“Como Neemias, orar e agir pela nação”

Entrevista com Deltan Dallagnol, o evangélico líder da Operação Lava Jato

“Como Neemias, orar e agir pela nação”Formado em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e com mestrado na Escola de Direito de Harvard, nos Estados Unidos, o paranaense Deltan Dallagnol, 36 anos, tornou-se conhecido em todo o país por coordenar a força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) que mais impactou o Brasil até os dias de hoje: a Operação Lava Jato. Procurador da República desde 2002, ele é especialista em crimes financeiros, proferindo palestras e lecionando sobre o assunto há 10 anos. Porém, o que poucos sabem é que Dallagnol, além de competente procurador e professor, é um servo de Deus. Como ele mesmo costuma se apresentar, é “um seguidor de Jesus, marido e pai apaixonado, e procurador da República por vocação”.

Membro da Igreja Batista do Bacacheri em Curitiba (PR), liderada pelo pastor Roberto Silvado, Dallagnol concedeu entrevista exclusiva para o jornal Mensageiro da Paz falando sobre a importância das “10 medidas contra a corrupção”, sobre a Operação Lava Jato e, tomando como exemplo a vida de Neemias, sobre o que cada crente no Brasil pode fazer hoje para ajudar nesse processo de moralização pelo qual passa o nosso país nos últimos dois anos desde que essa operação foi iniciada.

Quais são essas 10 medidas contra a corrupção e por que elas são importantes?

As “10 Medidas contra a Corrupção” constituem um conjunto de mudanças na lei que têm três objetivos centrais: prevenção, ou seja, evitar que a corrupção aconteça; recuperação dos valores desviados; e punição adequada aos corruptos. Temos de dar um basta na impunidade, porque corrupção e impunidade caminham de mãos dadas. Essas medidas são explicadas em detalhes no site www.10medidas.mpf.mp.br. Diversas igrejas e líderes cristãos apoiam as medidas.

Como surgiu a ideia de propor essas medidas?

Percebemos que a população colocou muita esperança na operação Lava Jato, mas temos consciência de que é impossível que o Ministério Público, sozinho, consiga reduzir a corrupção. Isso é algo que só dará certo se a sociedade agir, como tem agido. Vivemos uma janela de oportunidade para mudanças, porque nossa população nunca esteve tão sensível ao problema da corrupção e aos males que causa. Por isso, centenas de entidades por todo o país assumiram essa campanha, que não é mais algo apenas do Ministério Público, mas do povo brasileiro.

Passada essa fase de assinaturas para o envio da proposta ao Legislativo, como a população pode continuar colaborando para a aprovação desse projeto?

No dia 29 de março, centenas de voluntários foram até Brasília e levaram mais de 2 milhões de assinaturas para a Câmara dos Deputados. As dez medidas já começaram sua tramitação no Congresso Nacional e pretendemos manter nossa mobilização até que sejam aprovadas e transformadas em lei. Continuamos recebendo assinaturas e cartas de apoio, cujos formulários estão no site da campanha, mas é necessário que a sociedade se assuma como autora da sua história, fazendo contato com os parlamentares – deputados federais e senadores, principalmente – e pedindo seu apoio oficial às medidas.

O senhor acredita que, pelo andar da carruagem, ainda poderemos ter muitas surpresas até o final da operação Lava Jato?

Não podemos falar sobre investigações em andamento, mas gostaria de ressaltar alguns pontos. O primeiro é que o Ministério Público Federal investiga fatos, não pessoas. As investigações avançam à medida que surgem evidências e provas. Outro aspecto importante é que a corrupção é apartidária e histórica, não é uma característica do momento atual. Padre Antônio Vieira, no Sermão do Bom Ladrão, dizia que os governantes portugueses vinham ao Brasil não para buscar o nosso bem, mas para buscar os nossos bens. A expressão “mar de lama” foi cunhada na era Vargas para criticar escândalos de corrupção, e essa expressão foi usada durante a ditadura e o período democrático para fazer referência aos diversos casos de corrupção nos governos federal, estadual e municipal. O que mudou então? Especialmente nas duas últimas décadas, houve um processo de amadurecimento democrático de nossa legislação e de nossas instituições, levando a investigações e controles mais efetivos do mau emprego de verbas públicas. Os resultados das investigações estão melhores, porém a punição de réus do colarinho branco só existe no papel. A Lava Jato já conseguiu recuperar R$ 2,9 bilhões, mas é uma exceção. Ainda temos muito a caminhar para que as punições não só sejam adequadas, mas também sejam efetivamente aplicadas, bem como para termos instrumentos eficazes para recuperar o dinheiro público desviado.

É uma honra para os evangélicos no Brasil ter evangélicos entre as pessoas à frente dessas operações históricas e importantíssimas da Lava Jato, que cremos que ajudarão a moralizar mais o país. Que palavra o senhor deixaria, como servo de Deus, aos demais cidadãos evangélicos desse país que têm orado tanto pela moralização do seu país, pelo sucesso da operação Lava Jato e pela vida de cada membro dessa equipe?

O livro de Neemias retrata a história da reconstrução dos muros de Jerusalém, que significavam a proteção da sociedade contra seus inimigos. Hoje, vivemos num país sem muros, sem barreiras jurídicas contra a corrupção e a impunidade, que transitam livremente no meio de nós. Essa realidade foi mudada, em Neemias, após oração e ação. O povo se uniu e os muros foram reconstruídos. Não tenho dúvidas de que a Igreja tem em seu coração um desejo de restauração e que já orou muito por um país mais justo. O que é necessário, agora, é dar um passo adiante, para adotar ações concretas que possam trazer mudanças sobre as estruturas de injustiça que criam um ambiente favorável à corrupção. Quando o assunto é corrupção, orar é importante, mas precisamos, como Neemias, também agir. Os cristãos podem contribuir de diversas maneiras: participando de observatórios sociais e ONGs que controlam contas públicas, como a Transparência Internacional e a Contas Abertas, e acompanhando o processo de aprovação das “10 medidas contra a corrupção” no Congresso Nacional, coletando mais assinaturas e conseguindo apoio dos parlamentares.

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