Confusões a respeito do arcanjo Miguel

Confusões a respeito do arcanjo MiguelTemos presenciado na atualidade interpretações subjetivas e sensacionalistas, hermeneuticamente erradas, sobre o arcanjo Miguel, as quais o elevam a uma categoria de um grande guerreiro poderoso e absoluto, através do qual todos os nossos inimigos poderão ser vencidos.

Entendemos que existem forças espirituais das trevas que combatem contra os servos de Cristo, mas elas não são vencidas por meio de anjos, espadas de fogo, unção de objetos, orações dos 13 dias, mas pelo poder que vem do Senhor Jesus (Efésios 6.10; 2Tm 2.1), jamais de Miguel.

O frenesi pela adoração aos anjos não é algo novo. Conforme falou o apóstolo Paulo, os gnósticos já prestavam cultos a eles (Colossenses 2.18). No período medieval, as interpretações teológicas sobre anjos foram as mais absurdas. E hoje não é diferente: as crendices sobre esses seres, ferindo o real sentido das Escrituras, que falam dos anjos apenas como seres criados por Deus para servirem aos santos (Hebreus 1.14), têm dado margens para outras aplicações.

No Brasil, já existem cultos que estão sendo direcionados especialmente ao arcanjo Miguel; e há orações de proteção e de espadas desembainhadas com fogo, vindas da parte dele, que são “dadas” aos crentes para combaterem os seus inimigos.

No Novo Testamento a palavra arcanjo só aparece duas vezes (1 Tessalonicenses 4.16; Judas 9), uma delas aplicada a Miguel, o único chamado de arcanjo, tendo outros anjos sob seu comando. Ele é apresentado também como príncipe de Israel, como vemos em Daniel 10.13,21;12.1. Alguns estudiosos têm dito que Gabriel também seria um segundo arcanjo, mas, nesse caso, tudo não passa de suposição.

Na literatura apócrifa, no livro de Enoque, cap. 10.1-17, fala-se de seis anjos de poder: Uriel, Rafael, Raguel, Miguel, Zariel e Gabriel. No livro de Tobias, Rafael é apresentando como um dos sete anjos poderosos que leva as orações dos santos à presença do Deus todo poderoso.

O nome Miguel quer dizer “Quem é como Deus?”. É bom entender que essa tradição que falava a respeito dos arcanjos não fazia parte da antiga fé do povo judeu. Ela foi tomada de empréstimo da crença persa. No tecido bíblico, o arcanjo é apresentado apenas nos últimos livros. A ênfase sobre eles é mais abundante nas literaturas apócrifas e pseudepígrafos.

No livro de Daniel, Miguel é apresentado como tendo ligação direta com Israel; seu trabalho seria o de preservá-lo da intensa tribulação que passariam, levando-os ao cumprimento cabal do projeto divino (Daniel 12.1). Judas 9 destaca a disputa entre Miguel e Satanás por causa do corpo de Moisés.

Inúmeros teólogos têm procurado, ao longo da história, explicar os motivos da disputa de Miguel com Satanás por causa do corpo de Moisés. Alguns têm dito que, devido ao grande poder que Satanás tem, e sendo o chefe dos anjos caídos, Miguel não ousou desafiá-lo sozinho, por isso o repreendeu em nome do Senhor.

O teólogo Orígenes deixa claro que o texto de Judas, que não está no Velho Testamento, faz parte de um texto pseudepígrafo, da obra “Ascensão de Moisés”; todavia, como foi citado no Novo Testamento, podemos crer que as informações são verdadeiras. Para certos rabinos, essa disputa entre Miguel e Satanás pautava-se no questionamento se Moisés teria que ter um sepultamento digno, pois ele foi um assassino.

Por não entender qual o verdadeiro papel do arcanjo Miguel na Bíblia é que muitas pessoas o têm visto como sendo até mesmo o próprio Cristo, como dizem as Testemunhas de Jeová, usando hermeneuticamente errado o texto de Daniel 10.5 e Apocalipse 12.7.

A transformação de Miguel como um anjo protetor de Israel é oriunda da leitura que se faz de Daniel 10.13; 12.1, e a literatura dos rabinos helenísticos sobre os anjos guardiões era bem farta, de modo que até hoje se fala muito sobre anjos que protegem as nações e anjos da guarda, dizendo que cada pessoa tem seu anjo protetor. Essas crendices atingiram até os cristãos da igreja primitiva (Atos 12.15).

Podemos asseverar resolutamente, segundo a ótica bíblica, que a ideia de Miguel ser o anjo protetor de todas as nações foi algo ampliado por outros intérpretes, mas tal visão não fazia parte da primitiva cultura da comunidade judaica. 1 Enoque 20.5 não fala de Miguel como sendo o guardião de todo Israel, mas apenas dos verdadeiros santos.

O trabalho do arcanjo Miguel está estritamente ligado à comunidade dos santos de Israel, que é o de proteger e prosperá-los (Apocalipse 12.7-12). Relacionado à vinda de Cristo, Paulo fez menção da “voz de arcanjo” (1 Tessalonicenses 4.16-18).

Miguel como um chefe, conforme entendemos através do prefixo gregoarch, descreve uma posição superior que ele exerce na esfera espiritual (1 Tessalonicenses 4.16; Judas 9); e ainda que ele seja um chefe de outros anjos, o poder que ele tem emana totalmente de Deus, não dele mesmo, pois é apenas um anjo criado (Hebreus 1.5).

Os que desejam encontrar referências bíblicas para dizer que Miguel é anjo protetor de todos, considerando-o como chefe, têm usado o texto de Josué 5.14, isso por causa da expressão “Príncipe do Senhor”. Mas, pela Bíblia, sabemos que anjo não recebe adoração (Apocalipse 19.10), porém no texto de Josué 5.14 vemos que Josué se prostra perante ele; desse modo, entendemos que esse anjo é uma aparição teofânica de Jesus Cristo.

Em diversas outras passagens do Velho Testamento vamos encontrar o Cristo pré-encarnado Ele tanto é apresentado estando com Deus no princípio de tudo (João 1.1) como também aparece como o “Anjo do Senhor” (Êxodo 14.19). Era esse anjo que protegia o povo de Deus, guiando-o pelo deserto até que chegasse à terra prometida.

Nossa luta espiritual contra o Diabo não será vencida com a presença de Miguel do nosso lado. Jesus disse: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século” (Mateus 28.20).

À luz do Novo Testamento, é no nome de Jesus que os demônios são vencidos, que os milagres acontecem e que nossas orações são ouvidas (Marcos 16.17; João 14.14).

Andar com Jesus no coração e orar confiantemente no Seu nome é o segredo para sermos vitoriosos (1 Coríntios 15.57). Um verdadeiro cristão com o coração cheio do amor de Cristo jamais ousará pedir a Deus que coloque seus inimigos na ponta da espada de Miguel, pois Jesus falou que nós devemos amar os nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mateus 5.44).

Interessante entender também que o Diabo só trabalha na vida daquele que dá lugar, desse modo não podemos responsabilizá-lo por tudo, pois Tiago diz que cada pessoa é tentada quando atraída pela sua própria concupiscência (Tiago 1.14). Ele tenta, prova, insinua, busca quem possa tragar, mas cabe a você dar lugar ou não.

O cristão pode travar uma luta contra o mal, todavia ela não se dá nos moldes que os seguidores de Miguel estão fazendo: oração poderosa contra os inimigos.

Nas palavras do apóstolo Paulo o mal se vence com o bem (Romanos 12.21), e o diabo, é nos sujeitando a Deus e não dando lugar a Ele, antes vivendo em total santidade para com Deus (Tiago 4.7; Efésios 4.27-32).

Por, Osiel Gomes.

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