Amizade com herege é possível?

Como entender 2 João, versículo 10? A recomendação apostólica de sequer saudar os hereges também serve para os nossos dias?

Amizade com herege é possívelQuando analisamos o texto bíblico em apreço, encontramos a seguinte perícope: “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco os saudeis” (ARC). A Bíblia Viva nos diz o seguinte: “(…) não o convide a entrar em suas casas. Não o apoie de forma nenhuma”. Aparentemente, essa instrução é contra a orientação de Jesus em Mateus 5.44 e Lucas 6.27, que são dois textos que falam sobre o amor devotado aos inimigos e quanto a abençoar os que nos maldizem. Entretanto, elas se referem a situações distintas. Existem orientações bíblicas que exortam o cristão a afastar-se daqueles que causam divisão e dos que negam o poder de Deus (2 Timóteo 3.5; Tito 3.10). Porém, o apóstolo João indica que esse tipo de tratamento deve ser dispensado aos falsos mestres, enganadores, que mentem afirmando comungar conosco a mesma fé cristã, além de visitarem as igrejas para apresentar suas falsas doutrinas.

Os pregadores itinerantes daquela época, devido à precariedade das pousadas, hospedavam-se nas residências cristãs. Receber em casa essas pessoas, dar-lhes as boas-vindas, saudá-las com a paz e abençoá-las, seria uma maneira de concordar e reconhecê-las como mestres. O tratamento sugerido pelo apóstolo João não deve ser destinado a alguém que apenas chega a nossa casa para uma visita, mas a alguém que vem com um propósito de enganar com falsas doutrinas, um verdadeiro missionário do mal. Além disso, o apóstolo refere-se aos mestres que não confessavam que Jesus Cristo veio em carne, e não a todo e qualquer erro doutrinário. Essa recomendação não descumpria a hospitalidade que era uma prática comum e incentivada entre os crentes primevos (1 Timóteo 3.2; 5.10; 1 Pedro 4.9).

A dureza dessa instrução do presbítero à Igreja, que para nós causa estranheza e parece intolerante, é resultado, ao contrário, do amor inserido em suas epístolas. Como a comunidade cristã daqueles tempos estava exposta a esses falsos mestres, João, movido pelo amor, procurou informar e advertir aos demais com urgência sobre esses homens mal intencionados.

Nos textos de Mateus e Lucas, Jesus procurou definir os pilares do cristianismo. O amor divino para com todos deveria guiar as ações, embora muitos sejam inimigos do Altíssimo. Os ímpios são tratados com amor, ainda que, pela Sua justiça e coerência, Deus não deixará de considerar seus erros. Isso acontece devido à bondade, tolerância e paciência de Deus, que tem o objetivo de levar os ímpios ao arrependimento (Romanos 2.4).

Assim, o texto não nos autoriza evitar amizade com adeptos de outras religiões. Se assim fosse, não seria possível falar de Jesus para eles, ou mesmo na relação familiar. Os filhos também poderiam desobedecer ao mandamento que ordena honrar aos pais em casos de religiões diferentes. uma coisa é honrar os pais, outra é compactuar com eles em ideias e opiniões erradas.

A Bíblia nos adverte a respeito das más companhias (1 Coríntios 15.33; Salmo 1.1). No entanto, não ter o mesmo entendimento dos ensinos bíblicos não é motivo para não ter amizade. Em 2 Timóteo 2.25 e em 1 Pedro 3.15, a orientação é corrigir com delicadeza, educação e respeito os que se manifestam contra, pois “pode ser que Deus lhes dê a oportunidade de se arrependerem e conhecer a verdade”. Devemos ter boa conduta entre os ímpios, o que não é fácil conseguir com um relacionamento superficial (1 Pedro 2.12).

Por, José Arimates de Oliveira.

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