Canto do galo ou toque de trombeta?

Já ouvi certo pregador afirmar que o som ouvido por Pedro quando negou Jesus foi de uma trombeta. Afinal, qual a explicação correta para a expressão “canto do Galo”?

Canto do galo ou toque de trombetaOs evangelhos são unânimes em abordar a tripla negação de Pedro à Jesus. Não há quaisquer dúvidas sobre o fato de que Pedro tenha negado seu Mestre. Mas é objeto de indagação perene, a significação terminológica empregada pelos evangelistas ao referirem-se ao Canto do Galo1.

Numa exegese expositiva, literal, teremos aqueles que defendem a literalidade do texto. Socorrem-se até mesmo da etimologia e afirmam que Jesus referiu-se mesmo ao cantar da ave “galo”. Não há espaço para análises conjunturais, contextuais, culturais, simbólicas ou quaisquer outras. Jesus estaria referindo-se a algum momento onde algum animal bípede, do ramo biológico das aves, espécie galináceo, que cacarejaria e antes disto Pedro incorreria numa tri-negação de Cristo.

Há aqueles que defendem uma exegese simbólica, e nesta, para estes, sequer haveria a literal necessidade de qualquer sonido. O “cantar do galo” seria apenas um momento simbólico referente a um momento qualquer na madrugada, antes do qual o apóstolo querido de Jesus se acovardaria e negaria ser partícipe de sua classe discipular.

Diversas outras correntes e pensamentos poderiam ser abordados, mas temos como aceita por grande número de teólogos, a linha de pensamento que leva em conta o momento cultural onde as frases de Cristo são proferidas. Nesta linha, não se pode admitir sequer a presença de qualquer galináceo nas imediações da casa do sacerdote Anás.

No viés supra, acredita-se que a casa do sacerdote estivesse localizada no centro da cidade de Jerusalém e segundo a Mishná2, a criação de galináceos seria proibida no “território de Israel” e mui especialmente na cidade de Jerusalém, porque ali estariam as Coisas Santas.

Se proibida a criação de galináceos em Jerusalém, especialmente proibida estaria a criação na “casa do Sumo Sacerdote”. Em não se podendo falar na criação de galos nas proximidades, impossível seria que a galo a que Jesus se referia fosse literal, restaria então a pergunta: – a qual galo Jesus se referia?

Para este interpretes, a expressão usada por Jesus, nas palavras dos evangelistas, é aquilo que se pode chamar de latinismo, ou utilização de expressões latinas comuns ao momento histórico em que foram proferidas.

Naquele momento histórico, haveria trocas das guardas romanas na viração da cada vigília da noite, ou seja, a cada 3 horas. Sendo o período antes da meia noite segundo a tradição romana conhecido como primum gallicinium, e sendo a troca da guarda anunciada por um sonido de trombeta, os romanos chamavam tal sonido de “primeiro cantar do galo.” Ao próximo sonido que precedia a próxima vigília1 denominava-se como “segundo cantar do galo” ou “secundum gallicinium”. Tal entender responderia inclusive ao fato de que o evangelista Marcos refere-se à “duas vezes cantar o galo, três vezes me negarás” como sendo um latinismo traduzido por: – antes das três horas da manhã me negarás três vezes.

Certo é que quaisquer destas exegeses não negarão ou modificarão a razão de ser dos dizeres de Cristo. Certo também que Cristo estava a referir-se à um momento de fraqueza pelo qual o apóstolo passaria e, seja o cantar o galo literal, ou seja o sonido de um trombeta, a profecia do Cristo cumpriu-se.

Fica-nos a mensagem e o lembrete da fragilidade humana, de sua facilidade em incorrer em erros, e a necessidade permanente de estarmos atentos e fortalecidos na graça de nosso Senhor Jesus Cristo para que não o neguemos diante dos Homens.

Notas

1 Mateus 26.34, Marcos 14.30, Lucas 22.34 e João 13.38.
2 Em sua divisão Nezikin, bem como no tratado de Baba Kama 7.7

Por, Carlos Eduardo Neres Lourenço.

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