As crianças, os discípulos e o Reino de Deus

As crianças, os discípulos e o Reino de DeusO filósofo dinamarquês, Søren Kierkegaard, disse certa vez que “coisa terrível é estar sozinho com o Novo Testamento”, pois sua mensagem é contundente e requer uma única atitude de quem o lê — praticar o que está escrito. Na verdade, não exageraria como ele, mas apenas diria que coisa terrível é considerar a condição colocada por Jesus Cristo para se “ver” e, posteriormente, “entrar” no Reino de Deus. Os textos que tratam de ambos os aspectos são precisos, concretos e não permitem tergiversações nem manipulações exegéticas.

Conquanto seja necessário nascer para experimentar a realidade da existência, de igual forma, é imprescindível “nascer de novo”, converter o coração, os olhos e a mente, enfim, todo o ser interior para enxergar o Reino de Deus. Esta foi a instrução de Jesus ao “mestre de Israel”, Nicodemos (João 3.1-15). Cristo disse que se o mestre de Israel não nascesse novamente não poderia “ver” o Reino de Deus (João 3.3). O aristocrata admira-se do que Jesus disse e pensa que o Mestre estava sugerindo um nascimento biológico que, mesmo sendo possível, em nada o mudaria, pois a educação judaica o instruiria a enxergar a realidade da mesma forma que antes. A expectativa messiânica judaica levava o povo de Israel, desde leigos, profetas, sacerdotes e até mesmo autoridades, a esperar do Messias e, do Reino de Deus, características que não se apresentaram em Jesus e nem em seu ministério (Mateus 11.3; Lucas 7.19; João 12.34; 18.33-37; 19.21).

Ver Jesus e o Reino de Deus em meio a tudo o que acontecia naquele momento histórico do primeiro século, tendo a expectativa messiânica como pano de fundo, era algo praticamente impossível. Apenas uma transformação radical poderia proporcionar isso (Mateus 11.4-6). Tal conversão dos sentidos modificava completamente a forma de enxergar o mundo e, por conseguinte, o ministério de Jesus (Mateus 6.22,23). É justamente por isso que, enquanto os judeus titubeavam acerca da decisão de se entravam ou não no Reino de Deus (Lucas 16.16), e os teólogos da época impediam os que queriam entrar (Mateus 23.13), Marcos registra em sua narrativa que Jesus se “indignou” com a inoportuna intervenção dos discípulos em impedir que as crianças, súditas e proprietárias legítimas do Reino de Deus se aproximassem do seu Rei (Marcos 10.13,14).

Com o nosso habitual enraizamento e a normal egolatria desenvolvida ao longo da vida, qualquer texto dessa natureza é algo a se temer. Aos discípulos, que disputavam entre si quem era o maior (Marcos 9.33-37), a orientação crucial do Mestre — quem não se tornar como esta criança (uma criança tomada aleatoriamente, registre-se) não pode de forma alguma entrar no Reino —, deve ter sido um escândalo. A radicalidade da posição do Mestre em relação à criança é algo sem precedente na história, pois o próprio conceito de infância que Jesus, à época, já possuía demorou quase dois milênios para se desenvolver.

Acerca desta posição inequívoca do Mestre, Hans Balthasar, observa que as “crianças, tanto entre os Judeus como entre os Romanos, não passavam de uma etapa prévia para o pleno ser-homem”, isto é, “a sua consciência distintiva não era reconhecida por ninguém, no seu valor próprio”. E justamente porque, completa o mesmo autor, “a infância era classificada como um simples ainda-não, ninguém se preocupava com a forma do espírito humano prévia à livre decisão moral, mais ainda, à íntegra existência espiritual e corporal do homem”.1 Não obstante, tal equívoco, Cristo sabe que, diz Balthasar, “o estado da primeira infância não é moralmente indiferente e insignificante; pelo contrário, os modos existenciais soterrados da criança indicam aos adultos uma zona originária em que tudo se apresenta no que é reto, no verdadeiro e no bom, numa tranquilidade e segurança oculta que não pode desvalorizar-se como ‘pré-ética’ ou inconsciente ([…]), que, ao invés, revela uma esfera do originário ser-salvo, mais ainda — porque a criança, de início, ainda não pode fazer uma distinção entre o amor dos pais e o amor divino—, contém o momento da santidade”.2 Uma vez que Jesus é ciente da incontornável emancipação da criança, pois sabe que a perda de tal “proteção originária é o caminho inevitável do ser humano”, o que o Mestre “tem em mente”, diz Balthasar, “é a preservação, no tempo da maturidade, dos bens santos ‘supraéticos’ próprios da origem”.3 Acolher o Reino como criança, é manter a perspectiva de confiança supraética. Todavia, tal é impossível quando se tem expectativas e opiniões cristalizadas.

Uma vez que a forma como o Filho de Deus trouxe o Reino não correspondia à expectativa do messianismo judeu, pois a novidade anunciada por Jesus era singela, discreta, sutil e despretensiosa do ponto de vista da ostentação grandiloquente comum aos governantes humanos, é fato que houve como ainda há, rejeição popular (Lucas 17.20,21). A revolução do Mestre era algo que não dependia das circunstâncias externas, o seu Reino, disse Ele a Pilatos, “é eterno”. Mas isso não significa que se deve esperar a instalação temporal do Reino para se viver nele. Não, ele pode ser experimentado aqui e agora. Entretanto, com as dificuldades e vicissitudes da vida, as condições precárias e tudo o mais, como “ver” o Reino? Somente com uma pureza e confiança próprias da mentalidade infantil. Receber o Reino de Deus como criança significa substituir a “fé expectante” que imobiliza-nos em nossa malícia e espera somente do outro, por uma “fé enactante”, ou seja, uma fé que acredita sem comprovação alguma, mas que mobiliza e leva a agir, pois mesmo tendo vontade própria, ela abre mão para confiar no Pai (Mateus 26.39; João 6.38).

Diferentemente dos adultos que querem segurança e certeza para amanhã, o “instante é pleno” para a criança e ela parece discernir melhor o tempo, por isso, diz Balthasar, ela “não se assusta e [nem se] atemoriza perante a fugacidade do instante, cuja percepção a impediria de acolher na sua plenitude”4 o tempo e o que está acontecendo no momento. O não saber assim se comportar fez com que Jesus censurasse os judeus (Mateus 11.1619; Lucas 5.33-39). A nação escolhida esperava muito de Deus e nada fazia para que se pudesse discernir o momento. Assim é que, no mesmo prisma de Cristo, Paulo recomenda ser adulto no entendimento, mas criança na malícia (1 Coríntios 14.20). Tal é obrigatório, pois diante da Palavra de Deus, “todos permanecemos crianças”, afirma Balthasar, posto “que não compreendemos tudo até ao fundo, e temos, por isso, de nos resguardar de olhar a nossa incompreensão como a fronteira objetiva na aceitação da doutrina proclamada”.5

Disto Cristo nos deu exemplo, Ele é a criança arquetípica, pois dirige-se a Deus chamando-o de Aba, ou seja, uma onomatopeia aramaica, um balbucio próprio dos bebês e das crianças no período da primeira infância que, por não saberem ainda falar, dirigiam-se dessa forma ao seu genitor (Marcos 14.36). Ninguém tinha ousado falar com tamanha intimidade. Assim, tornar-se criança é uma decisão consciente e madura, pois não sendo mais possível voltar a esse período, só se é capaz de tornar-se assim quem decide. Um poeta, Novalis, chama de “criança sintética” ao adulto que, “simultaneamente recupera, em nível superior, a espontaneidade concreta da criança”6 e, por isso, conscientemente decide ser assim. Ser criança quando não mais se é, só pode acontecer com uma decisão radical: Ver com bondade todas as coisas e acreditar que tudo dará certo mesmo se a realidade insiste em acenar na direção contrária. E tal confiabilidade da criança só é possível porque ela acredita no pai. Justamente por isso, a condição para “ver” e “entrar” no Reino de Deus, apresentada pelo Filho de Deus, continua em vigência.

Notas

1 BALTHASAR, Hans Ur von. Se não vos tornardes como esta criança. 1.ed. Prior Velho: Paulinas, 2014, p.21.
2 Ibid., pp.21-22.
3 Ibid., p.22.
4 Ibid., pp.57-58.
5 Ibid., p.56.
6 Ibid., p.23.

Por, César Moisés Carvalho.

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