Caçadores de bênçãos

cacadordebencaoLendo os Evangelhos, verificamos algumas circunstâncias que desde o início marcaram o ministério de Jesus: curas, milagres, popularidade, oposição, quebra de paradigmas etc. Mas, há relatos que nos saltam aos olhos, especialmente porque a certa similaridade com muitas situações verificadas na atualidade.

Dentre as diversas circunstâncias marcantes, há destaque para o fator “multidão”, aquela que sempre teve bons motivos para seguir a Jesus. No capítulo 6, João deixou registrado que a multidão o seguia devido aos milagres que operava. Ele próprio chegou a afirmar que as pessoas o buscavam não pelos sinais, mas porque haviam encontrado aquele que poderia saciar sua fome de pão.

Naturalmente, qualquer pessoa que perceba em Jesus a solução para suas mazelas deve buscálO, e até aqui não há qualquer incoerência, exceto pelo fato de que muitas pessoas acabam buscando em Cristo apenas o benefício terreno, imediato, material e perecível. É bem verdade que alguns crentes foram “fisgados” logo após a operação de alguma cura e/ou resolução de problemas materiais. O corre que tais pessoas, caso não tenham um verdadeiro encontro com o Senhor, tenderão a abandonar a carreira crista se buscavam a Cristo só por isso.

Se não perceberem em Jesus a possibilidade de comunhão com Deus, haverá apenas o proveito imediato das bênçãos recebidas, mas a operação do Senhor não surtirá o efeito salvífico. As bênçãos do Senhor são muito bem-vindas, mas não devem ser o foco exclusivo de nossa busca, como era o caso daqueles cuja menção desonrosa é feita pelo próprio Cristo. Talvez, este seja um dos maiores erros cometidos pelos crentes da atualidade. Muitas pessoas seguem a Cristo exclusivamente porque buscam prosperidade financeira, cura, melhores empregos etc, mas não atentam ao principal interesse do Senhor – a vida eterna. Deus sabe de nossas necessidades. Contudo, há que se pensar em qual é a real motivação de nossa busca pelo Senhor.

De acordo com o relato de João, as curas, os milagres e a multiplicação dos pães e peixes não foram suficientes para que aquelas pessoas reconhecessem a necessidade de Salvação. Suas mentes pareciam cauterizadas. Estavam cegos e surdos para a verdade das Boas Novas. Esperavam apenas o atendimento de suas necessidades imediatas e, de preferência, que não se fizesse qualquer menção sobre compromisso com Deus.

Jesus aproveitou o ensejo daquela aglomeração e aplicou-lhes um maravilhoso sermão. “Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.53, 54).

O leitor desatento terá um pouco mais de dificuldade para entender a mensagem de Jesus quando disse “comer da sua carne e beber do seu sangue”, pois Ele estava se referindo à sua obra redentora em prol daqueles que vierem a tomar parte em sua morte e ressurreição. Devemos tomar parte em Sua morte e ressurreição pela necessidade de reconhecermos que Ele assumiu a condição de réu de juízo para que fôssemos absolvidos de nossas culpas e pecados. Jesus estava afirmando que somente aqueles que reconhecerem o Seu sacrifício vicário (isto é, substitutivo – “ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades” – Isaías 53.5) serão participantes da glória eterna. De acordo com o Novo Testamento, ressurreição e vida eterna são dádivas reservadas àqueles que comem a carne e bebem o sangue do Cordeiro de Deus. A Ceia do Senhor é o memorial da salvação, pois através dessa solenidade estamos anunciando a morte daquele que nos deu vida e manifestando a crença de que Ele ressuscitou e que vai retornar para buscar Sua Igreja.

Qualquer pessoa que ouça essas afirmações pela primeira vez pode ficar confusa. Certamente, as palavras de Jesus parecem ser loucura àqueles ouvintes, pois são afirmações relacionadas ao plano espiritual. O esclarecimento dessas verdades, além das tentativas de explanação do tema, deve ser provido pelo próprio Deus, conforme as palavras de Jesus: “Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (João 6.65).

O discurso causou alguns incômodos entre a multidão, inclusive dos discípulos. Os caçadores de bênçãos e de promessas exclusivamente terrenas começaram a murmurar e, ao que parece, muitos de seus discípulos se escandalizaram e começaram a desertar, pois o discurso se tornou insuportável para eles.

Lamentavelmente, essas pessoas buscavam apenas a satisfação de suas necessidades terrenas, quando deveriam buscar Àquele que ordena as bênçãos sobre nossas vidas. Ressalte-se que as bênçãos do Senhor seguem aos que são obedientes à Sua Palavra (Deuteronômio 28.2). Logo, as bênçãos são consequências de nosso relacionamento com Deus.

A deserção narrada por João constitui outra circunstância peculiar ao ministério de Jesus, pois muitos daqueles que O seguiam manifestaram algum tipo de indignação ou descontentamento com o Seu discurso e O abandonaram. Aquelas pessoas que foram inicialmente tocadas por Deus através das maravilhas operadas por Jesus já não suportavam nem sequer ouvi-Lo.

As palavras de Jesus têm poder para realizar grandes feitos, inclusive para transformar a vida do mais vil pecador. Entretanto, para que Ele realize Sua vontade em nossas vidas, é necessário permanecermos junto a Ele. Ainda que não seja possível compreender Sua vontade e/ou Suas palavras, temos de aguardar pelo momento em que Ele trará luz ao nosso entendimento.

Naquele contexto, era razoável que as pessoas ficassem atônitas em razão do ensino conflituoso de Jesus com o legalismo instalado e, muitas vezes, com a tradição judaica. Ora, o Senhor apresentou o pão que desce dos céus, que alimenta a humanidade eternamente, e isso Ele dizia fazendo referência ao Seu próprio corpo.

A multidão se dispersou. Então, Jesus se dirigiu aos Seus discípulos e perguntou se pretendiam abandoná-lO também. Entretanto, Pedro fez uma das mais lindas declarações proferidas por um verdadeiro discípulo de Jesus: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente (João 6.68, 69). Busquemos, em primeiro lugar, o Reino de Deus, porque as demais coisas necessárias nos serão acrescentadas. E as bênçãos do Senhor nos seguirão todos os dias de nossas vidas!

Por, Marcelo Iansen Loureiro

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