As falsas notícias no âmbito social

As falsas notícias no âmbito socialVivemos em uma época conturbada em nossa sociedade, o uso da internet de um modo quase onipresente em nossas vidas tem resultado em uma série de consequências até pouco tempo inimagináveis. A indústria fonográfica procura se reinventar ante o mundo dos downloads e das plataformas de streaming; já se falam em crise da televisão aberta diante do youtube e da imensa gama de produções cinematográficas, de séries, desenhos animados e até telejornais exclusivamente para a internet. O universo dos ebooks é algo impossível de ser desconsiderado, por isso todas as grandes editoras e empresas de comunicação impressa já migraram parcial, e outras integralmente, para esse modelo de distribuição de conhecimento.

Se todas estas áreas da produção cultural foram atingidas frontalmente por meio do desenvolvimento de novas ideias na internet, a produção de notícias e informação não ficou ilesa. A esmagadora maioria dos tradicionais jornais tiveram que dedicar atenção e investimentos em plataformas online, mais que isso, precisaram aprender a vincular notícias em 144 caracteres, por meio de fotos legendadas, ou apenas em 10 segundos.

Contudo, talvez o que mais impactou os grandes veículos de comunicação tradicionais não foi a necessidade de adequação a determinados formatos vinculados a cada nova rede social ou aplicativos que surgem, e sim, a concorrência selvagem e indiscriminada que se impôs diante desse modelo de produção de informação.

Qualquer pessoa agora pode ser produtora de conteúdo informacional, ou seja, o conteúdo produzido por um grande conglomerado jornalístico está no mesmo ambiente de acesso que a matéria produzida por um anônimo, muitas vezes até sem qualquer intenção jornalístico-econômica, mas que atrai a atenção de quem acessa determinado ambiente virtual.

Alguém pode pensar: “Mas o conteúdo produzido pela grande mídia tem mais valor que o divulgado por um anônimo sem qualificação jornalística”. Não é isso que a realidade tem demonstrado. Posts e compartilhamentos de pessoas próximas – amigos e parentes – acabam gerando mais empatia e identificação do que aquilo que as grandes marcas veiculam na internet. Ou seja, transita-se com facilidade entre os critérios de credibilidade e afinidade.

É nesta ambiência que se abre espaço para notícias falsas – as denominadas Fake News – que se propagam com a voracidade de uma erva daninha. Como a grande mídia está sempre na berlinda do julgamento em face da acusação de estar a serviço de determinados setores econômicos e políticos, as notícias divulgadas por anônimos ganham força e longevidade.

O critério entre verdade e mentira torna-se nebuloso, e neste contexto de ceticismo e relativismo é que surge uma nova categoria de análise do discurso: a pós-verdade. Define-se pós-verdade como o ambiente na esfera pública no qual posições subjetivas (opiniões, crenças, boatos, teorias da conspiração) tem valor equivalente ou maior do que dados e informações objetivas (teorias científicas, investigações, relatórios).

Não é mais necessário chegar à fonte de determinada informação; se ela expressa exatamente o que alguém e seu grupo pensam, ela merece credibilidade, reprodutibilidade e ampla defesa. O desejo de que aquela informação seja verdade constitui-se como o próprio fundamento de credibilidade desta notícia.

A junção entre Fake News e pós-verdade produz um ambiente de total insegurança informacional, o que faz o jogo político-eleitoreiro se tornar ainda mais sujo. A imprensa mundial já divulga que há fortes indícios do uso de um exército de bots (programas de computador) e até mesmo pessoas reais para gerenciar perfis falsos em redes sociais e assim produzir e induzir a proliferação de Fake News, cujo resultado é o impacto direto no resultado de eleições nacionais – os casos mais recentes são Estados Unidos, Rússia e Brasil.

Diante desse complexo quadro, exige-se muito discernimento da Igreja contemporânea. Devemos ser promotores e propagadores do bem e da verdade, nunca da mentira ou do ódio (Provérbios 10.32; 15.28). Os extremismos – políticos, sociais e culturais – que tanto caracterizam nosso meio não podem ser a tônica do comportamento daqueles que fazem parte da comunidade dos santos, ao contrário, somos o povo da moderação e da prudência (2 Timóteo 1.7).

Em um momento de eleições como o que se aproxima é necessário estarmos munidos da verdade; manter distância das falácias e dos argumentos retóricos, dedicando-nos assim para o exercício de um voto consciente. Não podemos precipitar-nos de, assim como aqueles que não têm o entendimento iluminado pelo Evangelho, desacreditar em todos e descomprometermo-nos com o bem-estar de nossa sociedade. É bem verdade que somos cidadãos do céu, mas enquanto estivermos aqui, devemos lutar pelo bem de nossa nação (Provérbios 14.34; 28.2).

Não devemos cair na ilusão de candidatos que se apresentem tão bons e nobres, quase com características messiânicas. Devemos ter a maturidade espiritual e política para compreender que os projetos e planos humanos são completamente limitados, e por melhor que sejam as pessoas, é necessário reconhecer que as estruturas das instituições políticas brasileira estão corroídas por corrupção e pecado. A mudança que aguardamos enquanto nação não vem de um homem, mas através do desenvolvimento espiritual, ético e político de nossos cidadãos.

O voto consciente é um mecanismo para buscarmos uma sociedade melhor, nunca deve ser um instrumento para nos dividir enquanto povo de Deus. Por isso, ao invés de demonizarmos pessoas ou partidos, em detrimento de santificarmos outros, sejamos conscientes de que nossa luta é contra o espírito desse tempo que se alimenta de mentiras e inverdades.

Se fosse possível a existência de uma agremiação político-partidária que refletisse os anseios do coração de Deus, Jesus não teria fundado uma comunidade de santos, e sim uma legenda partidária.

Em tempos de Fake News, pós-verdade e sistema político-partidário em crise, a Igreja deve voltar-se para a essência do Evangelho; não se permitir intrometer-se em querelas por poder e riqueza, mas postar-se continuamente como coluna e firmeza da verdade (1 Timóteo 3.15). Não podemos terceirizar nossa responsabilidade de ser sal da terra e luz do mundo (Mateus 5.13, 14), devemos ter um papel ativo em todas as esferas da sociedade.

Aquilo que cabe ao povo de Deus – lutar pela verdade, justiça e paz – não pode ser delegado a instituição alguma. Assumamos nosso papel, façamos de nossas falas públicas na internet momentos de edificação e testemunho para todos aqueles que cegos, não conseguem perceber a luz de Cristo nesta geração.

Nossas armas são espirituais, mas poderosas para desmascarar as estruturas do Maligno que operam neste mundo (2 Coríntios 10.4). Lutemos pelo estabelecimento da verdade em todos os campos de nossa sociedade, inclusive na política. Pois como afirmou Paulo: “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2 Coríntios 13.8).

Por, Thiago Brazil.

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