Comida sacrificada: comer ou não?

Há contradição entre os apóstolos Tiago e Paulo, conforme Atos 15 e 1 Coríntios 8?

Comida sacrificada - comer ou nãoDevemos seguir irredutivelmente o decreto apostólico ou podemos seguir a nossa liberdade cristã quando temos consciência que nosso espírito não se contamina com tais coisas?

Para elucidar esta questão é necessário rever o contexto histórico e os fatos desta controvérsia. Logo após a primeira viagem missionária de Barnabé e Saulo (47-49 d.C.) alguns judeus cristãos passaram a ensinar na igreja que era necessário observar as leis mosaicas para poder ser salvo (Atos 15.1, 5). Paulo e Barnabé não concordaram com esta postura e ofereceram resistência ao legalismo. Por esta causa surgiram embates e foi travada com os judaizantes não pequena discussão (Atos 15.3). A unidade da igreja incipiente ficou ameaçada com a intransigência de alguns judeus convertidos e culminou na realização de um Concílio em Jerusalém.

Reunidos os líderes, sob a presidência do apóstolo Tiago, exarou-se o que focou conhecido como decreto apostólico. Com o propósito principal de solucionar a controvérsia acerca do legalismo e apaziguar os ânimos foram orientados a não comer carne sufocada e alimentos consagrados a ídolos, a não ingerir sangue e a não cometer imoralidade (Atos 15.20, 29). Estas ordenanças faziam parte da lei cerimonial mosaica (Levíticos 16 a 18) e o guardar-se da imoralidade estava intrinsecamente relacionado com a idolatria, uma vez que a idolatria pagã envolvia atos de imoralidade.

A prática proibida das contaminações dos ídolos, referia-se à carne oferecida em sacrifício aos ídolos e depois consumida em alguma festa ou nas casas, ou ainda comercializada no mercado. Os gentios participavam destes eventos de modo natural e indiscriminado. Porém, a ingestão desses alimentos era considerada pelos judeus como grave contaminação. Assim, a orientação do Concílio em Jerusalém era de que os cristãos gentios deviam respeitar os escrúpulos dos judeus por amor à harmonia na Igreja. Objetivava capacitar os gentios salvos a viver em paz uns com os outros.

Em contrapartida, os crentes gentílicos em Corinto consideravam que o ídolo, na realidade nada é, e assim podiam comer a carne sacrificada sem problema algum, pois, tinham consciência e maturidade cristã para entender  que esta ação não podia e nem devia ser interpretada como adoração ao ídolo. O apóstolo Paulo admitiu que a posição dos crentes em Corinto era correta (1 Coríntios 8.4). No entanto, para evitar problemas na igreja e até desvios doutrinários, o apóstolo estabeleceu o princípio do amor acerva desta questão e de todas as demais que envolverem conflitos de consciência entre cristãos.

O princípio rege que todo o crente com ciência (conhecimento) maior que a dos outros não deve praticar aquilo que pode escandalizar a fé de um irmão menos esclarecido, sob o risco de induzí-lo a contaminar sua fraca consciência (1 Coríntios 8;7). Sob esta premissa, o apóstolo dos gentios ensinou que se o comer carne (sacrificada) provoca escândalo ao irmão, nunca mais se deveria comer este tipo de carne para não servir de tropeço ao irmão fraco e assim pecar contra Cristo (1 Coríntios 8.10-13). Com a passagem do tempo o objetivo das proibições acerca dos alimentos se tornou compreensíveis às consciências dos cristãos judaicos. No entanto, o conselho paulino permanece em vigor: “A ciência incha, mas o amor edifica” (1 Coríntios 8.1).

Por, Douglas Baptista.

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