As necessidades humanas e a Igreja

As necessidades humanas e a IgrejaCerta feita, lendo o livro “Panorama do Pensamento Cristão”1, traduzido para o português pela CPAD, deparei-me com um artigo sobre “Natureza Humana”, escrito por Michael Palmerque. O conteúdo faz menção à definição de ser humano sob a ótica da psicologia humanista, transpessoal ou fenomenológica.

A psicologia humanista nasceu nos Estados Unidos na década de 1960, se constituindo como a “terceira força” dentro da Psicologia. Tal título surge na medida em que a mesma se opõe às duas forças – ou abordagens – predominantes na Psicologia da época: o behaviorismo e a psicanálise2. Os tópicos essenciais da psicologia humanista seriam o destaque na experiência consciente; a crença na integralidade da natureza e da conduta do ser humano; a crença no livre-arbítrio e no poder criativo do homem3. Os principais representantes da Psicologia Humanista são: Abraham Maslow (Hierarquia das Necessidades de Maslow); Carl Rogers (No Centro das Propostas Humanistas); Viktor Frankl (Psicologia Existencial Humanista). O principal pensador desta linha, Abraham Maslow, desenvolveu sua teoria dinâmica das motivações, com base nos estudos de diversos outros psicólogos e filósofos como Reich, Jung, Fromm e Freud.

A psicologia transpessoal contribui para as preocupações mais tradicionais da disciplina como um reconhecimento do aspecto espiritual da experiência humana fornecendo uma linguagem e estruturas científicas para essa experiência.

Já Naomi Brill (apud Lourenço, 2014)4 “elaborou um modelo um pouco diferente do modelo de Maslow, onde não há hierarquia nas necessidades, mas cada uma interagiria com aspectos da personalidade do ser humano”. Para Brill, as necessidades humanas se manifestam com os seguintes aspectos da natureza humana: espirituais, emocionais, físicas, intelectuais e sociais.

Vislumbrar estes aspectos nos seres humanos não é atividade difícil. Vemos exemplificativamente na Bíblia Sagrada quando olhamos a passagem do encontro de Cristo com a mulher samaritana, no Evangelho de João, capítulo quatro:

– Físicas: a mulher foi buscar água, os discípulos tinham ido comprar comida.

– Espirituais: Jesus disse que tinha água espiritual para dar à mulher, e não somente afirma que tem, mas deixa claro a ela sua necessidade.

– Emocionais: a mulher era carente emocionalmente, tivera cinco maridos. É fácil, inclusive, falar mal dessa mulher, mas não há palavras vazias na Bíblia. Ela houvera sido casada cinco vezes. O texto fala em cinco maridos. Se adúltera, teria sido apedrejada. Se repudiada, não poderia casar de novo. Não é impossível nem exagero pensarmos até na possibilidade de que houvesse ficado viúva cinco vezes, ainda que não o possamos confirmar.

– Intelectuais: a mulher queria saber onde se devia adorar. Tão logo viu em Jesus um mestre, aproveitou a oportunidade para aprender, para satisfazer-se intelectualmente.

– Sociais: a mulher foi à tarde buscar água, fora do horário normal às mulheres, mas ela descobre que Jesus era alguém especial, um rabi, um mestre. Feito isso, ela compartilha com toda a cidade.

Este texto bíblico exemplifica bem os enfoques esposados por Naomi Brill. “Necessidades não atendidas geram sofrimento, e mesmo que atendidos precisam ser compreendidos”5. Aqui surge o campo fértil para atuação da igreja, aqui salta aos olhos a Missão Integral da Igreja.

Ao olhar para estas necessidades humanas abordadas pela Psicologia Humanista no final do século 20, mas já previstas na Palavra de Deus e no diálogo de Cristo há cerca de dois mil anos, não me escapou observar que a Igreja presente em Atos dos Apóstolos 2.42-46, surge como resposta a todas estas necessidades, e crava ali aquilo que chamo de Pilares da Missão Integral da Igreja.

A referência bíblia supracitada diz: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum […] E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração”.6

Os principais pilares da Missão Integral da Igreja que consigo divisar aqui são os seguintes: Doutrina dos Apóstolos (διδαχη = didache); Comunhão (κοινωνια = koinonia); Partir do Pão (αρτος κλασις = klasisartos); Orações (προσευχη = proseuche); Unânimes (ομοθυμαδον = homothumadon).

Uma Igreja que pratica a Missão Integral não se afasta da Doutrina dos Apóstolos (διδαχη = didache). Ao falarmos desta, estamos a falar de satisfação das necessidades intelectuais. Estamos a falar de uma Igreja que acrescenta conhecimentos aos seus membros. Estamos a falar de uma Igreja na qual os seres humanos crescem intelectualmente, aprendem, se desenvolvem, praticam culto racional, inteligente.

Na Igreja de Cristo não há ausência de Comunhão (κοινωνια = koinonia), existe satisfação das necessidades emocionais. É uma Igreja que acolhe, que abraça, que sara feridas e promove curas emocionais. É uma Igreja que perdoa e ensina perdão.

Na Igreja da Missão Integral não se esquece do Partir do Pão (αρτος κλασις = klasisartos), jamais faltará satisfação das necessidades físicas para os seres humanos carentes. É uma Igreja que faz ações sociais. É uma Igreja que não vê nos milagres das multiplicações dos pães um Jesus apenas miraculoso, mas vê um Jesus preocupado com os seres humanos em sua integralidade.

A Igreja da Missão Integral jamais se afasta das orações (προσευχη = proseuche). Jamais faltará nela a satisfação das necessidades espirituais. É uma igreja que conduz os seres humanos a uma vida de profunda intimidade com Deus através das orações. Ela ensina que através das orações é que se alcança o sobrenatural, e se preenche esta lacuna na alma humana que clama por Deus.

A palavra unânimes (ομοθυμαδον=homothumadon) talvez seja o termo mais forte para exemplificar aquilo que chamaremos de satisfação das necessidades sociais. Todo o texto e o contexto falam de uma Igreja que vive e convive, de uma Igreja que partilha e interage, de uma Igreja que tem e prática vida social. Numa Igreja que se pratica a Missão Integral jamais faltará o pilar da satisfação das necessidades sociais do ser humano.

Reflitamos sobre isto, reflitamos que a Igreja de Cristo somos nós. Que Deus nos dê sabedoria e graça para, muito acima de conhecermos tão somente Sua Palavra, termos como praticá-la.

Soli Deo glória.

Notas bibliográficas

1 DAVIS, Billie. Uma perspectiva sobre a Natureza Humana. In: PALMER, Michael D. (Org.) Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 186.
2 COSTA, S.G. Abordagem humanista: a crença no poder das escolhas. In: Palmer
3 COSTA, S.G. Psicologia aplicada à administração. São Paulo: Elsevier. 2011.
4 Idem
5 LOURENÇO, C.E.N. Da Clínica Pastoral ao mentoreamento. Ed. Innovati, 2014.
6 Bíblia de Estudo Almeida Revista e Corrigida. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. At 2:47

Por, Carlos Eduardo Neres Lourenço.

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