recomendo: atenha-se a Palavra. Estude, leia, pesquise. Assim no púlpito não lhe faltara argumentos para expor o texto bíblico desejado.

Por, Sérgio Pereira.

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