Caminhos secretos do pão: da Síria para Israel

Caminhos secretos do pão - da Síria para IsraelAno passado o presidente tcheco Milos Zeman, em visita a Israel, com o objetivo de incentivar o comércio entre os dois países, referiu-se à sua proposta, feita quando ainda estava na Europa, de mover a Embaixada Tcheca de Tel Aviv a Jerusalém. O gesto foi muito bem recebido pelos israelenses e está de acordo com a trajetória histórica da nação. O presidente Shimon Peres expressou seu agradecimento ao líder Tcheco, pelo apoio que tem demonstrado a Israel não somente em seu país, mas também na ONU e na União Europeia. Zeman considera-se unido a Israel na luta contra o terrorismo e conclamou outros líderes a fazerem o mesmo.

A situação em outros países difere. Da França, onde está instalada a maior comunidade judaica do mundo, depois de Israel e dos Estados Unidos, estima-se que haverá 2,5 mil novos imigrantes. O aumento da violência em solo francês tem deixado “a sensação, na comunidade, de não existir esperança”, conforme Oded Fuer, diretor de promoções de Aliah (subida, retorno a Terra Prometida) da Organização Sionista Mundial. Para ele, circunstâncias econômicas e jurídicas costumam mover a população judaica, conduzindo-a de volta ao seu país ancestral. Da mesma forma, a Agência judaica ajudou 17 iemenitas a retornarem. Preocupado com o aumento dos atentados antissemitas, o presidente da Agência Judaica, Nathan Sharansky declarou que “Está trabalhando para levar rapidamente a Israel todos os judeus do Iêmen que tenham expressado interesse em fazer Aliah”.

O Primeiro Ministro israelense, Benyamin Netannyahu vê nesses eventos a materialização do sopro profético sobre seu povo. Declarou: “Nossa geração teve um grande privilégio – vimos as palavras dos profetas tornarem-se realidade. Vimos o surgimento de Sião, o retorno da soberania judaica na Terra de Israel, a reunião dos exilados e nosso retorno a Jerusalém. Tenhamos a certeza de que a luz dourada de Jerusalém vai brilhar sobre nossas vidas e espalhar essa luz para o mundo todo. Vamos proteger Jerusalém, porque Israel sem Jerusalém é um corpo sem coração”.

As belas palavras não podem fazer esquecer que o coração de Israel é mais do que a Cidade Santa, mas o Santo possuidor da Cidade. A luz de Israel, agora lembrada nas festividades de Chanucah, a festa das luzes, é a luz nunca ofuscada da Glória do Senhor de Sião. Por trás de movimentações sionistas ou outros gestos de ordem ideológica e política, está a mão de Deus, que prometeu e confirmou pela boca de Seus profetas as coisas que ora sucedem. Devemos sempre lembrar que detalhes como a descoberta dos manuscritos do Mar Morto e a descoberta do fragmento do Codex Aleppo foram eventos ocorridos em 1947, e acenam para a realidade de que a Palavra antecede todo o mover do avivamento, mesmo um avivamento nacional – 1948 –, pois não há vida sem a Palavra.

Ambos, o Codex e o manuscrito do profeta Isaías, encontram-se agora em exposição no Museu do Livro, enquanto suas histórias conversam. O Código, retornado após longo exílio, é o resultado do trabalho feito pelos antigos massoretas. Depois da destruição do Templo em Jerusalém, no ano 70 d.C., os “tannaim” (professores-escribas) ocuparam-se em guardar as Escrituras, copiando-as com precisão. Foram seguidos dos “amoraim” (expositores), que procuravam aplicá-las na vida vida diária. No começo do século VI, famílias tradicionais de estudiosos judeus que viviam na Palestina e na Babilônia, dedicaram-se ao enorme esforço de “produzir uma cópia correta das Escrituras. Tais homens foram chamados de massoretas – dentre eles destacou-se Bem Asher. Alguns atribuem a origem do nome à palavra ‘masoret’, tradição, mas pesquisadores, preferem atribuir modernamente o sentido à palavra ‘mesirá’, entregar. Assim, massoretas eram aqueles que se entregavam à transmissão do texto e sua prenuncia ao povo. Esse importante documento teve sua produção devidamente aprovada no século X e é de tal valor que é chamado “keter” – coroa – nome dado por judeus vindos do antigo Cairo por volta do século XII dada à sua qualidade. Produzido como livro de estudos (não para ser usado no ritual da sinagoga) para que não se perdessem as leituras bíblicas, o texto massotérico tradicional foi produzido em Tiberíades no século X, furtado pelos cruzados, chegou ao Egito, no século XII, foi resgatado pelos judeus e usado pelos cristãos como o Antigo Testamento. As diferenças entre o Codex do ano 900 d.C. e o texto de Isaías, produzido cem anos antes da vinda do Senhor e encontrado no Mar Morto é de… 3 letras. Por isso Adolfo Roitman, curador e diretor do Santuário do Livro os chama de “extraordinariamente próximos”. A exposição paralela dos documentos faz meditar sobre a maneira como Deus faz sua Palavra percorrer a Terra, saciando as almas dos homens com pão celestial.

A condução do povo de Israel e a condução da Palavra atravessando fronteiras e sendo preservados leva-nos ao motivo de nossa oração – o difícil momento que vive a Síria, onde correntes totalitárias da ditadura militar e da ditadura islâmica confrontam-se e esquecem os valores fundamentais da humanidade. A violência de um regime político contra sua própria população ofende pessoas em todo o mundo. Além do uso de armas condenadas pelos mais rasos padrões de respeito ao ser humano, ainda se vê o chamado bombardeio seletivo, que busca atingir os padeiros, para fazer sucumbir de fome a população. No entanto, como resposta cabível da parte de homens de paz, padeiros sírios produzem hoje, às escondidas, milhares de pães por dia e alimentam os famintos – próximos ou distantes – através das linhas secretas do pão. Da Síria, da cidade de Alleppo, veio a nós o mais antigo fragmento do texto massorético, encontrado numa sinagoga outrora saqueada e queimada. Um jovem o recolheu, levou-o como amuleto e guardou-o por mais 60 anos. Após a sua morte, a família entregou o pergaminho, parte do texto massorético mais antigo que existe, ao governo de Israel. Hoje ele está exposto no Museu do Livro. É ele uma lembrança de Alleppo, um clamor pela Síria, a que todo o que manuseia uma Bíblia deve unir a voz.

Por, Sara Alice Cavalcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Google Translate »