Crise de identidade nos refolhos do cotidiano

Crise de identidade nos refolhos do cotidianoSer judeu e ser cristãos – aparentemente, um paradoxo. Para nossos irmãos dos primeiros séculos, no entanto, nenhuma duplicidade havia. Considerando “O Caminho” apenas uma forma a mais das variantes judaicas, os que dele faziam parte identificavam o judeu Jesus como o profeta prometido, o Filho de Deus, o Messias de Israel, mas não estavam imersos no conflito de identidade que se formou a partir do distanciamento ocorrido entre os que entendiam a nova fé como um cumprimento às esperanças de seus pais e aqueles que viam nela um engano a mais, nascido nas ruas de Jerusalém. Alguns marcarão o tempo desse distanciamento posicionado-o no período das pregações de Paulo do ano 40 ao ano 62 da Era Cristã. Outros escolherão o ano de 62 e a lapidação de Tiago, líder dos judeus cristãos e o refúgio de muitos deles na Arábia.

Outros ainda preferirão o período da revolta judaica (66-70), reprimida por Tito e seguida pela destruição do Templo. E há também quem se refira à revolta de Bar Kochba e à dispersão nacional, tornando-se o país  província sírio-palestina, proibida aos judeus.

Nada, porém distanciou mais os judeus da tradição dos judeus cristãos do que a romanização de parte dos fiéis, com o abraçar sucessivo dos costumes pagãos numa prática de aceitação através da mistura, em que a santidade da fé, pouco a pouco, cedeu lugar a um prostituído sistema político-religioso fortemente ancorado num projeto de dominação.

A contaminação, contudo, não resume a história dos crentes em Cristo, pois foi maior e mais eficaz o grupo daqueles que jamais se romanizaram e que guardaram o pavilhão de seu Senhor, proclamando a mensagem da cruz, sendo perseguidos enquanto alcançavam os mais distantes rincões e, quando preciso – e muitas vezes o foi –, dando sua vida por amor ao Evangelho.

Nossa história, começada em Pentecostes, jamais sofreu interrupção, prosseguindo do cenáculo aos dias de hoje com a mesma chama, apresentando a cada dia ao seu Amado uma Igreja pronta para ser arrebatada, ao mesmo tempo em que convida aquele que tem sede a beber e o que está faminto a comer, saciar a sua alma e, então, ser salvo.

Por vezes, parece haver entre os cristãos pentecostais certa crise de identidade que faz com que alguns busquem suas raízes na Reforma Protestante, sendo que nem batistas nem pentecostais jamais buscaram tal filiação. Os livros oferecem-nos o registro do heroísmo de muitos dos que, descrendo do romanismo, procuraram voltar à fé primitiva. Alegre por seu retorno, a igreja triunfante, verdadeiramente corpo universal de Cristo, que não manchou suas vestes, mas permaneceu fiel, reconheceu e reconhece haver na mesa do Pai ainda outro lugar para muitos mais que retornem.

Sejamos, porém, claros: a noiva jamais foi romana, exceto o grupo dos que, em Roma, à distância do vaticano (do latim vaticininum, lugar de vaticinadores) em qualquer tempo ou era, serviu e serve a Jesus como seu único Senhor e crê que o Espírito Santo é o único vigário (do latim viven genere – substituto) de Cristo. A senhora eleita apenas vê como pontífice aquele que foi levantado entre os homens, pagando o preço da reconciliação, atraindo por seu sangue uma multidão incontável dentre todas as tribos, línguas e nações, judeus e gentios.

Que o povo de Israel passe por algum tipo de discussão de identidade, confrontando-se ortodoxos e liberais sobre o ser judeu – se deva ser determinado pelo ventre ou também pela paternidade –, ou que discutam os judeus da tradição a respeito da aceitação ou não dos judeus messiânicos como legítimos judeus, é compreensível pelo distanciamento secular e pela reafirmação de preconceitos incabíveis, mas identificáveis ao longo da trajetória do povo. Mas, que um cristão confunda abominação e verdadeira fé, cristianismo histórico e vida com Jesus, dogmas humanos e palavra viva, engano e pentecostalismo talvez seja, dos acontecimentos dos últimos dias, o mais espantoso.

Das lutas por fronteiras, a respeito das quais tanto se poderia falar nesses dias de retomada de negociações de paz, após o encontro entre Saeb Erekat e Tzipi Livni em Washington, prefiro destacar mais uma vez as irrefutáveis e inamovíveis fronteiras que devem existir entre Babilônia e Jerusalém, especialmente entre a prostituta espiritual e a Jerusalém celestial, envolvendo todos os que dela fazem parte.

Que os jovens, em especial, guardem a herança dos mártires em seu coração, separando-se da contaminação e da idolatria, distanciando-se do sistema que, um dia, desviou muitos do Caminho, e que, em breve, tão breve quanto é breve o retorno do Mestre, preparará, a ascensão do Iníquo. Este aguarda a nossa saída – e nós aguardamos o Noivo.

Maranatha (“O Senhor vem!”)!

Por, Sara Alice Cavalcante.

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