Como Israel falhou como povo missionário

Como Israel falhou como povo missionárioMissões é um dos principais temas bíblicos, porque trata diretamente sobre a função da Igreja de Cristo neste mundo. Porém, ao contrário do que muitos pensam e afirmam, este não é assunto restrito ao Novo Testamento, mas tema central de toda a Bíblia Sagrada, inclusive na constituição de Israel como povo de Deus.

Veremos nesta oportunidade a origem de Israel, sua função como povo de Deus que originalmente teve um propósito missionário, e também os principais erros cometidos por este povo, resultando em consequências negativas.

Estudar a história de Israel é o mesmo que estudar a história do próprio Deus, ou seja, é inevitável ler os fatos que marcaram a história dos judeus sem deparar-se com o próprio Deus e Suas obras. Sendo assim, se excluirmos Deus da história desse povo, não lhe restará absolutamente nada.

Essa história não se limita apenas à escolha e à eleição de um povo, mas ela possui um significado amplo, sendo ela também uma história missionária. Afinal de contas, Deus foi o primeiro a fazer missões, revelando-nos a verdade de que a missão pertence a Ele.

Os missionários são aqueles que, renunciando tudo, deixam para trás sua terra natal, sua cultura e tudo que envolve sua vida, por isso Deus de fato foi o primeiro missionário, porque Ele deixou o céu e desceu no jardim do Éden para tratar do pecado de Adão e Eva e também apontar para Cristo, o Salvador do mundo (Gênesis 3.15).

Essa missão consiste na ação do Criador em buscar a restauração da criação decaída, tendo o próprio Deus como seu condutor e sustentador, como declara Carrier: “Ele é o único e verdadeiro Deus e deseja que sua glória seja conhecida nos céus (Salmo 19) e nas extremidades da terra (Isaías 11.9). Portanto, antes de ter uma conotação humana que fala da tarefa da igreja, ‘missão’ é uma categoria que pertence a Deus. A missão antes de ser da Igreja, é missio Dei. Aquilo que Deus criou, ele pretende restaurar. Contudo, a restauração é salvação não só no sentido de poupar, mas também no sentido de julgar. A mensagem de restauração no Velho Testamento, consistentemente, inclui estas duas dimensões de salvação e de julgamento” (CARRIER, 1992).

No cumprimento de Sua missão, Deus escolheu o povo de Israel, visando instrumentalizá-lo no sentido de, por meio dele, tonar-se conhecido das demais nações. Essa instrumentalização deveria funcionar de forma específica, ou seja, Israel deveria viver de tal forma na presença de Deus em temor que, experimentando as bênçãos do Eterno, serviria como um atrativo às demais nações, conduzindo-as ao único e verdadeiro Deus.

No entanto, o maior erro de Israel foi o de interpretar essa escolha divina como sendo exclusivista, e que por causa dessa escolha, o Senhor estava excluindo os outros povos. Essa interpretação equivocada provavelmente foi uma das causas da relutância de Jonas em cumprir a ordem de Deus para anunciar Sua mensagem aos ninivitas.

Embora Israel tenha sido chamado para ocupar uma posição importante no plano de Deus, Abraão quando chamado e Israel estabelecido como povo (Gênesis 12), o Senhor deixou claro que Sua intenção era de acolher todos os povos da mesma forma que fizera com os israelitas. Isso também é destacado no Novo Testamento, claro que dentro do contexto da tarefa da Igreja (João 3.16 e Atos 1.8).

Esse interesse universal de Deus está evidente em toda a Bíblia Sagrada e dentre muitos exemplos, podemos citar a saída de Israel do Egito quando outros povos acompanharam o povo escolhido (Êxodo 12.38); Rute, uma moabita, que foi introduzida no meio dos judeus (Rute 1.15-17); e a presença de Ester entre os persas (Ester 4.14). Nesses dois últimos exemplos, podemos ver a dinâmica do propósito universal de Deus em enviar judeus a outros povos e trazer outros povos para o meio do Seu povo.

Algo indispensável a ser ponderado sobre o caráter missionário da escolha de Deus é que em Israel não havia absolutamente nenhuma qualidade que pudesse atrair Deus em Sua escolha, muito pelo contrário, pois quando foi estabelecido em Abraão, Israel existia, ou seja, o mérito total é unicamente do Senhor. Isso encerra a verdade de que a escolha de Israel é fruto do incomparável amor de Deus e de Sua infinita graça, conforme foi demonstrado pelo próprio Deus: “Vocês mesmos viram tudo o que o Senhor, o seu Deus, fez com essas nações por amor de vocês; foi o Senhor, o seu Deus, que lutou por vocês” (Jesus 23.3).

Com isso, entendemos que o mérito da escolha não está no povo escolhido, mas única e exclusivamente no Senhor que escolhe. “…O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os de outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos” (Deuteronômio 7.6-7). Isso é o suficiente para que haja a compreensão de que por mais importante que um povo possa ser ou mesmo uma pessoa individualmente no Reino de Deus, o mérito é de quem os escolheu para cooperar em Sua missão em resgatar o homem caído.

Outra grande verdade que podemos encontrar na constituição de Israel como povo é o comprometimento que Deus tem com a história e Seu envolvimento direto com a mesma, sofrendo as dores da humanidade e lutando por ele por meio de Seu povo. Portanto, o que se pode perceber é que o caráter da eleição de Israel como povo não se limita apenas a uma visão soteriológica (de salvação, mas também missiológica. Observem as palavras de Peters sobre a conexão que existe entre Israel e a Igreja numa perspectiva missionária:

“Devido ao fato de Israel ter falhado em ser luz do mundo e o sal da terra ao nível de sua capacidade e necessidade do mundo, Deus temporariamente deixou Israel de lado, a qual havia sido a serva que escolheu. Ele chamou a Igreja de Jesus Cristo para ser uma geração eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo peculiar, para erguer louvores Àquele que tirou os cristãos da escuridão e os levou à sua maravilhosa luz (1 Pedro 2.9). A função de Israel foi transferida temporariamente para a Igreja de Jesus Cristo, que se tornou a testemunha, o sacerdócio, o servo, a luz, o sal” (PETERS, 2000).

Assim como Israel foi escolhido para tornar as grandezas de Deus conhecidas entre as nações, assim também a Igreja foi escolhida com essa missão. A grande diferença é que enquanto Israel foi chamado a atrair as nações a si, à Igreja é imposta a responsabilidade de ir ao encontro das nações, conforme as palavras de Jesus: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19).

Bibliografia

CARRIER, Timóteo, Missão Integral, uma teologia bíblica, São Paulo: Sepal, 1992.
Peters, George W., Teologia Bíblica de Missões, Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

Por, Elias Torralbo.

One Response to Como Israel falhou como povo missionário

  1. Paulo Siga disse:

    Gostei Bastante Desta Explanacao Deste Assunto Espero Que Seja Enriquecida,

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