Arlindo, o evangelista

Arlindo, o evangelistaFinal dos anos mil novecentos e sessenta. No culto de sábado à noite na Assembleia de Deus da Rua André Manojo 53, em Osasco (SP), Arlindo entregou a sua vida a Jesus, foi salvo e instantaneamente liberto dos demônios que o atormentavam e o haviam levado, diversas vezes, aos hospícios da região. Estive presente naquele culto.

A transformação daquele homem foi radical. Rompeu de vez com tudo o que lhe parecia comprometedor. Ao passar por minha residência numa de suas jornadas evangelísticas, ofereci-lhe café, ao que ele agradeceu e respondeu prontamente: “Jesus me libertou do café”. Não me surpreendi com a resposta. Se ele achava que o café exercia algum domínio em sua vida, então ele queria ser totalmente livre.

A chamada

Na Escola Dominical da manhã seguinte, Arlindo foi um dos primeiros a chegar. Pediu folhetos em grande quantidade e saiu a evangelizar especialmente na zona rural da região oeste de São Paulo. Indo de casa em casa, nada o intimidava, nem mesmo os cães de guarda de fazendas e chácaras.

Naquele tempo eu era funcionário da fundição da Ford Motor do Brasil, em Presidente Altino, Osasco, e surpreendi-me ao ver o irmão Arlindo trabalhando lá. Era grande privilégio conseguir um emprego naquela empresa, que pagava os melhores salários da região. Como teria ele conseguido trabalhar ali, sendo uma pessoa tão simples, de parcos conhecimentos?

Em todos os momentos disponíveis percebia-se o ardor evangelístico de Arlindo. Irradiando a graça de Deus, ele dava testemunho vivo da sua conversão a todos os colegas.

A provisão

Não passou muito tempo, e Arlindo já não trabalhava mais na companhia. Havia sido aposentado. A companhia examinou o histórico da saúde dele, e ao constatar que ele havia sido internado diversas vezes com problemas “mentais“, de imediato providenciaram a sua aposentadoria com o seu excelente salário integral!

Livre de dificuldades financeiras, ele inicia, então, a nova fase de seu ministério evangelístico, agora de tempo integral. Bíblia na mão e folhetos na pasta, ele passava o dia pregando no Jardim da Luz, em São Paulo. Como a cidade fechasse esse parque, o evangelista muda-se para a Praça da República, fazendo dali o seu púlpito durante longos anos. Diversas vezes passei por aquela praça e me detive, ao longe, assombrado com o fervor e a sabedoria com que Arlindo comunicava o Evangelho.

O dom de evangelizar desse irmão era tão evidente que o pastor da igreja, ao separá-lo para o diaconato, disse: “Estamos separando esse irmão para diácono, mas o dom dele é de evangelista”. Prevalecia nessa igreja a tradição, evidentemente sem nenhum apoio bíblico, de que o obreiro tem de ocupar degrau por degrau na sua ascensão ministerial. Uma espécie de hierarquia.

A mensagem

Surpreendia-me a clareza da mensagem pregada por Arlindo. Pelo que era do meu conhecimento, ele não cursara nenhuma escola teológica nem frequentava a Escola Dominical. E como poderia pregar daquele jeito?

Era eu pregador assíduo nos cultos ao ar livre que a igreja realizava, mas aquele irmão havia conseguido algo incrível. Ele encadeava os versículos da Bíblia numa perfeita coerência, de sorte que a mensagem ficava clara e cem por cento bíblica. Eis aqui um exemplo:

“Jesus veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos os que o receberam, àqueles que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus— filhos nascidos não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do unigênito Filho de Deus. A condenação é esta: A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz porque as obras deles eram más. Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem vive de acordo com a verdade vem para a luz, a fim de que se veja claramente que as suas obras são feitas em Deus.

“Diz a Escritura Sagrada que João Batista viu Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Jesus é o único que perdoa os pecados. Ele disse “ Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai o Pai a não ser por mim“ , etc. etc.

Galardão

Arlindo conhecia a Bíblia, e esta era a sua mensagem. Era ungido e eloquente, e as pessoas não resistiam ao poder com que pregava. Formavam um grupo atento à sua frente, e muitos atendiam ao apelo, ajoelhando-se no chão batido da praça e implorando publicamente o perdão de seus pecados.

Numa de minhas idas ao Brasil, soube da realização de um culto em ação de graças por mil decisões ocorridas na Praça da República. Os convertidos de Arlindo estão espalhados por muitas igrejas da Grande São Paulo.

O abençoado e dinâmico ministério de Arlindo continuou por mais alguns anos, até que ele foi chamado pelo Senhor da Seara ao merecido descanso eterno. Partiu cheio de alegria e carregado de frutos. A ele certamente se aplicam estas palavras:

“Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzirem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre” (Daniel 12.3).

Por, Abraão de Almeida.

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